Patrick T. Fallon. (Bloomberg) via the Washington Post
Patrick T. Fallon. (Bloomberg) via the Washington Post

Disney+ insere alerta para conteúdos racistas ou ofensivos em filmes de seu catálogo

Aviso identifica assinantes sobre a existência de 'representações culturais desatualizadas' em alguns filmes; especialistas dizem não ser o suficiente

Marisa Iati, The Washington Post

15 de novembro de 2019 | 10h00

O tão esperado serviço de streaming da Disney colocou alertas no início de alguns filmes, indicando que eles podem trazer elementos racistas ou ofensivos - uma medida que os especialistas dizem que começa a resolver o problema, mas não chega a ser suficiente.

Uma mensagem exibida na Disney+ antes de filmes clássicos, entre eles Dumbo e Peter Pan, diz que o filme será exibido como foi originalmente produzido e 'pode conter representações culturais desatualizadas'.

A decisão de veicular essa mensagem junto com certos filmes de animação foi recebida com elogios por parte daqueles que a consideraram uma boa medida de responsabilização e com críticas por parte daqueles que a consideraram dispensável. As reações dissonantes, dizem os especialistas, destacam o fato de que a Disney só começou a assumir a responsabilidade pelas representações problemáticas.

“Parece um primeiro passo”, disse Michael Baran, sócio da empresa de consultoria em diversidade e inclusão InQUEST Consulting. “Acho que eles podem ser muito mais incisivos não apenas no que estão dizendo, no alerta, mas também no que estão fazendo”.

A Disney muitas vezes foi alvo de críticas por personagens que promovem estereótipos racistas. Os corvos de Dumbo, lançado em 1941, encarnam estereótipos de afro-americanos. Um dos pássaros foi batizado de Jim Crow [algo como o ‘Jim Corvo’, mas também uma referência às Leis Jim Crow, que estabeleciam a segregação racial nos Estados Unidos].

Os críticos também dizem que em Mogli: o Menino Lobo, de 1967, os macacos retratam os negros como tolos e criminosos. As hienas grosseiras de O Rei Leão, filme de 1994, poderiam representar minorias raciais. A lista de filmes a que se atribuem elementos racistas é longa.

O aviso da Disney+ de que alguns elementos de certos filmes podem estar “desatualizados” é uma maneira apolítica e passiva de entrar no diálogo cultural da sociedade sobre racismo e diversidade, disse Shilpa Davé, professora de Estudos de Mídia e Estudos Americanos na Universidade da Virgínia.

“Eles estão reconhecendo o fato de que ‘sim, esta empresa fazia isso no passado, mas agora estamos tomando uma nova direção’”, disse Davé. “É uma maneira segura de dizer que eles entendem o momento que estamos vivendo agora”.

Outros criticaram a Disney+ por não ser mais franca quanto àquilo que se referem os alertas de conteúdo, especialmente se comparados à linguagem empregada pela Warner Bros. Entertainment antes de alguns de seus desenhos animados da série Looney Tunes.

“Os desenhos animados que você está prestes a ver são produtos de seu tempo”, diz o aviso legal da Warner Bros. “Eles podem representar alguns dos preconceitos étnicos e raciais que eram comuns na sociedade americana. Essas representações estavam erradas na época e estão erradas hoje”.

Baran disse que gostaria que a Disney usasse uma linguagem mais explícita para reconhecer que um filme traz representações preconceituosas de determinados grupos raciais e instar os espectadores a falar sobre essas representações. A Disney poderia colocar questões online junto com os filmes, disse Baran.

Alguns filmes que ainda não contêm alertas, como Aladdin, deveriam ter, disse Baran, e os avisos também deveriam se aplicar a filmes com representações problemáticas de gênero e sexualidade.

Os representantes da Walt Disney Company não responderam a um pedido de comentário sobre os motivos pelos quais a empresa decidiu adicionar avisos de conteúdo e como foi a escolha da linguagem utilizada.

Walt Disney, que fundou a Walt Disney Company junto com seu irmão Roy Disney, foi chamado de racista e misógino, embora seu biógrafo e outros admiradores tenham contestado essa qualificação. A sobrinha de Walt Disney, a cineasta Abigail Disney, disse em 2014 que concordava com a avaliação negativa de seu tio-avô.

“Antissemita? Sim. Misógino? Claro que sim! Racista? Vamos lá, ele fez um filme (Mogli: o Menino Lobo) sobre como você tem de ficar ‘com sua própria turma’ no auge da luta contra a segregação!”, Abigail Disney escreveu no Facebook. “Como se Mogli não fosse prova suficiente! Do que mais vocês precisam?”.

As alegações de que Walt Disney era racista podem fazer com que os executivos da empresa que ele fundou se sintam especialmente encarregados de abordar os aspectos desagradáveis de seus filmes, disse Gayle Wald, que preside o Departamento de Estudos Americanos da Universidade George Washington e é especialista em raça e mídia popular. Ela disse que a mensagem escolhida pela Disney é vaga e que a empresa deveria ser mais clara sobre o que quer dizer.

A produção de versões de filmes clássicos em live-action deu à Disney a chance de revisar partes de filmes considerados insensíveis. No novo remake live-action de A Dama o Vagabundo, que estreou na Disney+, os gatos siameses que retratavam estereótipos asiáticos no filme original não são retratados como siameses.

Davé, no entanto, disse que os remakes de live-action ainda evocam os clássicos e mudar os personagens não chega a consertar o racismo do filme original. “Em vez disso, por que você não reconta a história de um ponto de vista alternativo ou cria novas histórias, com novas pessoas e novos animais?”, disse ela.

Os especialistas elogiaram o fato de a Disney não tirar os filmes racistas do serviço de streaming nem os alterar para remover os elementos criticados. Uma exceção foi A Canção do Sul, filme de 1946 que se passa em uma fazenda do sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil. O filme foi duramente criticado por glorificar as fazendas escravocratas e não está disponível na Disney+.

“Geralmente, evito o não-olhe-para-isso, porque acho que é uma maneira de esquecer a história”, disse Wald. “Para nos entendermos como americanos é necessário nos confrontar com a feiura do passado”. 

(Tradução de Renato Prelorentzou)

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