Mark Fisher / National Geographic
Mark Fisher / National Geographic

Documentários resgatam histórias e mostram riscos do aquecimento global

‘Perdido no Everest’ e ‘Expedição Everest’ contam casos da sua majestade, a montanha

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2020 | 05h00

Neste ano, por causa da pandemia de covid-19, apenas 49 pessoas atingiram o cume do Monte Everest, a mais alta montanha da Terra, com 8.848 metros. Mas, em 2019, houve um recorde, quando 876 alpinistas alcançaram o topo do mundo. Ficaram famosas as fotos de longas filas para chegar lá, o que contribuiu para a morte de 11 pessoas. No total, mais de mil pessoas estiveram no Everest. Entre elas, duas equipes da National Geographic. O resultado está nos documentários Perdido no Everest e Expedição Everest, que vão ser exibidos no sábado, 25, às 14h05 e 14h50 respectivamente. 

Perdido no Everest refaz os passos da expedição de George Mallory e Andrew “Sandy” Irvine, que desapareceram perto do cume em 1924. O corpo de Mallory foi encontrado em 1999. A equipe liderada pelo explorador Mark Synnott e filmada por Renan Ozturk tinha como objetivo chegar ao cadáver de Irvine e, principalmente, à câmera fotográfica que pode conter provas de que a dupla inglesa foi a primeira a pisar o topo – e não o neozelandês Edmund Hillary e o nepalês Tenzing Norgay em 1953. Buscas anteriores não tiveram sucesso. “Pudemos usar novas tecnologias para procurar Irvine em vez de fazer tudo a pé”, disse Synnott num evento de lançamento.

Entre os recursos estão um drone, que captou imagens detalhadas da área em que o corpo supostamente está. “Foi muito mais dramático e intenso do que imaginava”, afirmou o alpinista, que se soltou da corda de segurança para procurar pelo corpo perto do abismo, contrariando os conselhos dos sherpas, os guias nepaleses que carregam os equipamentos. “Senti que, se não fizesse isso, todo o trabalho até aquele momento seria perdido.”

A economia nepalesa é altamente dependente do turismo, inclusive o gerado pelos alpinistas. Só de taxas para o governo, cada pessoa paga US$ 11 mil para poder escalar o Everest. O país é pobre e tenta se recuperar do forte terremoto de 2015. Não há limite de permissões anuais, e curiosos que nunca escalaram montanhas altas se arriscam e causam superlotação. Muitos nepaleses dependem da principal estação de escalada, que acontece entre o início de abril ao fim de maio. Em 2019, com tanta gente e poucos dias de condições meteorológicas propícias para se chegar ao cume, enormes filas se formaram. Em 2020, sem estrangeiros por causa da pandemia, a economia local está em frangalhos. 

Além de ser a base da economia, o Himalaia abastece de água direta ou indiretamente quase 2 bilhões de pessoas. A rápida retração dos glaciares ameaça essa população. Estudar como a mudança climática está afetando as montanhas altas era o objetivo do grupo reunido pela National Geographic, com geólogos, biólogos, climatologistas e glaciologistas, que resultou em Expedição Everest.

“Nunca tivemos a chance de trabalhar numa elevação tão alta”, contou Mariusz Potocki, pesquisador de glaciologia e ciência climática da Universidade do Maine. Seu objetivo era coletar gelo acima de 8 mil metros. “As montanhas altas são frágeis e reagem muito rapidamente às alterações climáticas”, afirmou. Antigamente, na época das monções, havia nevascas no acampamento-base, que fica a 5.300 metros de altitude. “Hoje, só chove, o que é perturbador.” O gelo foi coletado com a ajuda de uma mega furadeira. Nessas camadas de gelo, Potocki espera encontrar pistas sobre o passado do Everest. Os pesquisadores já descobriram, por exemplo, que a superfície das geleiras é antiga, com 2 mil anos de idade. 

Potocki participou da instalação da mais alta estação meteorológica do mundo, com o objetivo de prever com mais precisão as temperaturas no Everest, o que ajuda os montanhistas e a população ao redor. “Desde 1985, houve muitas inundações, que causaram enormes danos. E a retração nas geleiras é perceptível a olho nu”, disse Tenzing Sherpa, que é de Namche Bazaar, no sopé do Everest, e pesquisador do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas. “Hoje pode estar havendo um fluxo grande de água, mas é possível que falte quando houver menos gelo nas montanhas”, afirmou Sherpa. Para ele, é importante somar a ciência ao respeito à população local. “Para eles o Everest é um deus.” E não é possível simplesmente proibir o turismo que, ao mesmo tempo em que ajuda a destruir as geleiras, é o ganha-pão de milhares de pessoas. “O governo precisa encontrar maneiras de evitar que se repita o que aconteceu no ano passado.”

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