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Documentário analisa como interação entre humanos e animais dá origem a novas doenças

'Todos os surtos podem ser atribuídos a atividades humanas', afirma a patologista Tracey S. McNamara, consultora do filme 'Contágio'

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

08 de outubro de 2020 | 05h00

Com mais de 1 milhão de mortos e quase 35 milhões de infectados em nove meses, é óbvio que os governos dos países e a humanidade como um todo não fizeram um bom trabalho na prevenção e no combate da pandemia. O documentário Coronavírus: Alerta Ambiental, que tem exibição na sexta, 9, às 18h, no National Geographic, com entrevistas com a primatologista Jane Goodall e o ativista Paul Watson, entre outros, pretende analisar como a interação entre seres humanos e animais tem dado origem a novas doenças como a covid-19. “A mensagem mais importante que está sendo perdida nessa avalanche de informações sobre este coronavírus é que os animais não têm culpa”, disse Tracey S. McNamara, patologista veterinária da Western University, na Califórnia, e consultora do filme Contágio, em entrevista com a participação do Estadão. “Todos os surtos podem ser atribuídos a atividades humanas. E é isso que precisamos mudar.”

A hipótese mais aceita para a origem do vírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, é que ele passou dos morcegos para os pangolins vendidos num mercado em Wuhan, na China, e daí para os humanos. “Do ponto de vista da virologia, esses mercados são como uma placa de Petri, com diferentes espécies uma em cima da outra”, disse McNamara. 

Mas ela é contra simplesmente fechar esses mercados. “Precisamos nos afastar dessa visão neocolonialista. Eles fazem parte da cultura há muito tempo. É comida fresca. Fora que há o risco de esse comércio continuar, só que clandestinamente. Eu acho que podemos encontrar um meio-termo, que é introduzir medidas de biossegurança. Por exemplo, não misturar espécies. Há uma área para vender morcegos e outra para vender primatas, sem que esteja um em cima do outro. Como veterinária, pessoalmente, eu preferiria que ninguém comesse animais selvagens. Mas não posso impor minha visão a outras culturas. Em muitas nações em desenvolvimento, há uma necessidade de proteína. É preciso ser pragmático e realista.”

McNamara acha que mais foco deveria ser colocado na vigilância de doenças nos animais selvagens, porque, muitas vezes, eles são os indicadores de que um vírus pulou de uma espécie para outra. Ela citou o exemplo do macaco bugio, que serve como alerta de surto de febre amarela no Brasil. “É um exemplo clássico de como os animais não são nossos inimigos. Mas as pessoas não sabem disso e querem matar os macacos, matar os morcegos.” 

Muitas vezes, inclusive, os animais são a solução para uma pandemia que afeta humanos também. McNamara mencionou a Austrália, que criou uma vacina contra o vírus Hendra para cavalos, eliminando, assim, o elemento de ligação entre os morcegos e os humanos. 

Os choques entre humanos e animais têm sido mais frequentes, porque estamos invadindo seus hábitats. Como escreveu Richard Preston no livro Zona Quente, o Ebola foi uma “vingança da floresta tropical”. “Se não cortássemos tantas árvores das matas, forçando a migração dos animais e aproximando a vida selvagem das pessoas, talvez não víssemos tantos surtos.” 

De novo, ela citou um exemplo brasileiro, da malária: pequenas áreas de desflorestamento são o criadouro perfeito para os mosquitos anofelinos. “Parece algo irrelevante, mas é perfeito para a larva. E aí você tem mais mortes de seres humanos por causa da atividade humana, porque ninguém estava prestando atenção no manejo da terra.” Ela acrescentou que a América do Sul é ignorada pelos programas mundiais de segurança de saúde. “É uma perspectiva muito míope, porque todos assumem que a próxima pandemia vai vir da África ou da Ásia. Mas e a Zika? E o H5N1, que apareceu no México? Nós precisamos estar preparados para detectar qualquer coisa incomum acontecendo em qualquer lugar.”

Por isso, a prevenção das doenças infecciosas não passa apenas pelo trabalho de profissionais da área de saúde humana, mas também agricultura, agências veterinárias e de vida selvagem, ecossistemas e clima. 

“É preciso um esforço e cooperação globais, levando em conta os animais também. Caso contrário, os seres humanos viram sentinelas. E aí vamos continuar não detectando os surtos zoonóticos em sua origem e agindo apenas quando tivermos pessoas nas emergências dos hospitais ou no necrotério.” 

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