Turner
O personagem Pernalonga, que completa 80 anos Turner

O personagem Pernalonga, que completa 80 anos Turner

'Dirigir o Pernalonga é como trabalhar com Charles Chaplin', diz produtor atual do personagem

Pete Brownsgardt se inspira nos tradicionais curtas dos anos 1930 e 1940 para fazer 'Looney Tunes Cartoons' nos 80 anos do Pernalonga

André Cáceres , O Estado de S.Paulo

Atualizado

O personagem Pernalonga, que completa 80 anos Turner

Um dos mais carismáticos personagens infantis de todos os tempos, o Pernalonga está completando 80 anos. Para celebrar a data, os canais Boomerang e Cartoon Network estão exibindo uma programação especial voltada para o coelho (ou seria lebre?). 

Os episódios clássicos e mais recentes dos Looney Tunes estão em exibição no Boomerang, de segunda a sexta-feira, às 18h. Já o Cartoon Network terá uma hora de aventuras selecionadas do Pernalonga na sexta-feira, 24, e na segunda-feira, 27. O filme Space Jam: O Jogo do Século, que mistura cenas em animação e gravadas com atores reais, com o personagem contracenando com o ex-jogador de basquete Michael Jordan, será transmitido pelo canal na sexta-feira, 24, às 21h, e no sábado, 25, às 13h.

Além disso, uma websérie com episódios inéditos e curtos, de 30 segundos a 6 minutos, inspirados nos filmes clássicos dos anos 1930 aos anos 1950, foi lançada recentemente no serviço de streaming HBO Max. Looney Tunes Cartoons resgata não apenas o Pernalonga, mas diversos personagens clássicos de sua turma, sob a direção do animador e roteirista Pete Browngardt. 

“O Pernalonga é o padrão-ouro dos personagens de desenho animado na história do cinema. Ele transcende épocas, fala diretamente para culturas por todo o mundo”, afirma Browngardt em entrevista ao Estadão. “Ele defende os mais fracos dos mais fortes, faz suas retaliações apenas quando é provocado, sempre tem algo esperto para dizer, luta pelo que é certo”, enumera o produtor da série. “Você pode assisti-lo em qualquer época ou idade e ele ainda será engraçado.”

Browngardt acredita que essas características fazem do Pernalonga um personagem universal, mas admite que ele nem sempre foi esse sujeito tão idealista. “Ele definitivamente evoluiu ao longo do tempo. Ele era muito mais irritável antes, mas foi se tornando esse personagem calmo e impassível, o ‘cara mais esperto da sala’, sempre do lado do que é certo”, explica o diretor.

Apesar de estar fazendo uma nova encarnação dos personagens clássicos de Looney Tunes, Browngardt rejeita a ideia de modernizá-los ou transportá-los para as gerações mais novas. “Em nenhum momento nós falamos ‘Vamos fazer um Pernalonga moderno’. Fizemos piadas em um estilo muito próximo dos originais. Nós pegamos certos aspectos de diferentes versões do personagem em várias épocas, o Eric Bauza trouxe elementos tradicionais de sua voz, e nós tentamos ao máximo honrar sua personalidade e ter certeza de que ele fosse o mais fiel possível à essência do que é o Pernalonga.”

Apesar da fidelidade às animações tradicionais, a série nova suprimiu um item que aparecia com frequência nos antigos filmes do Pernalonga: armas de fogo. Era comum ver o personagem fugindo do caçador Hortelino empunhando uma espingarda ou um rifle. Esse tipo de cena não será visto na nova roupagem. “Fizemos muitos testes com crianças e pais assistindo, e percebemos que eles não ficavam confortáveis com a presença de armas de fogo nos desenhos.” No entanto, apresentar um Hortelino desarmado não é novidade para os Looney Tunes. “Ele nem sempre foi um caçador. Os personagens eram pensados mais como atores, interpretando diversos papéis nos filmes clássicos”, explica o diretor.

As principais inspirações de Browngardt para repensar o Pernalonga e levar adiante seu legado de oito décadas são os diretores que o formataram nos anos 1930 e 1940, especialmente Tex Avery e Bob Clampett, que ele considera inovadores para a animação. “Nós tentamos imaginar o que eles fariam se pudessem continuar fazendo esses curtas”, conta o animador. “Esses personagens existem desde antes de eu nascer. Dirigi-los é como trabalhar com Charles Chaplin, Marlon Brando.”

Mas uma dúvida ainda paira sobre o Pernalonga. Seria macho ou fêmea? Um coelho ou uma lebre? Pete Browngardt arremata: “Ele é um personagem de desenho animado. É isso que ele é”.

