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Discussão sobre racismo no BBB contesta mito da democracia racial

Fala do sertanejo Rodolffo Matthaus no Big Brother Brasil revela a necessidade de avanço no debate racial; veja a opinião de especialistas

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

08 de abril de 2021 | 15h58

“Não adianta vir com o discurso de que não foi sua intenção. Eu estou cansado de ouvir isso. E não é só aqui dentro (da casa). É lá fora também”. O desabafo do professor de geografia João Luiz Pedrosa, 24 anos, no programa Big Brother Brasil exibido na segunda-feira, 5, era uma resposta ao comentário que outro participante, o cantor sertanejo Rodolffo Matthaus havia feito dois dias antes, quando vestiu uma peruca com cabelos desgrenhados que representava um homem das cavernas.

“Essa peruca parece o cabelo do João”, disse Rodolffo, em referência ao black power que o colega de confinamento usa. Na hora, João limitou-se a dizer que o adereço não parecia com seu cabelo. Porém, minutos depois, comentou com outra participante, a influenciadora digital Camilla de Lucas, também negra, o quanto a fala do cantor o havia machucado.

No mesmo dia em que João conseguiu externar ao vivo o que havia sentido – isso ocorreu durante o chamado Jogo da Discórdia, dinâmica do programa na qual os participantes são estimulados a entrar no confronto por meio de perguntas e adjetivos que atribuem entre si –, Camilla também se posicionou. “O cabelo do João não é o mesmo daquela peruca. Isso me fez muito mal”, disse. Rodolffo se desculpou e disse que seu pai tinha o mesmo tipo de cabelo de João e que ele próprio alisava suas madeixas.

A discussão seguiu noite adentro. Camilla conversou sobre racismo e estigmas sociais com Rodolffo. Ele pediu compreensão. Natural de Uruaçu, no interior de Goiás, o cantor de 32 anos se classificou como “chucro” e afirmou que estava disposto a aprender. A participante disse estar cansada de ter que explicar sempre a mesma coisa. Indicado ao paredão, Rodolffo foi eliminado do programa com 50,48% dos votos na noite de terça-feira, 6.

A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no Rio de Janeiro, instaurou procedimento para apurar o crime de preconceito racial. De acordo com o Código Penal, o crime de injúria racial prevê prisão de um a três anos a quem ofende a dignidade ou o decoro de alguém usando “elementos referentes a raça, cor, etnia”.

O ato cometido por Rodolffo foi classificado como “racismo recreativo”, um termo difundido por Adilson Moreira, professor pela Universidade de Harvard em Direito Antidiscriminatório, no livro O Que é Racismo Recreativo?, no qual ele explica como humor pode esconder a hostilidade racial.

Para o professor de jornalismo e membro do Núcleo Negro Para Pesquisa e Extensão da Unesp, Juarez Tadeu de Paula Xavier, durante muito tempo esse tipo de comportamento foi tolerável em meios como o esporte, programas humorísticos e a música. “O que antes era considerado menos ofensivo por ser encarado como uma ‘brincadeira’, nos últimos anos, não é mais aceitável. Não existe mais uma capa do entretenimento protegendo esse tipo de atitude. A prática é, sim, racista, e tem sanções na Constituição Brasileira de 1988”, explica.

Para a historiadora Djamila Dias, uma das autoras do podcast Atlântico Negro, que reúne jovens em torno do debate da cultura negra, a atitude de Rodolffo foi claramente racista. Ela conta que já sofreu algo parecido quando, ao começar a trabalhar em um escritório, viu um advogado da mesma empresa abrir a sala em que ela estava e perguntar: “nossa, te aceitaram aqui com esse cabelo?”.

A atitude dela, em um primeiro momento, também foi de paralisa, assim como a de João. “Você nunca está preparada para responder a uma ofensa racista. Eu, que combato o racismo, faço diversos posts sobre o tema, não consegui reagir. Só tive vontade de sair correndo e chorar. É uma dor física. As pessoas não deveriam questionar a paralisia do João naquela hora, e sim a atitude do Rodolffo. O João foi perspicaz em refletir sobre o que aconteceu e escolher o momento certo para falar, quando ele estava com a fala, ao vivo. Tanto que agora estamos discutindo esse assunto”, diz.

Nas redes sociais, anônimos e famosos condenaram a conduta de Rodolffo. Outros, porém, classificaram como “mimimi” ou “vitimismo” a indignação de João. “Quem defendeu o Rodolffo está, na verdade, defendendo a si mesmo. A pessoa percebe que ela faz o mesmo tipo de comentário. Ela enxerga que vivemos em um país racista e tem que reconhecer seus privilégios como pessoa branca. Se a desigualdade racial acabar, ela não terá mais nenhuma vantagem sobre o outro. A dor do negro será sempre o ‘mimimi’. Esse comportamento também aparece quando se discute outros tipos de opressão, como o machismo e a homofobia”, afirma Djamila.

