'Decamerão' é um pedaço de bolo

. Minha tia Sebastiana é daquele tipo de senhora bem aprumada, hoje de cabelos brancos com reflexos violeta, mas que tem o sorriso doce e malicioso de quem dançou muito samba-rock nos churrascos no quintal de casa, na Vila A.E. Carvalho. Ela também é daquelas tias que compram badulaques – maquiagem, brincos, caixinhas com lenços – "no atacado", para ter sempre um presente à mão quando alguém vai visitá-las.

09 de agosto de 2009 | 07h00

 

Sebastiana também é do tipo de tia que bate um bolo de limão na hora, para servir com café. "Vamos na cozinha, que vou bater um bolo", diz, enquanto pergunta o que sei sobre a vida recente do Fábio Jr., para sempre concluir: "Ele estava lindo de Jorge Tadeu!", lembrando do personagem maravilhoso de Pedra sobre Pedra.

 

À mesa, comendo o bolo de limão também na companhia da tia Nêga, os assuntos e as histórias são sempre os mesmos, e geralmente envolvem o sítio que a família morava em Guaxupé que, quando eu era criança, imagina como sendo a Tara, de E o Vento Levou.

 

Há muito conforto em ouvir as histórias que a gente já conhece – e é engraçado como nossa percepção dessas histórias muda conforme ficamos mais velhos e ouvimos mil vezes. E se essas histórias são acompanhadas do bolo de limão da tia Sebastiana ou filmadas por Jorge Furtado, o prazer é certo.

 

Decamerão, a série que o diretor gaúcho estreou há duas semanas na Globo, é mesmo um pedaço de bolo de limão. É linda de ver e deliciosa de ouvir, por ser interpretada em versos. As histórias, adaptadas da obra de Boccaccio, são de simples trapaças, pequenos pecados e humor. Há uma bem-humorada militância do diretor, que também assina o roteiro, na opção pelas histórias básicas e universais – a dramaturgia pura de ontem como resposta à desdramaturgia de hoje, nas palavras dele.

 

As velhas e boas histórias voltam, sempre. Caras & Bocas, a novela das 7, vive agora um momento Senhora. Como a Aurélia do livro de José de Alencar, Milena (Sharon Menezes) comprou o marido, Nicholas (Sérgio Marone), sujeito inescrupuloso que a humilhara, mas que ela ama perdidamente.Da mesma forma que a amarga Aurélia, Milena não comprou o marido para fazer bom uso dele, mas para pisar. "Ele é um safado, mas dá pra ver que gosta dela", lamenta tia Sebastiana. O Fernando, de Senhora, também gostava da Aurélia.

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