Diretor Mauro Mendonça Filho fala de acertos e polêmicas de 'O Outro Lado do Paraíso'

Diretor Mauro Mendonça Filho fala de acertos e polêmicas de 'O Outro Lado do Paraíso'

Novela de Walcyr Carrasco chega ao final nesta sexta, 11

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2018 | 06h01

Diretor artístico de O Outro Lado do Paraíso, Mauro Mendonça Filho se despede da novela das 9 comemorando mais um sucesso em parceria com o autor Walcyr Carrasco. Apesar das polêmicas (ou por causa delas), o folhetim recuperou a audiência no horário nobre. A novela chega ao final nesta sexta, 11, e, após de 7 anos ininterruptos, Mauro teve aval da casa para tocar projetos que já vinha criando com parceiros como Bráulio Mantovani e Alexandre Machado, além de, em 2019, estrear o musical Green Day – American Idiot e começar a dirigir a cinebiografia Princesa Isabel. O diretor falou, por e-mail, com o Estado. 

O Outro Lado do Paraíso abordou vários temas, como violência doméstica e pedofilia. Quais desses temas vocês perceberam que mais sensibilizaram o público e geraram mais discussão?

Os abusos que as mulheres sempre sofreram ao longo dos tempos sempre foi uma questão espinhosa colocada debaixo do tapete. Até um par de anos atrás, podia-se dizer que violência doméstica era um assunto privado e não de segurança social. O conceito de estupro marital, por exemplo, praticamente ignorado. Estamos vivendo uma revolução no comportamento, em as mulheres do mundo todo simplesmente estão dando um basta a séculos de privações. Isso, claramente vem influenciando (positivamente, a meu ver), os movimentos do audiovisual. as novelas, tão influentes no Brasil, não podiam ficar de fora e a parabólica do Walcyr apontou ágil e corretamente para o presente. Quanto à abordagem da pedofilia, seja no cinema, no teatro, na literatura, a verdade é que o assunto é delicado demais, parecia praticamente impossível de se visualizar em uma novela das 21hs. Mas compramos esse desafio, simplesmente porque é necessário trazê-lo à tona. Conversem com crianças de dez, onze anos e elas vão querer discuti-lo. A violência está aí e eles sabem disso. Querem entender, se proteger. Também estão em constante transformação. Acho que fomos eficientes, porque procuramos nos aproximar, com a maior delicadeza do mundo, do sentimento de quem viveu essas situações.

Aliás, as cenas de violência doméstica causaram certa rejeição do público, sobretudo por causa do realismo delas. Vocês já estavam preparados para isso? Tiveram de diminuir essas cenas na primeira fase da novela?

Nunca houve rejeição do público, essa foi minha percepção. Houve sim, um torpor, um choque, pelo fato da violência doméstica estar na trama principal e pelo impacto das cenas. Era difícil, naquele momento, as pessoas se identificarem com o lado fantasioso da novela, diante de situações tão gráficas. Gerava uma identificação imediata em toda espécie de casal, desde aqueles que apenas se implicam até os que brigam até a morte. Ao mesmo tempo, não havia uma pessoa, uma classe social, uma faixa etária que não considerassem o assunto relevante. Isso era evidente, não só nas pesquisas, mas no contato direto com o público. Se houvesse mesmo essa rejeição, não teria havido aquele aumento de oito pontos de audiência, de uma semana para outra, quando clara começou a articular sua vingança. As pessoas estavam ávidas pelo seu retorno, prontas para ver a “novela/novela” começar. Isso tudo estava previsto pelo autor. Chama-se dramaturgia.

Você e o Walcyr ficaram em contato direto ao longo da novela, certo? A primeira fase precisou, de fato, ser modificada e encurtada por causa da audiência? Como isso afetou o trabalho de vocês?

A primeira fase foi sim, um pouco longa demais. por um erro de avaliação, achou-se que os abusos que um homem como Gael infrigia à uma mulher como clara podiam durar cinco semanas de dramaturgia sentimental de casal. Era uma tentativa de se aproximar da violência doméstica da realidade, onde os movimentos de vai e vem, de perdão e recaídas são constantes, porque tem sempre amor envolvido. Só que hoje a rua fala muito alto e isso não funcionou na ficção. As pessoas acharam que a relação dos dois parecia mais uma história de terror, do que de amor. uma espécie de “dormindo com o inimigo”. Essa reação não foi surpreendente para mim, também é reflexo dessa revolução que estamos vivendo, esse “basta!”. Mas diferente do que foi propagada essa primeira fase não foi encurtada. Não houve perda nenhuma de capítulos, em termos de numeração, podem conferir a numeração dos scripts. O que aconteceu foi que por duas semanas, fizemos capítulos menores que o habitual, enxugando as gorduras, ajustando os ponteiros, eliminando cenas sentimentais excedentes entre Gael e Clara e fazendo dois dos núcleos se voltarem mais para o cômico, trazendo mais leveza aos capítulos. Algo absolutamente natural em um processo de trabalho. Mas tudo é visto como se a bastilha estivesse caindo, então...

Acredito que as pessoas esperavam que a personagem Estela e a questão do nanismo fossem mais aprofundados ao longo da trama. Já estava previsto que a Estela seguiria essa trajetória que ela acabou seguindo dentro da novela?

Walcyr nunca quis lidar com o tema com comicidade e sim de forma sentimental, uma opção digna e que tinha que ser respeitada. Eu, particularmente, defendo que as diferenças étnicas e de orientação sexual estejam todas visíveis dentro do elenco de uma novela, sem que necessariamente exista uma dramaturgia para isso. Então, independente dos rumos que a personagem tenha tomado, a chegada de uma atriz como Juliana Caldas ao horário nobre tem mais é que ser celebrada como um acerto num processo necessário de aceitação das diferenças.

