Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Depois de 16 anos, Marco Nanini volta em 'Êta Mundo Bom!'

Na próxima novela das 18 h da Globo, ator vive um professor que se disfarça

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2015 | 05h00

RIO - Foram 13 anos vestindo um adorável figurino antiquado e repetindo um discurso pautado pela honestidade. Na pele do fiscal sanitário Lineu Silva, o ator Marco Nanini foi um dos destaques de A Grande Família, um dos mais longevos seriados da TV brasileira (estreou em 2001 e saiu do ar em 2014). “Troquei uma longa rotina por outra bem estimulante”, festeja ele, que volta a estrelar uma novela depois de 16 anos (a última foi Andando nas Nuvens, em 1999) - ele será Pancrácio, professor de filosofia de Êta Mundo Bom!, próxima trama das 18 h da Globo, de Walcyr Carrasco, que estreia no dia 18 de janeiro.

Livremente inspirado no conto Cândido, que o escritor iluminista Voltaire publicou em 1759, o folhetim é uma comédia caipira ambientada em São Paulo (primeiro no interior, depois na capital) dos anos 1940. Candinho (Sérgio Guizé) é um jovem ingênuo, otimista incansável e levemente inspirado em Mazzaropi, que vive apoiando o professor Pancrácio, homem também com pensamento positivo, a ponto de não perder a alegria mesmo com a dificuldade de encontrar um emprego.

“Ele escolheu ser professor de filosofia em uma época em que isso nem era considerada uma profissão de verdade”, diz Nanini, que releu a obra de Voltaire para captar o espírito do personagem. “É um homem engraçado que, por acreditar viver no melhor dos mundos, não vê mal nenhum quando comete pequenos delitos, como enganar os outros em troca de dinheiro.”

É justamente essa característica que permite Nanini exercitar seu enorme talento: Pancrácio se disfarça de diversos tipos para arrancar algum trocado dos outros moradores. Assim, em um dia aparece diante da igreja disfarçado de mendigo; no outro, faz um cego; no seguinte, uma opulenta senhora que arrecada fundos para um inexistente lar de órfãos. “Cheguei a me vestir de um militar da FEB, mas não gravamos a cena porque choveu”, diverte-se o ator. “Pancrácio gosta de representar e às vezes sofre por não interpretar bem. Ele quer mais fogo, emoção. Há uma cena em que sua farsa é descoberta e ele fica arrasado. É tão ousado que planeja se disfarçar de grávida, mesmo aos 60 anos. É essa loucura que busco acrescentar ao personagem.”

Aos 67 anos, Nanini é um mestre da interpretação - em 50 anos de carreira, criou tipos notáveis para TV, teatro e cinema. Às vezes, como nas peças Doce Deleite, O Mistério de Irma Vap e Pterodáctilos, oferecia mais de um personagem. “É um ator completo, que vai do drama à comédia, sempre de maneira profunda, sem recorrer a recursos fáceis”, atesta Walcyr Carrasco. “Nanini torna qualquer cena simples em algo espetacular”, completa Jorge Fernando, diretor-geral de Êta Mundo Bom!.

A facilidade, no entanto, encobre um minucioso trabalho. “O grande segredo é caracterizar com emoção”, ensina. “A emoção vem em primeiro lugar, pois o raciocínio cerebral atrapalha - ao invés de mandar no personagem, gosto de receber um impulso dele.”

Viver agora inúmeros tipos depois de vários anos “preso” a Lineu Silva tem sido uma dádiva para o ator. Quando a reportagem acompanhou uma gravação da novela, Nanini surgiu vestido de mulher. “Como já fiz algumas, ataco mais a alma, o sentimento - se eu pensasse apenas no exterior, ela ficaria estereotipada. Procuro adequar a mulher ao meu tipo físico, para não forçar a barra. Aqui ela tem culote, pois é uma senhora.”

Nanini confessa que ainda rodeia a figura de Pancrácio. “Sua ambiguidade é difícil de radiografar”, comenta. “Eu poderia fazê-lo formal em todos os sentidos, pois se trata de um professor, mas seria uma mera interpretação sem naturalidade. Ainda não sei se ele se posiciona contra o otimismo excessivo - às vezes, acho que sim; em outras, tenho minhas dúvidas.”

Todo esse cuidado profissional conduz a conversa para um tema delicado: a morte de Marília Pêra, dia 5, uma das maiores atrizes brasileiras e com quem Nanini dividiu cenas memoráveis. Nos últimos anos, no entanto, eles não se falavam. “Senti uma tristeza muito grande, pois tivemos momentos significativos. Fiquei abatidíssimo. Era uma mulher brilhante, atriz excepcional. Naquele dia, preferi reverenciar sozinho sua grande personalidade.”

Livro e exposição de fotos marcam os 50 anos de carreira

Os 50 anos de carreira aconteceram agora em 2015 (trabalhou em um banco e em um hotel antes de estrear como ator na peça infantil A Floresta Encantada, em 1965), mas Marco Nanini vai comemorar de fato no próximo ano, quando estão previstos um livro de fotos, uma exposição e a participação em duas peças.

Logo no primeiro semestre, Nanini vai trabalhar com os irmãos Adriano e Fernando Guimarães, diretores que estabeleceram uma extensa e profícua relação com a obra do irlandês Samuel Beckett (1906-1989). À frente do coletivo Irmãos Guimarães, eles vão montar diversos textos do escritor, no Rio de Janeiro. “Faço uma prosa pequena. É um desafio descobrir a intenção, a medida da fala do texto beckettiano. É um exercício.”

Outra peça da qual o ator vai participar será Ubu Rei, clássico de Alfred Jarry. A previsão de estreia é para o segundo semestre de 2016. Finalmente, serão organizados por Gringo Cardia um livro de fotos e uma exposição de imagens referentes aos 50 anos de carreira de Nanini.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.