Marcos de Paula/Estadão
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Cristina Padiglione
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Débora Bloch abraça o papel de se dividir entre o trabalho e a maternidade

Conflitos assumem papel da atriz em 'Sete Vidas'

Entrevista com

Débora Bloch

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

05 de abril de 2015 | 03h00

RIO - Esqueça a diva que finge ter a idade que não tem. Representante de uma geração artística que dispensa truques de apelo ao glamour (o que não a impede de cuidar bem da saúde estética), Débora Bloch não espera que lhe perguntem quantos anos tem de vida. Vai logo falando de seus 51 e refuta a ideia de que “nem parece”. “Parece, sim”, afirma. Argumenta como quem domina os conflitos de sua atual personagem na novela das 6. Lígia, afinal, a heroína da ótima Sete Vidas, contempla um tipo muito comum nos dias de hoje: a mulher profissionalmente bem sucedida que resolve desacelerar o ritmo do trabalho para finalmente cuidar de seus afetos pessoais, a começar por uma maternidade tardia.

Não é o caso da atriz, que começou a trabalhar aos 17 e, aos 30, quando quis ser mãe, já tinha autoconfiança para saber que carreira e filhos podem ser conciliáveis, ainda que configurem uma gincana para qualquer mulher. A conversa com o Estado começa logo após mais um expediente nos estúdios do Projac, onde o diretor Jayme Monjardim pontua cada detalhe de uma importante sequência do enredo assinado por Lícia Manzo. “Débi”, anuncia ele pelo microfone do switcher, “desculpe, vamos acertar a luz”. E toca refazer a cena. 

Expert desde os 18 anos nesse negócio de TV, onde “tudo é feito para te dispersar”, diz, Débora faz a pausa solicitada, respira, retoma o foco e, quando necessário, pede mais um tempinho para religar o estado de atenção. “Você vai aprendendo a controlar a emoção, a que horas liga, a que horas desliga, mas isso pede muita concentração”, explica.


Mais impressionante é vê-la se comover em cena e contagiar uma plateia que a conhece de outros carnavais e humores, coisa de quem sabe ir do riso às lágrimas sem perder o aplauso. Mas, avisa ela, o drama sempre pede mais tensão e acarreta em mais exaustão que a comédia. “Gosto de fazer papéis diferentes. Tenho pavor de me repetir, isso eu não quero.”

Mãe de Júlia, que atualmente estuda cinema nos Estados Unidos, e de Hugo, que quer estudar design de games, ambos do casamento com o francês Olivier Anquier, Débora Bloch já sente os efeitos da chamada Síndrome do Ninho Vazio, quando os filhos vão abandonando o teto dos pais. O assunto também é abordado por Lícia Manzo em Sete Vidas, em um enredo que tem como foco central a doação de sêmen e a consequente busca desses frutos pela identidade paterna. Para Débora, é uma novela feita para atores, que preza a arte da interpretação e o jogo de cena.

Acredita que a novela contribua para a reflexão sobre profissão X maternidade?

É uma coisa estrutural e uma possibilidade que se abriu, o fato de a mulher hoje poder engravidar mais tarde. No caso das irmãs, é exatamente isso: para uma, cai a ficha de que ela precisa desacelerar para cuidar da vida dela, ter uma família; para a outra, não. Até que vai cair a ficha dela quando não puder mais ter filhos. Tive minha primeira filha com 30, mas eu também comecei a trabalhar muito cedo, aos 17. Eu já tinha uma carreira, uma independência financeira, estava mais tranquila e queria muito ter filho. Depois que tive, dei uma desacelerada boa, apesar de eu nunca ter parado de trabalhar. A vida fica bem gincana. Um dia, eu estava fazendo uma peça, gravando uma novela no Rio e meu filho teve uma pneumonia. Ele não tinha nem 2 anos e foi internado, achei que ele ia ficar um ou dois dias internado: ficou 15 dias, fez duas cirurgias! Tive que parar de gravar e falei ‘nunca mais faço peça com novela’. E ainda ia fazer um filme! 

O que a comove nesta novela?

