Do are baba ao eco, uma volta ao mundo

Agora, TV globalizada é assim: você põe na Globo, e tem um tribalista africano tagarelando em Caras&Bocas. Mais tarde, é um festival de are baba, baldi e atchá em Caminho das Índias. Muda de canal, e é só caspita, capo, questo e porca miséria em Poder Paralelo.

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 20h41

Tanto se falou do sotaque dos personagens de Terra Nostra (1999) na época em que o "eco!" grudou nos nossos ouvidos, que os personagens bilíngues se tornaram, por assim dizer, um charme nas novelas. Uns sotaques agradam mais, outros menos. Italianos, por exemplo, são campeões e tem até ator que se especializou nisso. Lu Grimaldi, que já foi italiana em Terra Nostra, agora tirou os "questa" da gaveta para interpretar a Freda de Poder Paralelo. Na quarta-feira, entrou numa cozinha e saiu falando todos os tipos de macarrão - "capeleti, rigatoni, fusili..." E não vamos esquecer de Nicola Siri, italiano de verdade que está sempre a postos para ser italiano na ficção. Começou com o padre Pedro de Mulheres Apaixonadas, e agora está em Poder Paralelo - que, ao que parece, convocou todos os italianados disponíveis, de marca e genéricos.

Os italianos vão muito bem na TV brasileira; os indianos e muçulmanos de Glória Perez, nem se fala. Já os portugueses não parecem agradar muito. Negócio da China ancorou o sotaque num núcleo de atores portugueses de verdade. O público pediu tecla SAP...

Nessa volta ao mundo, fico um pouco magoada ao constatar que nunca deram espaço generoso para os espanhóis, meus patrícios. Teve a Hortência (Cláudia Raia) em Terra Nostra, vá lá. Mas é bem pouco perto do potencial dramático espanhol. Um toureiro daria um ótimo mocinho, desse tipo ambíguo de que os autores andam gostando tanto. Para ficar naquela coisa de "choque cultural versus amor", a mocinha poderia ser brasileira e engajadíssima no Peta. A pobre se apaixonaria pelo moço sem saber que ele é "Agustin, El Inclemente", um toureiro superstar, como o do clipe da Madonna. Difícil seria escolher expressões para pipocar nos capítulos que não fossem palavrões. A vantagem é que palavrão espanhol nem precisa de tradução - a feiura do som se faz entender. Daí, enfim, o autor não precisaria fazer o ator dizer a palavra para traduzi-la na sequência, feito a tal firanghi-estrangeira.

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