A atual edição do Big Brother Brasil, programa que estreou na TV Globo em 2002, é a que tem maior número de negros em seu elenco, 9 no total de 20 participantes, o que se aproxima realidade brasileira na qual 56,10% da população se autodeclara negra, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE. Após dois meses de programa, apenas quatro negros – João Luiz, Camilla, Pocah e Gilberto – continuam na disputa pelo prêmio.

O debate gerado em torno do ato sofrido por João é um desdobramento do que já vinha acontecendo nessa 21.ª edição do programa desde o seu início, no dia 25 de janeiro. Uma das participantes, a psicóloga baiana Lumena Aleluia já havia se posicionado firmemente em questões raciais. Ela foi a quinta eliminada do programa, no dia 2 de março, com 61% dos votos do público, e recebeu críticas pela maneira com que expressou suas opiniões.

“Na comunidade negra, há comportamentos mais negociáveis, outros mais críticos, militantes. Todos são justificáveis diante do racismo. Dentre eles, o que causa mais desconforto para quem pratica o racismo é o militante. Ele desmonta os argumentos supremacistas que a pessoa mobiliza, até de forma inconsciente, de que foi uma brincadeira, que não teve a intenção, de que tem um amigo ou parente que é negro também. A militância coloca essas pessoas em confronto com suas limitações de compreender situações complexas. Quem pratica um ato racista quer continuar com seu comportamento naturalizado, por isso o militante incomoda”, explica Xavier.

Racismo e comportamento reprovável no BBB

A ofensa a João Luiz não foi o único comportamento reprovável do cantor Rodolffo Matheus dentro do Big Brother Brasil. Dias antes, ele havia debochado de um figurino do ator e cantor Fiuk, que usava um vestido para uma das festas do programa. “Como que leva esse menino de vestido pra boate lá em Goiânia, Sarah?”, perguntou, a outra participante. A fala foi considerada homofóbica.

Procurada pela reportagem do Estadão, a assessoria de Rodolffo enviou a seguinte declaração do cantor: “Quero pedir desculpa mais uma vez pra família do João, do Gil, do Fiuk e de todos que foram afetados de alguma forma com algum comentário ou brincadeira sem graça que eu possa ter feito lá dentro, de coração! Não era minha intenção. Eu detesto ver pessoas magoadas, principalmente se for por minha causa, e não aceito também ver terceiros magoando alguém. Não admito, abomino isso. Aprendi muito com tudo o que vivi. Foi uma grande lição pra mim!”.

Antes de ser eliminado na terça-feira, Rodolffo ouviu o apresentador Tiago Leifert falar sobre o tema. “O meu cabelo não representa nada do que eu sou, mas para o João representa muito. É um símbolo de resistência do João”, disse Leifert, ao explicitar que o cabelo black power traz significados que passam pela aceitação da cultura afro e a valorização da estética do povo negro. O cantor pediu desculpas mais uma vez.

Para Xavier, a TV Globo foi assertiva em se posicionar sobre a questão ao vivo, durante o programa, mas ainda é preciso avançar. “Não seria aceitável não se posicionar. Porém, a crítica ficou mais no plano do caráter, da ética individual (do participante), do que propriamente ao sistema que reproduz esse processo violento de segregação racial. O ideal é que esse debate chegue a mais lugares, pois ele não é só um problema da população negra”, opina.

Segundo o pesquisador, as manifestações contra a morte de George Floyd (negro americano assinado por um policial branco em maio do ano passado) geraram uma mudança de comportamento sobre a questão racial no mundo todo. “Há um descontentamento com o racismo em âmbito mundial. O debate está se impondo. Ele é uma forma de letramento. Se não indica o enfretamento do racismo de forma mais sistêmica, pelo menos mostra a necessidade de não ser mais conivente com a reprodução espontânea dessa forma de violência”, diz.

Paulo César Ramos, doutor em Sociologia USP e Pesquisador do Afro – Núcleo de Pesquisa e Formação da Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap-Afro), diz que o Big Brother Brasil tem que estabelecer como norma o respeito à diversidade para que episódios como esse não se repitam. “Deveria constar no contrato dos participantes que eles não poderiam cometer atos racistas ou homofóbicos. Muitas empresas nos Estados Unidos já fazem os funcionários assinarem esse tipo de compromisso. Pode parecer um simples adorno, mas o fato de a declaração existir já opera um efeito subjetivo de prevenção. Certamente o participante vai se policiar para não cometer qualquer atitude de desrespeito”, diz.

Apesar de episódios com o acontecido no BBB ser comum ainda, Ramos afirma que há uma mudança no padrão das relações raciais no Brasil. O mito da democracia racial – quando o senso comum afirma que não há racismo nos país – está cada vez mais sob contestação, sobretudo entre os mais jovens.

“O fato de haver o ensino de filosofia e sociologia no ensino médio tem trazido o tema à tona. No ensino superior, há cada vez mais pessoas pretas e pardas. Essas pessoas adquirem um repertório maior para debater a questão. Nos anos 1980, a palavra antirracismo não aparecia em documentos e estudos. Hoje, essa palavra chama, inclusive, os brancos para a reagirem contra o racismo”, explica.

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