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Diretor de 'Salve Jorge' fala sobre a carreira

Marcos Schechtman diz que é bom receber o bastão de um sucesso como 'Avenida Brasil'

MARCIO CLAESEN - O Estado de S.Paulo,

08 Outubro 2012 | 10h38

Único diretor brasileiro que possui um Emmy (por Caminho das Índias, de 2009), Marcos Schechtman está prestes a iniciar novo desafio no horário nobre. Em mais uma parceria com Glória Perez, ele estreia dia 22 na TV Globo Salve Jorge. Ao Estado, Schechtman falou sobre o prêmio, as críticas à Índia pasteurizada que teria levado à TV e sobre o início, na extinta Manchete. Confira os principais trechos:

Salve Jorge. “É diferente de Caminho das Índias porque nela a história central era indiana. Aqui, a gente tem uma história brasileira que tem ramificações, que tem núcleos turcos também. É um projeto diferente na estrutura dramatúrgica mesmo. Mas, sem dúvida, acho que vai encantar porque a cultura da Turquia traz essa coisa da ancestralidade, dessas camadas históricas, esse esplendor. Então, nós começamos aquele material. Nós gravamos mais de 600 cenas. Todo esse esplendor vai encantar. E herdar o horário de uma produção (Avenida Brasil) que foi bem-sucedida, sem dúvida, é maravilhoso. ”

A parceria com Glória Perez. “Ela tem essa dramaturgia de folhetim, essa verve folhetinesca soberba. Mas, sobretudo, ela tem um mergulho nesse olhar de culturas diferentes que me encanta, com foi o projeto da Índia. Talvez até bata nessa coisa da formação. Certamente é uma parceria bem-sucedida pelas afinidades que a gente tem.”

A atração pelos folhetins. “Minha família sempre foi muito intelectualizada. Meu pai era engenheiro, mas era um grande intelectual, lia muito. Minha mãe, idem. Acabei vindo parar na TV por gosto pelo ofício do contador de histórias, do folhetim. Sou formado em Ciências Sociais e Filosofia, cheguei a começar a lecionar e fui para a televisão. As pessoas, muitas vezes, confundem folhetim com gênero, com qualidade literária, e esquecem que Dostoievski escrevia folhetim. Quando ele fez Roskólnikov, de Crime e Castigo, foi inspirado num folhetim.”

Cria da TV Manchete. “A primeira novela que eu assinei como diretor foi Corpo Santo (1987), do (José) Louzeiro, com o José Wilker (diretor-geral), que estava, na época, na Manchete. Lá, você tinha um sonho. O doutor Roberto Marinho (na Globo) tinha isso também, das figuras emblemáticas, de sonhadores, desses grandes homens de mídia. Na Manchete trabalhei com Glória Perez, Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa, Wilson Aguiar Filho, Mario Prata. Você tinha um acesso, um trânsito de atores, de diretores. Eu fiquei muitos anos ali. Talvez eu tenha sido o único forjado, feito ali na Manchete. Eu tinha um idealismo muito grande, gostava dessa coisa mais independente. Gostava principalmente dos projetos diferenciados que a emissora fazia. A Manchete teve grandes realizações, com toda a alternância que teve - ela não teve uma constância sempre, e tinha essa característica de uma equipe com aspecto bastante familiar.”

A censura à minissérie O Marajá. (A trama, de 1993, era baseada em fatos reais, como o impeachment do presidente Collor, um ano antes) “Foi uma censura, não foi dos capítulos gravados, em cima do script, não foi nada. Mas certamente foi frustrante. O que aconteceu foi que saiu na imprensa falando sobre. Na realidade, foi um grande imbróglio jurídico na ocasião. Era muito contundente aquele formato que misturava dramaturgia com jornalismo.”

Críticas a Caminho das Índias. “Se você abrir qualquer jornal indiano hoje, continuam os anúncios de casamentos em cima de castas. Casta continua, na realidade, presente sim. Ela não foi chapada na novela. Mas a questão quando você discute isso é a seguinte: por exemplo, você diz, ‘ah, mas falavam português’. Claro. Faz um filme americano em Paris, fala-se no filme em inglês por uma questão de convenção, para que o público entenda. Sempre é uma releitura. A gente não foi fazer uma coisa documental. Mas, por exemplo, tivemos várias experiências, de vários indianos que vieram aqui, que ficaram encantados, que se sentiam na Índia com os cenários, as cidades cenográficas, tinha a verdade deles. Tanto que a gente colava. Um dos grandes trunfos da novela, era que a gente misturava na mesma cena takes gravados lá e takes gravados aqui. Tinha essa coisa da unidade, de você acreditar, de reproduzir com absoluta fidedignidade, no sentido de ser crível, de você acreditar naquilo, naquela realidade. E, evidentemente, você faz um recorte da realidade, né? Agora, eu tive o prazer de ouvir, por exemplo, nós tivemos, eu e a Glória, o prazer de ouvir do embaixador indiano que a gente fez mais pela chancelaria indiana aqui no Brasil do que 50 anos da embaixada porque a divulgação, a popularização, a intimidade, a quebra de preconceitos com a cultura hindu foi enorme. E é uma cultura absolutamente contrastante com a nossa. Agora, sempre é um recorte da realidade. A gente não tem essa pretensão de falar a grande verdade com ‘V’ maiúsculo.”

O prêmio Emmy. “Na primeira vez eu fui só indicado. Na outra, eu ganhei com Caminho das Índias. Foi uma felicidade porque é um reconhecimento da qualidade do trabalho. É muito interessante quando você vê esse olhar de fora sobre a nossa produção. Esse olhar, por exemplo, a gente tem quando olha para o cinema americano e reconhece que aquilo ajudou a cristalizar a identidade deles, projetar a cultura americana para fora. E quando você olha e entende que a nossa produção de televisão e de cinema também está tendo essa capacidade de comunicar para fora, de ter essa identidade... Então, sem dúvida, ter ganho o Emmy foi um marco profissional enorme.”

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