Netflix
Netflix

Debate: ‘House of Cards’ sobreviveu sem Kevin Spacey?

Sexta e última temporada da produção não teve o personagem principal das cinco anteriores, Frank Underwood

Roberto Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

25 de novembro de 2018 | 06h00

Não

Por Roberto Godoy

Uma boa opção para encarar a 6.ª e última temporada de House of Cards, o tremendo thriller político da Netflix que deu prosperidade em escala milionária ao negócio das séries americanas, é ignorá-la, fazer de conta que nunca existiu. Sem o presidente mau caráter Frank Underwood (Kevin Spacey), nem mesmo a figura aterrorizante da viúva Claire – vice-presidente, herdeira e bruxa política, feita presidente titular por causa da morte do marido –, salva o espetáculo: a receita desandou. A protagonista Robin Wright, atriz e também diretora experimental, põe empenho no trabalho, tem bons momentos. A trama, todavia, não ajuda. House of Cards, que pena, virou um sopão de sobras – embora com uma ótima trilha sonora.

A saída de Spacey foi pesada. Acusado em muitos casos de assédio sexual, o ator está banido de Hollywood há mais de um ano, condenado pelos generais que comandam a indústria do cinema. Ele é um homem rico, só vai sofrer com os custos morais e o ego arrasado. Mas, como no império egípcio, seu nome não deve ser pronunciado nem escrito. Foi removido dos monumentos. Ainda assim, o presidente Frank que interpreta é o personagem nunca visto e mais presente nos oito episódios encontrados no serviço de TV paga. Spacey introduziu um caco no tecido da série: os diálogos diretos com o espectador. Robin tenta repetir o modelo. Não funciona.

O destino de personalidades como o jornalista Tom Hammerschmidt, um gigante da profissão, e de sua ambígua parceira, Janine Sikorsky, fica evidente desde o segundo ou terceiro capítulo. Basta esperar que aconteça. A entrada em cena dos irmãos Sheperd, Bill e Diane, não é claramente explicada. De que inferno, diabos, saiu aquela dupla que desmanda, manda, elege e controla presidentes dos EUA?! (Atenção para a cena em que Claire e Diane, inimigas de longa data, fazem uma coreografia de balé. Explica uma porção de coisas.)

A dura missão dos roteiristas, a de colocar em pé e funcionando uma história que parecia bem terminada no final da 5.ª temporada, levou o time de escritores a optar por saídas surreais – até a possibilidade de um fantasma assombrando a Casa Branca é insinuada. Grande prejuízo. Desapareceram a sensualidade e a transgressão prontas para saltar no vídeo a cada sequência. Há líderes do governo americano que morrem, não morrem, e depois morrem de fato. A revelação apenas sugerida da ligação esquizofrênica entre Frank Underwood e Doug Stamper, o mais antigo agente de sua vontade, somado ao uso da ameaça nuclear como ferramenta de preservação do poder – é tudo uma baita bagunça. O desfecho encenado no Salão Oval por Doug e Claire é de dar vergonha em autor de novela coreana. Saudade do enredo cafajeste das cinco primeiras temporadas.

****

Não

Por Pedro Venceslau

Em uma das primeiras cenas da 6.ª temporada de House of Cards, a presidente Claire Underwood (Robin Wright) está sozinha na limosine presidencial blindada quando abre uma reportagem sobre o funeral do marido, o ex-presidente Frank Underwood.

As fotos mostram o corpo no caixão do pescoço para baixo. Simplesmente escondem o rosto do finado. É um mau presságio. Lançada em 2013, a série arrebatou público e crítica nos três anos seguintes.

Foi a primeira de streaming indicada ao Emmy, o ‘Oscar’ da TV. O prêmio também foi entregue aos atores Kevin Spacey e Robin Wright. Nas últimas duas temporadas, porém, a trama veio perdendo fôlego, audiência e relevância.

As filmagens da 6.ª e última temporada já tinham alcançado o 3.° episódio quando veio à tona uma investigação sobre assédio sexual envolvendo Spacey. A Netflix agiu rápido: demitiu o ator e começou tudo de novo, do zero e às pressas.

A publicidade antes da estreia apelou para o spoiler e anunciou a morte de Frank Underwood. Os 13 episódios previstos foram reduzidos para 8 capítulos arrastados. 

Não seria exagero dizer que House of Cards, que respirava por aparelhos, morreu junto com seu protagonista.

Na esteria do escândalo envolvendo Spacey, a série colocou o machismo em cena, mas errou na mão. E o feminismo acabou virando muleta para uma trama fraca.

Claire Underwood surge no Salão Oval acuada e tutelada por um chefe de gabinete/vice e dois irmãos milionários que usam e abusam da Presidência para fazer negócios obscuros.

A viúva de Frank tenta se impor diante das cenas de machismo explícito, mas se mostra frágil, apesar do ar blasé e das frases de efeito olhando para a câmera. Em uma delas, diz imponente: “Eu preciso enterrar Francis”.

O chefe de gabinete grita com ela, assim como o milionário arrogante, que chega ao cúmulo de manipular a mão da presidente para que ela assine um decreto. 

A trama política pontuada por crimes peca pela total falta verossimilhança, uma característica que veio se acentuando a partir da terceira temporada. O eixo desorganizador da série, porém, foi, sem dúvida, Kevin Spacey.

Sua ausência grita a cada episódio. Frank está onipresente no roteiro, mas Spacey foi apagado da história como se nunca tivesse existido. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.