Do drama fez-se o riso

Mulher moderna padece, ainda mais sendo mãe de adolescente e paquerada pelo terapeuta: a 5ª, e talvez última, temporada da série estreia na Warner

Alline Dauroiz, LOS ANGELES

10 de julho de 2010 | 16h00

Nova personagem. A atriz acha que sua Julia ela está mais para Christine do que para Elaine

 

 

Quando a roteirista Kari Lizer, criadora de Will & Grace, estava em busca da protagonista para sua nova série, The New Adventures of Old Christine, no final de 2005, chegou a pensar que Julia Louis-Dreyfus, atriz que por nove anos viveu a Elaine, de Seinfeld, não seria a pessoa mais adequada para o papel. Baseada na vida da autora, divorciada e mãe de três crianças, a trama pedia uma mulher forte, engraçada, porém vulnerável e suave, imagem um tanto diferente daquela Julia que o público conhecia da TV. "Pensava: ‘Ela é brilhante, divertida, mas não sei se ela é a Christine’", revela Kari. "Então, quando a conheci, tive uma surpresa e me convenci: ‘Bem, Elaine, definitivamente, não é a Julia, e a Julia não é a Elaine. E o mesmo é com Christine. Mas acho que ela está mais para Christine do que para Elaine."

 

Kari tem razão. Julia não é Old Christine, embora, depois de quatro anos e cinco temporadas, a roteirista - e o público - tenha a certeza de que não poderia ter feito melhor escolha: o papel da mãe em crise de meia idade rendeu a Julia um Emmy (o Oscar da TV) em 2006, como melhor atriz de Comédia, prêmio pelo qual foi indicada outras cinco vezes, a última delas, na quinta-feira passada.

 

Exibida na TV aberta dos Estados Unidos, a série obteve ótimos índices de audiência em suas primeiras temporadas (12, 5 milhões de espectadores no 1.º ano e 10,4 milhões no 2.º). Porém, com a queda geral no ibope da TV, a quinta temporada - que a Warner exibe a partir desta quarta-feira, às 21 horas - caiu para 6,6 milhões de espectadores, o que fez a rede CBS cancelar o show. Os fãs, entretanto, ainda esperam que o canal ABC resgate a atração.

 

Amiga da Barbra Streisand. Em entrevista à imprensa internacional, da qual o Estado participou, Julia entra na sala dos jornalistas com sorriso discreto. Não faz a linha "fofa", mas também não chega a ser antipática. Pessoalmente, seu humor é mais seco, menos palhaço. Fala pouco e deixa as perguntas mais profundas para Kari, mas quando acha algo realmente engraçado solta a risada da Old Christine, aquela que acaba com um grunhido.

 

"As pessoas esperam que eu seja engraçada o tempo todo, e eu tento ser, mas não sempre", diz Julia sobre a sina que sofre a maioria dos comediantes. "Isso acontece, principalmente, porque estou na TV e entro na vida das pessoas quando elas estão em suas cozinhas e salas. O povo não só acha que me conhece, mas, como sou baixinha, acham que podem me colocar no bolso e conversar comigo de vez em quando."

 

Ao aceitar a tietagem, Julia, hoje com 39 anos e 21 de carreira, lembra do tempo em que também era apenas uma fã. "Assistia a Barbra Streisand e pensava que ela deveria ser minha melhor amiga (risos)." A atriz lembra ainda de Mary Tyler Moore, Lucille Ball e Madelyn Khan como fontes de inspiração para a comédia, arte que ela considera mais difícil de fazer do que o drama. "A comédia envolve uma questão primordial: ou a coisa é engraçada ou não, não dá para disfarçar."

 

Perita em pagar mico e, como ressalta a atriz, pouco consciente sobre suas falhas, Christine tem um dom: consegue rir de si mesma. Seria esse um retrato da nova geração de mulheres, que se casam, às vezes se divorciam, às vezes criam as crianças sozinhas, mas mantêm o bom humor? Kari é quem responde a questão do Estado.

 

 

Saudade. Como Elaine, do famoso e querido Seinfeld, atriz ganhou 1 Emmy e 1 Globo de Ouro

 

 

"Creio que sim e já conversamos sobre isso. Realmente, a Christine não passa por situações fáceis, como muitas mulheres hoje em dia, mas abordar isso com humor faz tudo ficar mais leve", acredita a autora. "E você já reparou como nossos relacionamentos são complicados? Isso não costumava ser tão complicado no passado. Hoje, as mulheres têm de ser civilizadas e manter a amizade com o ex-marido e a sua nova namorada. Isso, por si só, já é muito ridículo e engraçado."

 

Até hoje, aliás, as situações da série são inspiradas na vida real. A autora garante que na escola de seus filhos existem muitas "Meanie Moms", as mães fúteis e más que vivem ridicularizando Christine na escola do filho. "Algumas delas, inclusive, vieram reclamar que eu estava usando na série situações reais da escola, como o programa de diversidade que eles implantaram", conta Kari.

 

Julia confessa adorar quando as pessoas dizem que são iguais a Old Christine. "As mulheres se identificam, e muito. Acreditem."

 

Terapia do amor. O quinto ano começa com Old Christine tentando salvar a amiga Barb (Wanda Sykes), deportada para as Bahamas. Para isso, tem a brilhante ideia de casar Barb com Richard (Clark Gregg), seu ex-marido, que está na fossa depois que a noiva, a New Christine (Emily Rutherfurd), abandonou-o no altar. Além disso, Ritchie (Trevor Gagnon), filho de Old Christine e Richard, cresceu e, aos 13 anos, começa a ter os típicos problemas da adolescência.

 

A novidade fica para a entrada de Eric McCormack, o Will do Will & Grace, como o dr. Max Kershaw, terapeuta que se apaixona por Old Christine, sua paciente. "Existe uma química linda entre eles. E acho que posso dizer que essa temporada é do Eric", crava a autora, que escreveu seis episódios para o ator, seu pupilo desde Will & Grace.

 

Julia completa: "Nossa sensibilidade e entendimento das coisas são parecidos. Falei pra ele outro dia: ‘Sabe, isso é tão engraçado que sinto como se estivesse trabalhando com você por toda minha vida’".

 

Será então que é dessa vez que Old Christine se acerta no amor? "Ah... não sei. Tem de haver um desespero básico o tempo todo, né? (risos)", diz Julia. "Mas sinceramente acho que Christine nunca vai sossegar."

 

 

* Viagem feita a convite do Warner Channel

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