A Lícia Manzo é uma mulher da minha geração que escreve muito bem sobre as mulheres dessa geração e a mulher contemporânea. Tem muita coisa que ela coloca que a gente sabe do que está falando. E não tem vilão. O vilão são os conflitos internos. No caso da irmã dela (Irene/Malu Galli), o vilão é a ambição profissional, que acaba não a deixando realizar o outro lado da vida. No meu caso, é um cara que não consegue criar vínculos e ficar numa relação. As adversidades que a vida vai apresentando fazem os conflitos. Tem uma coisa nessa novela que pra mim é ouro de mina: o elenco. É uma novela de atores, cada um com quem você entra em cena é um jogo, é um Fla X Flu, é muito bom de fazer. Todo mundo traz algo para a cena e a bola rola em campo. É uma novela escrita para o ator, como jogo de cena. Com a Malu, minhas cenas são um deleite. 

É interessante ver você nesse papel dramático, com um histórico tão forte de comédia.

Quando me mostraram o texto, fiquei super interessada. A história da novela é muito interessante e para mim é muito instigante por isso: era num outro diapasão, um tom muito realista, com muita verdade, uma novela para ator. Não é uma novela de ação, mas é feita para os atores darem vida e verdade ao texto.

Você fez mais comédias que dramas ou é só impressão?

Fiquei muito identificada com comédia porque fiz uma coisa que foi muito importante, que foi o TV Pirata. Todo mundo lembra, foi muito marcante, foi um momento muito importante na minha vida. Foi como fazer uma faculdade. Aprendi muito como atriz. E as pessoas, em geral, se arriscam pouco, né? A gente vê o Jim Carrey fazendo uma comédia super histriônica e de repente vê Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças: ele está deslumbrante. O ator que faz comédia tem uma liberdade que o ajuda na hora do drama. Não me vejo como comediante, mas como atriz que faz comédia e drama. E não vejo muita diferença, como atriz, porque a comédia que me interessa é a que revela nossas tristezas, nossos dissabores. A comédia, na verdade, é rir do nosso drama. Quando você faz um trabalho que fica marcante, fica identificada com aquilo e as pessoas passam a te chamar só para aquele tipo de trabalho. Você começa a se repetir. Tenho pânico quando vejo me repetindo, eu me deprimo. Sempre busco algo novo para mim.

Você foi assistente de direção da Amora Mautner na série Eu que Amo Tanto, do Fantástico. Dirigir é um novo caminho?

Ainda não, fiz pequenas experiências informais e tive muito prazer, mas foi uma coisa especial, não estou dirigindo ainda. Para fazer isso, tenho que parar e me dedicar a isso. Gosto muito de trabalhar como atriz. A direção seria uma evolução do mesmo trabalho, um outro lado da mesma moeda.

Algumas mulheres se queixam de não haver papéis para elas após os 60. Você vê esse futuro?

Digamos que a gente ainda viva numa sociedade bem machista e os homens vão envelhecendo e fazendo par com mulheres cada vez mais jovens. É muito paradoxal: quanto mais velha você fica, melhor atriz vai se tornando. Acho que a gente vive um culto à juventude, e não é só no Brasil, é no mundo. A verdade é que a câmera ama a juventude, seja na TV ou no cinema, e tem uma coisa que é do veículo: a relação com a mulher jovem, com a beleza. Acho um presente estar fazendo este papel aos 51.

É mais cansativo fazer drama?

Na comédia, você pode brincar o dia inteiro, né? E o drama é um exercício de concentração absoluta. Com certeza, a gente sai mais cansada do estúdio. Televisão é um exercício de concentração muito grande, tudo é feito para te dispersar. Você ensaia, ensaia, e aí falam: ‘peraí, vamos botar uma luzinha’. Você já aqueceu, estava pronta para vir aquela emoção, e esfria tudo, é um exercício de liga e desliga. E se gastar toda a emoção no ensaio, na hora de gravar não tem mais. Às vezes, peço um tempinho, senão não fica de verdade. Tem um lado que é técnico, a gente vai aprendendo a controlar a que horas liga e desliga.

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