Divulgação
Divulgação

Do front aos bastidores da guerra

Série do Multishow mostra visão inédita da tomada do Complexo do Alemão

Patrícia Villalba, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2011 | 09h00

Foi de um dia para o outro, no calor dos acontecimentos em torno da ocupação do Complexo do Alemão, que o Grupo Cultural AfroReggae resolveu produzir o programa Papo de Polícia.

Na segunda-feira, 29 de novembro, um dia depois de participar da operação das tropas de segurança que expulsaram traficantes da área, o policial civil Beto Chaves se mudou para uma casa na Favela da Grota. Ali, passou sete dias documentando impressões e colhendo depoimentos para o reality que estreia amanhã, às 21h15, no Multishow. São sete episódios, um para cada dia na favela, apresentados diariamente. A ideia surgiu de uma conversa entre o coordenador executivo do AfroReggae, José Júnior, o diretor Rafael Degraud e o chefe da Polícia Civil do Rio, Allan Turnowski. Nesta entrevista ao Estado, José Júnior fala sobre os bastidores dessa operação televisiva.

Vocês agiram rápido para produzir o programa. Já estavam pensando em fazer algo do tipo no Alemão?

Não. É que o AfroReggae trabalha lá há 11 anos. Um dia antes da ocupação (27/11), tivemos uma reunião, onde decidimos mostrar dois pontos de vista que não estavam sendo mostrados - dos moradores e dos policiais. Chamamos o Beto Chaves, que já trabalhava no projeto Papo de Responsa, o RafaelDegraud e veio essa ideia.

E por que o ponto de vista do policial especificamente?

Desde 2008 que a gente trabalha com a polícia civil daqui do Rio. Percebemos que essas pessoas não são ouvidas nunca, parece que o que elas pensam não é muito levado em conta, apesar de serem protagonistas dessas histórias. Quisemos focar no pensamento desses caras, que é uma visão totalmente independente do que o AfroReggae pensa. No fim das contas, a gente concordou com tudo o que o Beto disse no programa.

Mas o Beto não é um policial comum. Acha que ele pode representar toda a categoria?

O Beto não é um caso raro. Depois desse tempo, passei a ter acesso a policiais que considero maravilhosos. Tem muita gente que é bacana e interessante na PM. O Beto é mesmo um cara iluminado, e não é um policial de escritório, mas alguém que vai mesmo pro front. É um cara que faz a diferença, e eu fico feliz quando vejo que tem caras parecidos com ele na polícia. É um DNA que existe. Depois de 18 anos, tenho aqui vários ex-traficantes trabalhando no AfroReggae e já percebi que as pessoas acreditam mais num traficante recuperado do que num policial. Precisamos quebrar esse preconceito.

Um dos melhores momentos do programa é quando, depois de um tempo de conversa, o Beto revela para o entrevistado que é um policial. Por que decidiram manter essa surpresa?

O Beto tem um biotipo que passa como não-policial, pode ser desde playboy até produtor cultural. Perguntei se ele queria ir armado, e ele disse que não. E eu falei ‘cara, não vale a pena você dizer que é policial’. Mas não tivemos problemas com isso, porque todo mundo que falou autorizou a exibição. É claro que as pessoas se sentiam seguras em conversar porque viam que era uma equipe do AfroReggae. Tanto é que não programamos entrevista nenhuma. O Beto passa uma energia positiva, e a gente sabia que, para falar, a pessoa precisava confiar nele.

E qual era o nível de perigo naquele momento?

Existia uma situação de perigo, sim, mas não era tão delicada, digamos. Fiquei sem dormir, porque quem garantia a segurança da equipe era eu, e nem sempre eu estava lá com eles. Havia risco, mas na verdade fazia parte do que a gente queria.

 

Para quem precisa

O que logo chama a atenção na série Papo de Polícia, que estreia hoje, às 21h15, no Multishow, é a capacidade de mostrar visões ainda inéditas sobre um momento que, até outro dia, há pouco mais de dois meses, era tão explorado pela mídia. Além do fato de que o apresentador é um policial civil que dois dias antes das gravações estava se preparando para invadir o gigantesco conjunto de favelas da zona norte carioca, o programa é produzido pelo grupo cultural AfroReggae, que tem mais de dez anos de experiência naquele terreno - duas informações que explicam toda a diferença.

Em forma de diário, o policial e apresentador Beto Chaves resume, em cada um dos sete episódios, a primeira semana após o dia D - domingo, 28 de novembro. Para isso, ele se mudou, na companhia do diretor Rafel Degraud e o diretor de fotografia Chechena, para a casa onde a direção do AfroReggae pretende instalar uma pousada, na favela da Grota.

Desarmado e mais com cara de produtor cultural do que de policial, Beto ouve todo tipo de depoimento - da mãe que acaba de encontrar o corpo do filho de 17 anos no mato ao músico que canta a vida no complexo, e até o diretor das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), responsável pela construção do agora teleférico. Há lágrimas e desgraça, sim, mas música, momentos divertidos e, sobretudo, muita reflexão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.