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Diretor Luiz Fernando Carvalho fala sobre a fotografia peculiar da novela 'Velho Chico'

Até o mais distraído dos telespectadores já se deu conta de que existe algo especial na luminosidade e textura das imagens

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2016 | 05h00

Luiz Fernando Carvalho conversa com o repórter, pelo telefone, em uma tarde deste mês de julho. “Estou no meu canto”, informa, e fazendo o dever de casa. Carvalho destrincha o bloco de capítulos de Velho Chico que acaba de receber. Após alguns percalços iniciais, a novela, como o rio, encontrou seu curso. Vem de longe a parceria do mais importante diretor da TV brasileira com Benedito Ruy Barbosa. “Baseado na confiança, ele me autoriza a mexer nos capítulos, se julgo necessário”, diz Carvalho. Não tem sido preciso. A parceria de Benedito com o neto tem dado certo. “Ele tem todas as chaves do melodrama, é um grande teledramaturgo, e o Bruno (o neto) está cheio de entusiasmo, querendo incorporar coisas novas.” O diretor está satisfeito, o público está OK – os índices superam os de muitas novelas que seriam salvadoras da pátria e não foram.

Para Carvalho, Velho Chico está sendo ‘um milagre’. Ele trabalhava na montagem de Dois Irmãos, sua minissérie já mitológica adaptada do romance de Milton Hatoum, quando a Globo chamou-o para apagar um incêndio. A novela anunciada das 9 estava sendo adiada e, em dois ou três meses, teria de entrar no ar uma substituta, e seria Velho Chico. Diretor/autor – uma raridade na televisão –, e muito meticuloso, acostumado a trabalhar no seu ritmo, Carvalho teve de fazer o que não gosta – se apressar. Poderia ter dado errado. Os deuses da (tele)dramaturgia o protegeram. Velho Chico é, como ele diz, um milagre. Mas a entrevista não é para falar sobre a dramaturgia. Nem sobre o elenco – bem, um pouco. O tema é a fotografia de cinema de Velho Chico.

Têm havido outros experimentos, mas até o mais distraído dos telespectadores já se deu conta de que existe algo especial na luminosidade e textura das imagens de Velho Chico. Aqueles tons terrosos no núcleo pobre, as luzes que se refletem nas águas do rio e as cores fortes, o barroco carregado do interior da casa dos ricos. “A luz é personagem, e das mais importantes”, avalia Carvalho. Mesmo pressionado pelo tempo, ele fez como sempre. “Tenho meu galpão de treinamento, onde reúno toda a equipe. Atores, técnicos, costureiras, cenógrafos, aderecistas. A gente conversa, eu levo gente que tem como contribuir. Estabelece-se o conceito, e o de Velho Chico foi de que teríamos isso que você chama de fotografia de cinema.” E Carvalho dá uma aula – “Fotografia é luz. Estamos trabalhando com terra, com água. A paisagem é forte. E temos as pessoas. Decidi, com o Frutuoso (diretor de fotografia), que íamos usar refletores de filamento, que são mais antigos, mas oferecem uma textura mais quente, mais marcada, e essa é a realidade que buscamos na novela.”

Nesta segunda, 25, a sinopse prometida anuncia o seguinte – Piedade tenta convencer Santo a não ir ao evento na igreja. Afrânio quer atrapalhar a homenagem a Belmiro. Miguel despreza Tereza. Afrânio afirma a Carlos que se vingará de Padre Benício. Iolanda tenta convencer Miguel a desculpar Tereza. Bento repreende Luzia. Tereza e Miguel fazem as pazes. Iolanda tem uma visão ao tocar as mãos de Olívia. Martim ouve as ordens que Afrânio dá para Cícero e alerta Santo. E Santo vence a disputa com Cícero e entrega o boi para Tereza. Agora que você já sabe, prepare-se, e preste atenção nas cores, e nas texturas. Apesar de todo o empenho no trabalho do galpão, chega um momento em que Carvalho pede a sua equipe que não tenha medo de errar – que se abra ao mistério da criação, ao indizível.

