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Diretora de 'A Regra do Jogo', Amora Mautner conta como a Globo resgatou ibope nas novelas

Cenário de 'A Regra do Jogo' criado pela diretora dá liberdade de atuação, mas não é notado pelo público

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2015 | 06h00

RIO - Menos de um mês após o fim de Os Dez Mandamentos, novela da Record que abocanhou boa fatia de audiência do Jornal Nacional e da novela das 9 da Globo, A Regra do Jogo vai engordando seus índices no Ibope. Além do andamento do enredo de João Emanuel Carneiro, fiel à proposta de queimar cartuchos no meio da história – foi revelado esta semana que Gibson (José de Abreu) é o Pai da facção criminosa –, já havia um público que migrava da Record para a Globo quando Moisés ainda estava no ar.

Mas, afinal, por que uma história milenar, gravada do modo mais tradicional possível, com plano, contraplano e closes, foi empecilho para uma produção de cenografia inovadora? A diretora Amora Mautner recebeu o Estado no Projac para traçar um diagnóstico sobre o contexto encontrado pela novela. Estamos no switcher (sala de onde o diretor coordena a movimentação no estúdio). Nos monitores à nossa frente, Deborah Evelyn transita da cozinha para o banheiro de sua casa cenográfica, sem ter de interromper a cena para aguardar pelo reposicionamento de luz e câmeras.

Amora nos leva até o estúdio, explica sua “caixa cênica”, engenharia criada por ela, com a ajuda de Boninho e do Big Brother, que dispensam o engessamento das marcas para os atores sob um único feixe de luz. Caixas de luz iluminam cada canto de cenário. Câmeras se espalham por trás de espelhos e quadros. “A gente conversa e anda pra lá e pra cá, como se fosse vida real, é muito mais orgânico”, endossa Deborah. E o público percebe a evolução? “É bom que não perceba mesmo”, atesta Tony Ramos, que contracena com a atriz. Amora concorda.

O público nota alguma diferença no resultado promovido por essa engenharia cenográfica?

Eu dirijo ator. Na Globo, muito diretor não dirige ator, só faz a marcação da cena. Eu trouxe o Kike (Enrique Diaz) para isso (aponta para o diretor, na mesa do switcher): é um diretor que dirige ator, é uma cultura nova, na Globo. A maioria dos atores ama, porque ator quer ser dirigido. O grande trunfo da caixa cênica é a mise-en-scène: todo o andar dos atores é registrado de uma maneira direta. Normalmente, uma novela funciona com boca de cena, câmeras enfileiradas e, na hora de marcar, só tem um feixe de luz, de modo que, se eu marcar um ator no fundo do cenário, a câmera não o pega. Eu odeio isso. Tudo o que eu fazia tinha que ser na marca. Eu digo: ‘fulana, quero te dizer uma coisa’. Aí, corta, muda de lugar e completa: ‘eu te amo’. Isso não existe na vida.

É um efeito que se aproxima do cinema e das séries?

Breaking Bad também é gravada com tudo fechado, mas fazem as cenas várias vezes, com duas câmeras, reposicionando cada take. Eu teria que ter muito mais tempo para fazer daquele jeito. O cinema é a mesma coisa, mas, em novela, não tem tempo para usar duas câmeras e obter esse efeito. O que eles demoram cinco horas para gravar, eu gravo em 15 minutos. A caixa cênica é a chance de usufruir de uma mise-en-scène de 360 graus, sem parar. Não existe isso no mundo – quero inclusive vender para o mundo. É um ritmo que não existe. Tenho que gravar um capítulo por dia, não posso ficar parando e reposicionando luz, câmera... A gente ficou três anos estudando como fazer com cenário fechado e com as câmeras em vários eixos. É possível fazer uma cena em que a personagem vai para cozinha, para sala e para o banheiro, como vida real. Acho que o público não percebe porque não é um ganho visual, pois a fotografia é igualmente boa. É como a diferença entre o teatro italiano e o de arena. No primeiro, não é possível ficar de costas; no outro, o ator roda à vontade. A marca torna-se medíocre. E, para o ator, sobra energia para fazer uma sequência inteira sem interromper dez vezes.

Mesmo assim, a novela enfrentou a concorrência de uma produção com essa marcação engessada (Os Dez Mandamentos). É possível atribuir o crescimento de audiência de A Regra do Jogo ao fim da novela da Record?

Tenho o maior respeito pelo Alexandre Avancini (diretor de ‘Os Dez Mandamentos’). Mas, em primeiro lugar, é preciso considerar que um terço do Brasil é evangélico, isso é muito forte. Infelizmente, não consegui ver a novela – tenho uma filha pequena e trabalho obsessivamente. A competição é boa para todas as partes. Muita gente deixou de ver (a Globo) na novela anterior. Na segunda semana de Babilônia, muita gente migrou daqui em busca de outro nicho. E o que havia era Os Dez Mandamentos, que estreou duas semanas depois, e tem Carrossel (SBT), que também pegou público. Quando esta novela estreou, Os Dez Mandamentos dava 23 (pontos no Ibope). A abertura do Mar Vermelho foi a 27. A gente nem pegou tanto a ressaca de troca de novelas, eles foram crescendo em si. A gente pegou uma terra salgada.

Mesmo assim, João Emanuel manteve a proposta de desafiar o pensamento do público, sem entregar de cara a relação entre seus novos personagens.

A gente agora está entre 29 e 30 pontos em São Paulo, 34 no Rio. Vamos crescer mais. Acho que a novela começou mal, no sentido da audiência, por causa desse combo todo (Dez Mandamentos e Carrossel), e o próprio momento do País. A Globo produz conteúdo e prioriza a relevância. A gente sempre inovou, sempre correu risco. Uma empresa de conteúdo que não corre riscos é, na minha humilde opinião, fadada ao fracasso. Em qualquer negócio de risco, às vezes você se dá melhor, às vezes se dá pior. Agora, a gente nunca perdeu na média final nesse horário da novela, mesmo com toda essa competição.

As pessoas já estão odiando o Tony Ramos?

Amo tanto o Tony que não consigo odiar. Ele disse que as pessoas o cumprimentam com o lema da facção, ‘Vitória na guerra’, mas eu tinha uma ligeira preocupação de que ele, como vilão, sofresse qualquer rejeição, e não tem isso. Não há, aqui dentro, uma política de ordem. Passei aqui pelo comando de Boni, Daniel Filho, Manoel Martins e agora o nosso amado Schroder (Carlos Henrique, diretor-geral da Globo), nunca vi um chefe falar para um autor: ‘muda isso’.

Mas o Gilberto Braga mudou Babilônia em função de grupos de discussão, ou não?

Não posso falar por ele, mas, se mexeu, foi porque quis. O grupo de discussão é uma pesquisa demonstrativa. A Globo é uma empresa de uma democracia atroz. Essa novela do Gilberto não foi tão autoral, era feita por três autores, isso muda muito.

O noticiário tem competido muito com a ficção no Brasil?

Muito, está muito melhor. O Brasil está passando por um momento que é uma loucura, isso está acabando com a ficção.

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