Ao longo da novela, houve grandes cenas, como a volta de Clara, a falsa morte de Beth, e o julgamento do delegado. Para você, quais cenas foram desafiadoras e prazerosas de dirigir?

Particularmente, a regressão de Laura exigiu muito de mim. não só pela dificuldade na abordagem da pedofilia, como pelo desafio de achar uma forma visual que pudesse tornar o assunto palatável ao público. Sugeri ao Walcyr fazermos uma passagem de bastão da atriz mirim para a atriz adulta, para termos alguma liberdade na realização e ele veio com a ideia da regressão. mas mesmo com a Bella Piero fazendo as cenas, não cabia enveredar por um caminho gráfico-sexual, seria pesado demais. Optei por uma linguagem expressionista, inspirada no cinema alemão dos anos 20, Polanski, etc e acredito que fui bem sucedido, pois a resposta do público foi muito boa e a questão, assimilada com emoção. Também os julgamentos, tanto de Beth, quanto do delegado e agora de Sophia exigiram muito de mim. É uma grande arena, cheio de feras e gladiadores em cena. A coisa tem que correr quente. As cenas do Jalapão eram deliciosas de se fazer, pela beleza do local. Em especial, a abertura da novela, feita em três entardeceres. Quanto às cenas de violência doméstica, a verdade é que eram muito difíceis. doía muito na alma, tanto em mim, quanto nos atores. Mas tudo foi feito com muito cuidado e respeito. Sergio Guizé foi um ator muito consciente da sua tarefa de viver um homem abominável na sua conduta com sua esposa. Em momento algum, tentou defender seu personagem. Isso deveria ser reconhecido pelo público feminino, pois o trabalho do ator acabou prestando um ótimo serviço à causa. E Bianca Bin conseguiu captar e traduzir com maestria os sentimentos de hoje. Virou uma espécie de justiceira das mulheres. Se a novela fez sucesso, deve-se muito a esses dois. E, claro, ninguém faz vilão melhor que Marieta Severo.

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Ainda ao longo da novela, algumas cenas foram consideradas absurdas, como a levitação de Raquel, e outras, criticadas, como a da coach ajudando uma paciente que sofreu abuso. Você acha que essas críticas e repercussões foram exageradas?

Walcyr é um autor amplo, diria até indecifrável. Não tem pudor nenhum em fantasiar algumas situações, ao mesmo tempo que aponta para o realismo com a precisão de uma flecha. Ora escreve cenas simplórias, ora sofisticadíssimas. Ora rasas, ora de profundidade comoventes. Ora criticado, ora elogiadíssimo. As perguntas dessa matéria confirmam isso. Seu estilo é a cara do brasileiro: complexo, variado, por vezes, paradoxal. É amadíssimo pelo público, que se sente gratificado com a energia impregnada nas suas histórias e personagens. Nas suas novelas, não rola preguiça, barriga, tem sempre variedade, reviravoltas, polêmicas, pulsa sangue. Se alguém achar que o sucesso que ele faz é acidental, deve mais é rever seus conceitos.

Como foi dirigir um elenco formado por grandes atores veteranos e também por atores mais novos?

Sem citar nomes, tínhamos incríveis noventões e oitentões brilhando muitíssimo em cenas que faziam a audiência subir; incríveis setentões que seguraram a vilania da história; incríveis sessentões segurando a comédia; incríveis cinquentões segurando drama e romance; incríveis quarentões fazendo coisas mórbidas; incríveis trintões conduzindo a trama principal; incríveis vintões protagonizando e incríveis adolescentes fazendo coisas bem difíceis. mas a verdade é que quando todos estavam juntos em cena, era bem difícil de se perceber essas diferenças. Idade é uma coisa bem relativa nessa profissão. A única diferença que importa é o talento. Shakespeare tem razão: “somos feitos das mesmas matérias de que são feitos os sonhos”.

Na sua opinião, a novela chega ao final deixando que marca na teledramaturgia brasileira?

Em primeiro lugar, é bom que se diga que o caminho do nosso sucesso foi pavimentado por Gloria Perez e Rogério Gomes, a dupla que conduziu A Força do Querer à retomada do alto patamar de audiência no horário nobre. Passamos agora a bola para João Emanuel Carneiro e Dennis Carvalho, condutores de Segundo Sol, torcendo muito para que dêem sequência aos bons ventos e que tenham o mesmo sucesso que tivemos, quem sabe até mais. até lá, de agora em diante, toda vez que alguém lembrar de números de audiência no horário nobre, provavelmente vai dizer: “desde o outro lado do paraíso...” isso é motivo de orgulho, sim.

Quais são seus planos e projetos para depois da novela?

Depois de sete anos ininterruptos, colocando no ar três superséries (O Astro, Gabriela e Verdades Secretas), duas novelas das 21hs (Amor à Vida e O Outro Lado do Paraíso) e dois seriados (Dupla Identidade e Vade Retro) a empresa entendeu meu desgaste e me deu um tempo para desenvolver projetos que já vinha criando com parceiros escritores como Braulio Mantovani, Alexandre Machado, Fernanda Young, Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Daniel Adjafre, etc. vem coisa boa por aí. Paralelamente à TV Globo, estreio em 2019, em São Paulo, o musical Green Day – American Idiot e começo a dirigir ano que vem a cinebiografia Princesa Isabel. Por ora, o descanso e o silêncio são a alma do negócio.

 

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