Reprodução de 'Game of Thrones' (2011) / HBO
Reprodução de 'Game of Thrones' (2011) / HBO

Diretor de Game of Thrones comenta grandes momentos da oitava temporada

Responsável por episódios clássicos como 'As chuvas de Castamere', David Nutter trabalha agora com reuniões e despedidas de personagens

Jennifer Vineyard, The New York Times

09 de maio de 2019 | 11h04

Certa vez, Barack Obama provocou o diretor David Nutter dizendo que ele tinha assassinado todos os seus personagens favoritos da série. O que não surpreende uma vez que Nutter é o homem que dirigiu o massacre dos Starks no Casamento Vermelho, a morte de Shireen, queimada viva, e a  de Jon Snow, apunhalado por um membro da Patrulha da Noite. Os episódios dirigidos por ele nesta temporada final de Game of Thrones  - os de números 1, 2 e 4 – foram bem menos violentos, concentrados mais nas clássicas reuniões e despedidas de personagens.

Durante entrevista por telefone, Nutter falou dos insights que deu aos atores para tornar esses momentos tão especiais: 

Muitos fãs ficaram contrariados que Ghost não teve o adeus merecido como um pet de estimação. Teria sido um problema de CGI?

Tem muito a ver com isto. E também como equilibrar tudo, fazer com que as coisas saíssem corretamente,  lembrar dos personagens e o que estava em jogo num momento particular. Jon dizendo adeus ao seu lobo gigante foi tão poderoso e rico por causa dos atores. Eles passaram muitos anos atuando na série e este é o auge dos seus personagens em alguns aspectos, de modo que era preciso manter o controle sobre o quanto você deseja dar a eles. Todo esse tipo de situação nós tivemos de resolver. O objetivo era encontrar a melhor ideia e obter o apoio a essa ideia, qualquer que fosse.

Os atores de Game of Thrones disseram que você enfatizou o inesperado em termos do desempenho deles, oferecendo um novo insight a eles ou uma nova tomada. Você poderia nos contar algumas observações que fez para os atores durante os anos que moldaram seu desempenho no geral?

Claro! Quando comecei a dirigir a série, Rory McCann, que interpreta o Clegane, o Cão de Caça, era alguém que prometia muito. Ele era fantástico, mas tinha problemas de atuação. Basicamente, sentei-me com ele, lemos juntos algumas sequências. Dez minutos depois olhei para ele e lhe disse: “OK, Este é o ponto. Pare de interpretar. Simplesmente diga seu texto como Clint Eastwood faria”. Quando começou a fazer isto, basicamente ficou perfeito.

Às vezes, quando os atores interpretavam seus personagens, eles os perdiam de vista. Mas eles tinham de descobrir algo dentro deles. E então os personagens estavam bem ali. Como diretor,  meu desejo é que descubram o personagem que já está dentro deles, em vez de tentarem manufaturar ou manipular ou mesmo inventar alguma coisa. Isso não é nem honesto e nem verdadeiro.

Diga alguma coisa sobre a Temporada 8.

Uma coisa que fiz nesta temporada foi dizer a Sophie Turner como Sansa deveria interagir com Daenerys. Havia um pouco de apreensão neste caso porque se tratava de uma grande cena em que elas se encontram, no Episódio 1, mas elas também se confrontam. Tive de lembrar a Sophie para pensar em Winterfell como a casa de Sansa. “Está é a sua casa na qual Dany está entrando”. Quis passar a ela toda a confiança do mundo, de modo que ela respondesse ao que recebeu. Acho que Sophie fez um tremendo trabalho nesse sentido.

E pode haver alguma sequência em que uma pessoa vê outra e o ator diz algo que não está no roteiro que pode estar mais próximo do estado emocional do personagem no momento.  Isso às vezes pode surpreender o outro ator.

Pode dar um exemplo disto?

Algo que funcionou muito bem foi no episódio de domingo. Disse  a Nikoaj (Coster-Waldau) quando Jaime dizia a Brienne como tudo o que fez foi por Cersei. E quando ele disse esta frase, demos um close-up em Brienne e havia um momento em que ela somente olhava para ele.  Disse a Nikolaj: “a última coisa que eu quero é que você diga a ela é que não a ama mais”. E naturalmente foi o que ele fez, mas ela não esperava ouvir diretamente da boca dele.  Gwendolini não esperava aquele momento e ela o perdeu. Foi  muito especial. Às vezes surpreender o ator num bom sentido como este realmente cria uma resposta que você não espera. E no caso dos dois, eles estavam muito próximos, por isto eu sabia que uma reação dele daquele tipo afetaria sua personagem também.

E quanto aos momentos finais entre Tyrion e Cersei, quando ele procura apelar para o lado bom dentro dela?

Acho que é um momento em que Tyrion procura apelar para o lado materno de Cersei, seu amor verdadeiro pela e seus filhos. Algo que realmente a afeta fortemente. Houve uma sequência que gravamos com Lena Headey e Pilou Asbaek  onde ele basicamente a deixa sozinha no quarto e tudo o que eu disse a Lena foi:  “ele a deixa e você fica sozinha com seus pensamentos por um longo tempo, e quero que você tenha a oportunidade,  de certa maneira, reafirmar o que acabou de fazer e se sentir enojada pelo que fez”. É uma cena usada em um dos trailers do episódio. Foi uma das gravações mais longas na sequência, quando você vê a porta se fechar e Cersei é tomada por essas emoções, uma cena que dura de três segundos, que em minha opinião,  foram excepcionalmente fortes e especiais.

É quando Euron Greyjoy descobre a gravidez de Cersei e presume que é seu filho. Há um momento muito sutil em que Tyrion fala com Cersei e menciona essa gravidez, e Euron olha para ela como se perguntando, “como ele sabe disto?”

Exato!  A atuação é tão incrível que no caso da direção foi apenas caso de dar espaço para eles interpretarem do modo que sentiam e criar um contexto no qual eles usam seus instintos naturais. E também algo que me envolvo muito como diretor é o trabalho com a incrível equipe de edição da série. São sensacionais, mestres em saber exatamente o que é perfeitamente adequado numa cena e como torna-la belíssima.

 

As reações de Emilia Clarke neste episódio foram as mais variadas, especialmente quando você cria um cenário para as vibrações de Rainha Louca de Danyeris.

Realmente há uma sensação de que a personagem dela se sente isolada, sentindo que Jorah Mormont já não existe mais. E naquele momento em que ouve Tormund falar que Jon é um rei porque saltou num dragão e lutou com um dragão, quando ela fez isto tantas vezes e não é reconhecida por isto. Acho que foi um ponto de referência interessante para a sua personagem lidar com essas questões. E também o encontro com Jon após a festa, realmente foi uma situação em que vemos como ficou afetada e o seu desespero para fazer com que Jon a ouça, e não ser aquele anjo.

Acho que no final dessa sequência ela mostra uma determinação importante e poderosa, mas também quando vemos Varys e Tyrion na sala de mapas implorando a ela para não fazer o que está fazendo, ela se mostra uma pessoa calma, fria. “Esta é a decisão que tomei. E assim será”. Penso que esta foi uma maneira muito mais assustadora de ela protestar, em vez de se mostrar histérica ou algo parecido.

Eu também quis poupar a a capacidade que Emilia tem para usar seu rosto e transformá-lo em diferentes formas e fases, no fim do episódio, para refletir como sua personagem sente. Há uma raiva que emerge dela, da personagem de Daenyeris, no final do episódio,  que nunca vi antes. Estou realmente com medo do que ela fará em seguida!

 

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