STR/AFP
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Depois de 'Leaving Neverland', músicas de Michael Jackson ganham novo significado

Documentário narra casos de abuso sexual, o que pode dar novos significados para suas canções

Chris Richards, The Washington Post

05 de março de 2019 | 17h16

Se você acompanhar as quatro horas de Leaving Neverland, verá os créditos correndo paralelos a imagens de uma fogueira consumindo uma luva de paetês, uma jaqueta de couro vermelha e a capa de um álbum que vendeu mais de 66 milhões e cópias. As chamas emitem uma ordem silenciosa: junte tudo que tiver de Jackson e arremesse nelas. Certamente você tem alguma coisa para jogar. Afinal, trata-se de Michael Jackson. Vamos, então, nos livrar dele.

Se prestar total atenção a Leaving Neverland, você vai querer mesmo ficar longe dele. O angustiante documentário de Dan Reed – que começa a ser exibido em duas partes pela HBO no domingo à noite – narra o suposto abuso sexual de Jackson contra Wade Robson e James Safechufk quando eles eram crianças – em detalhes tão massacrantes e incriminadores que não dá para olhar para o outro lado. Ao mesmo tempo, assistir ao documentário pode ser insuportável.

Mas, como fazer o mais famoso entertainer que o mundo já viu desaparecer no ar instantânea e permanentemente? Impossível. Mesmo lançando naquela fogueira até a última cópia de Thriller, ainda teremos que respirar a fumaça. A música de Jackson ditou os contornos a pop music do século 21. Nós o ouvimos, mesmo sem escutá-lo.

Na verdade, não nos cabe decidir se quereremos ou não ouvir outra canção de Michael Jackson na vida. Elas continuarão nas festinhas domésticas, nos casamentos, no karaokê e nos salões de dança onde Billie Jean agita as noites de sexta-feira. Talvez hoje essas músicas não sejam tocadas com tanta frequência, mas sempre haverá aqueles fãs que conhecem cada detalhe da obra de Jackson e se recusam a aceitar a grande, a terrível verdade sobre quem realmente ele foi (o espólio de Jackson se opôs energicamente ao documentário, exigindo na Justiça uma indenização de US$ 100  milhões da HBO e divulgando declaração na qual nega as acusações de Robson e Safechuck).

Para o restante dos mortais, cada música de Michael Jackson soa diferente hoje. Muitas canções antigas adquiriram hoje novo significado. Jackson sempre fez imenso sucesso, mas de repente suas músicas ganharam ainda mais fama, do modo mais sinistro. Elas parecem refletir a crueldade deste mundo. Sempre houve muito de bom para se ouvir nas músicas de Jackson, mas agora pode-se ouvir também o mal. Thriller é hoje muito sobre um homem expondo seu horror interno. Smooth Criminal passou a soar descaradamente criminosa. Keep It in the Closet tornou-se sinistra e perversa. Man in the Mirror virou uma confissão e culpa.

Mas o significado de uma canção não está exclusivamente na letra – e isso indica que também a voz de Jackson irradia uma nova aura. A suavidade e leveza de seu falsetto liberavam sua música da lei da gravidade. Hoje, esse falsetto soa como se Jackson tivesse usado a voz de uma criança como um disfarce traiçoeiro. A precisão e controle de seu fraseamento eram sentidas como a dádiva de um artesão à humanidade. Agora, nos fazem lembrar o controle que Jackson exercia sobre as crianças indefesas das quais se cercava.

Quanto às maiores canções de Jackson, sempre foram pequenas “fitas de Möbious”, canções sobre dança que induzem a dançar. E essa é a música com a qual teremos de continuar convivendo. É atordoante pensar nisso. São canções que consagraram muito a vida americana. Canções como Dont’ Stop ‘Til You Get Enough, Rock With You e Off the Wall , cujo apelo à dança foi descrito com brutal clareza pela crítica Margo Jefferson: “música de transe”.

O transe nos deixa vulneráveis. Como artista, Jackson sabia melhor que ninguém como isso funcionava. Sua habilidade em explorar a vulnerabilidade mudou a maneira como ouvimos música. Agora, as evidências são de que ele arruinou vidas de vulneráveis atrás de portas fechadas. Nosso modo de ouvir suas músicas tem de mudar novamente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Assista o trailer de Leaving Neverland:

 

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