Existe uma filosofia de trabalhar no estúdio, que tem um ambiente controlado, da mesma forma que se trabalha nas externas de Velho Chico. “As câmeras são as mesmas e o que tento fazer é estabelecer o mesmo desenho de luz para os dois ambientes.” Na verdade, o grande projeto de Velho Chico é esse desejo do autor (Carvalho) de reeducar o olhar do público. “Quero acreditar que o público se dá conta de que a luz está entrando diferente. Que está batendo de uma forma mais emocional. Se a ideia é resistir, não há resistência sem memória”, avalia o diretor. Em Velho Chico, detalhe técnico, o ‘switter’ fica dentro do estúdio, o que impacta na lógica do cabeamento e das câmeras, e torna o processo mais próximo, mais orgânico. E, depois de tudo isso, na pós-produção, há um efeito chamado de ‘color grading’. Luiz Fernando Carvalho e Frutuoso destacam a importância de Sérgio Pasqualino na finalização. “Esse tratamento final, que dá a cor, impõe a textura característica de Velho Chico. Na novela, cada personagem tem uma fotografia, que ajuda também a compor a narrativa da história.”

A síntese de toda essa elaboração talvez seja a personagem de Cristiane Torloni. Carvalho fica mudo do outro lado da linha. Alô, você está ouvindo? O repórter desfia suas restrições a Cristiane. No teatro e na TV, eventualmente no cinema, sempre lhe pareceu uma atriz afetada. Aqui, algo se passa com ela. Carvalho concorda – “Cristiane foi de uma entrega muito grande. Reinventou-se no galpão de treinamento, como todo mundo.” O repórter não deixa por menos – “Sabe quem ela me lembra?’, pergunta ao diretor. Ingrid Thulin em Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti. De novo, Carvalho fica mudo. Termina por admitir que o barroco viscontiano é sua referência suprema – a maior de todas. De volta a Dois Irmãos, anuncia que tão logo a novela termine, em meados de setembro, ele voltará à minissérie, que a Globo programa para janeiro. Antes disso, e a exemplo de Paolo Sorrentino, que vai mostrar os dois primeiros capítulos de sua primeira série – The Young Pope – em Veneza, Carvalho antecipa, olhem a novidade, que poderá exibir os primeiros capítulos de Dois Irmãos no Festival do Rio. Nós, cinéfilos, agradecemos.

ENTREVISTA - FRUTUOSO DIRETOR DE FOTOGRAFIA

'Esse cara motiva a gente a se superar'

Alexandre Frutuoso, de 38 anos, é conhecido pelo sobrenome. Começou a trabalhar com Luiz Fernando Carvalho como ‘enésimo’ assistente de José Tadeu Ribeiro, o Tadeuzinho, grande fotógrafo. Frutuoso agora é fundamental no esquema de Carvalho em Velho Chico e Dois Irmãos, que ainda vem por aí.

Como está sendo fotografar Velho Chico?

Todo trabalho com o Luiz Fernando encerra seu conceito e seu desafio. Aqui era fazer a fotografia de cinema. O bom do Luiz Fernando é que leva a gente a um patamar que nem sabemos que podemos atingir. É aprendizado e superação contínua.

Que história é essa de criar uma luz anímica, para expressar a alma dos personagens?

Ah, isso é um conceito dele. A luz é personagem e algo mais. Comecei com esse cara como assistente elétrico e ele me motivou de tal maneira que fui estudar. Fotografia, pintura. Em princípio, é uma coisa de louco. Captar a luz do céu, a do sertão, criar uma aura dourada e, ao mesmo tempo, uma textura terrosa. Como se trabalha tudo isso em um esquema industrial de TV? Cada dia é uma aventura, mas a finalização do Sérgio Pasqualino, que faz a marcação de luz, é fundamental.

O que se pode esperar da minissérie baseada em Milton Hatoum?

Dois Irmãos vai ser outra coisa. Outra textura, outra luz. Não o sertão. Manaus, a Amazônia. Mas o desafio é sempre criar a atmosfera.

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