Frases antológicas do Pernalonga

“O que é que há, velhinho?”

O Coelho Selvagem, 1940 

 

“Vamos fazer uma pausa para eu pensar em algo mais maquiavélico”

Super-Rabbit, 1943

 

“Eu já te vi antes. Eu nunca esqueço um rosto. Mas no seu caso, eu vou abrir uma exceção”

Hurdy-Gurdy Hare, 1950

 

“Eu vou sentir medo mais tarde. Agora eu estou muito furioso”

Lumber Jack-Rabbit, 1954

 

“Bem, o que você esperava de uma ópera? Um final feliz?” 

Vai de Ópera, Velhinho?, 1957

 

“Bem, é o que dizem, não leve a vida tão a sério, você não vai sair dela vivo”

Rabbit's Feat, 1960

 

“Shhhh! Estou prestes a desafiar você”

Looney Tunes: Back in Action, 2003

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Pernalonga, 80 anos: a importância do personagem para a animação

Personagem acompanhou a história dos Estados Unidos no século 20 e revolucionou as animações

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 08h00

"O quê que há, velhinho?" O bordão, repetido à exaustão nas animações do Pernalonga, já faz parte do imaginário coletivo. Em julho, o personagem completa 80 anos em meio a uma nova fase, com curtas animados publicados na internet. Mas o Pernalonga é muito mais que um coelho (ou uma lebre?) esperto; ele é um dos personagens mais importantes da história da animação.

A primeira aparição oficial do Pernalonga (Bugs Bunny, no original) foi em 27 de julho de 1940, no filme A Wild Hare. Apesar disso, dois anos antes, o mesmo estúdio de Leon Schlesinger havia produzido Porky's Hare Hunt, um curta animado com premissa muito semelhante.  

Há uma grande diferença, porém, no traço dos personagens do filme de 1938 para o de 1940. O coelho ainda era conhecido pela genérica alcunha de Happy Rabbit e o caçador que viria a evoluir para ser o Hortelino (Elmer Fudd, no original) ainda tinha feições muito mais próximas das de um porco do que das de um humano.

O grande responsável pela remodelação dos personagens foi o diretor Tex Avery (1908-1980), um dos grandes mestres da animação do século 20. Ainda muito jovem, no fim da década de 1920 e no início da década de 1930, Avery trabalhou nos filmes do Oswald, o Coelho Sortudo, uma das primeiras criações de Walt Disney, que seria praticamente um embrião tanto para Mickey quanto para Pernalonga nos anos seguintes. 

Ainda nos anos 1930, Avery sofreu um acidente e perdeu a visão em um dos olhos, o que afetou sua percepção de profundidade. Há quem acredite que esse problema acabou virando uma vantagem para o animador, que conseguiu inovar na forma da animação por meio do exagero e da distorção dos personagens, técnica que ele aplicou não apenas com o Pernalonga, mas em todas as criações que ajudou a consolidar dos Looney Tunes.

Não somente os desenhos animados e quadrinhos inspiraram o personagem. Entre as influências do Pernalonga, estão nomes importantes da comédia, como  o humor físico de Charles Chaplin, os aforismos de Grouxo Marx (Pernalonga chega a parafraseá-lo repetidas vezes) e o ar blasé de Humphrey Bogart.

Como o personagem surgiu em meio a um período histórico tenso, durante o auge da 2ª Guerra Mundial, era difícil mantê-lo alheio aos acontecimentos da época. Assim como outros personagens surgidos nesses tempos - o Capitão América dava um soco em Hitler na capa de sua primeira edição, o Pato Donald vivia sob o jugo do nazismo em um de seus filmes - o Pernalonga também foi usado como peça de propaganda de guerra, em filmes como Bugs Bunny Nips the Nips (1944) e Herr Meets Hare (1945).

Já nos anos 1950, o Pernalonga incorporou o espírito otimista da época e passou a ser uma espécie de porta-voz do chamado American Way of Life. E na segunda metade do século 20, o personagem integrou diversas mídias, fazendo parte de filmes de sucesso, incluindo inovações estéticas mesclando animação e live action, como Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), de Robert Zemeckis, em que Pernalonga faz uma breve aparição, e Space Jam: O Jogo do Século (1996), de Joe Pytka.

Mais recentemente, os personagens clássicos de Looney Tunes, como Pernalonga, Hortelino, Patolino, Marvin, Frajola, Piupiu, etc, ganharam uma websérie de curtas animados, alguns de apenas um minuto e outros com maior duração, inspirados nos filmes tradicionais dirigidos por Avery e outros mestres da animação. Uma boa pedida para a comemoração dos 80 anos de Pernalonga. "O quê que há, velhinho?"

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