Vincent Tullo/The New York Times
Vincent Tullo/The New York Times

'Dear Mr. Brody' mostra uma desesperada corrida de sonhos e desilusões

Documentário que acaba de entrar em cartaz na Discovery+ mostra um desfile de dramas desencadeados por uma falsa promessa de dinheiro

JENNIFER SCHUESSLER, THE NEW YORK TIMES

02 de maio de 2022 | 05h00

Certo dia, no início de janeiro de 1970, Michael James Brody Jr. desceu de um jato da Pan Am no aeroporto John F. Kennedy para o que seria um dos quinze minutos de fama mais curtos e estranhos da década. Até então um obscuro herdeiro de 21 anos de um império de margarina, Brody estava voltando de sua lua de mel na Jamaica e, em um grande gesto romântico, comprou impulsivamente todos os assentos do avião para que ele e sua noiva pudessem voar para casa sozinhos. Após o desembarque, vestindo calça boca de sino e grandes óculos de sol verdes, anunciou aos repórteres que daria sua fortuna de US$ 25 milhões para pessoas comuns para espalhar amor e “curar os problemas do mundo”.

Nos dez dias seguintes, Brody, com sua bela feição e os cabelos desgrenhados, apareceu nas primeiras páginas dos jornais e no The Ed Sullivan Show, onde dedilhou uma música de Bob Dylan em um violão de doze cordas. Multidões invadiram sua casa no condado de Westchester e seu escritório no centro de Manhattan, em Nova York. E havia também as cartas, dezenas de milhares, que foram se acumulando a ponto de o correio ameaçar queimá-las. Quase imediatamente, os cheques de Brody começaram a voltar e sua vida se desfez. E logo ele desapareceu das manchetes e da memória das pessoas.

Mas, em uma manhã recente, Thai Jones, curador da biblioteca de coleções especiais da Universidade Columbia, pegou um abridor de cartas semelhante a um bisturi, enfiou a mão em uma caixa de correspondência e respirou fundo. “Aqui vamos nós”, disse ele antes de cortar um envelope com um endereço de retorno marcado como “Pessoal e confidencial – para ser aberto apenas pelo destinatário”. “Caro Sr. Brody,” Jones começou a ler. Era um pedido de mil dólares de uma mulher cujo marido havia morrido e deixado uma montanha de contas.

Ele abriu outra carta, rabiscada por um homem do Brooklyn que lutava para sustentar seis crianças com salário de US$ 125 por semana. “Para provar que sou sincero”, escreveu o homem, “você pode visitar meu apartamento a qualquer hora”. Foi o primeiro vislumbre de um tesouro de cerca de 30 mil cartas – a grande maioria ainda fechada – que foram doadas pelos cineastas responsáveis por Dear Mr. Brody, um documentário que já está em cartaz no Discovery+. No filme, as cartas (algumas lidas em voz alta por seus autores, rastreados pelos cineastas) fornecem um contraponto às vezes devastador ao conto selvagem da grandiosidade de Brody.

CÁPSULAS DO TEMPO. As cartas são parte mensagens em uma garrafa, parte jogo de salão voyeurístico, parte potencial riqueza para historiadores. “É muito, muito incomum colocar as histórias de pessoas comuns nos arquivos de uma maneira como essa, com milhares de pessoas escrevendo e falando sobre suas vidas”, disse Jones.

As cartas, agora no acervo da Columbia, reapareceram uma década atrás, quando Melissa Robyn Glassman, produtora de Dear Mr. Brody, estava vasculhando um armário pertencente ao produtor de Hollywood Edward R. Pressman, que se preparava para doar seu arquivo à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Em cima de uma prateleira, ela notou algumas caixas rotuladas “Cartas Brody”. Dentro, havia pilhas e pilhas, todas endereçadas à mesma pessoa, com a data de janeiro de 1970 – e todas fechadas.

“Perguntei à esposa de Ed sobre elas”, lembrou Glassman em uma entrevista em vídeo conjunta com Keith Maitland, o diretor do documentário. “Ela disse: ‘Oh, eu estou tentando fazer Ed jogá-los fora há anos!’.”

Pressman havia adquirido as cartas no início dos anos 1970, juntamente com os direitos de um roteiro sobre Brody, que ele imaginava transformar em uma comédia sombria no estilo Billy Wilder. “Imaginei Richard Dreyfuss” como a estrela, disse Pressman em entrevista (Brody morreu em 1973). Na história de Brody, que se desenrolou em menos de duas semanas, certamente não faltaram reviravoltas malucas. Poucos dias depois de aparecer no programa de Ed Sullivan, ele conseguiu um contrato de gravação e gravou várias faixas, incluindo uma chamada The War Is Over. “Não estou dando dinheiro”, disse ele a um repórter da CBS. “O que estou entregando são bons sentimentos pela humanidade.”

Mas a história tomou um rumo mais sombrio. Um artigo no The New York Times na manhã seguinte à sua aparição na TV citou Brody dizendo que havia anunciado sua grande oferta “enquanto estava drogado”. “Que piada eu fiz para o mundo!”, disse ao repórter – um funcionário de seu banco chamou suas afirmações sobre o tamanho de sua fortuna de “exageros grosseiros”. Glassman começou a levar as cartas para casa à noite. “Fiquei obcecada”, disse ela. “Comecei a abri-las com minha mãe.” Os cineastas rastrearam o filho de Brody, que contou ter achado outras cem mil cartas, que entregou a um roteirista que também tentou fazer uma cinebiografia.

PROSAICAS. Dear Mr. Brody oferece fotos caleidoscópicas de envelopes decorados com rabiscos e adesivos. A maioria das cartas, ainda não abertas em Columbia, é mais prosaica, embora muitas tenham sinais de paz desenhados nos selos. Uma hora e meia abrindo cartas rendeu muitas histórias de dívidas, doenças e desespero. Mas também havia crianças pedindo dinheiro para brinquedos, pedidos de ajuda para pagar as mensalidades da faculdade, para começar “uma estação de rádio de hard rock em uma cidade universitária” ou um jornal no Alasca. “Vamos encarar”, escreveu uma mulher de 24 anos no East Village de Manhattan, “nós também gostaríamos de ir a uma ilha e fazer amor!”

No documentário, os cineastas se concentram em histórias individuais emocionantes, como a mãe e a filha que escreveram cartas, sem o conhecimento uma da outra. Mas também descobriram grupos que apontam temas mais amplos. Um grupo de cartas dos filhos de trabalhadores migrantes em Immokalee, Flórida, descreve sem rodeios a violência e o alcoolismo desenfreados em sua cidade.

Abrir as cartas pode ser mágico, mas também é exaustivo. Depois de uma hora e meia, Jones disse que se sentiu esgotado. Mas também foi difícil parar. “Existe uma regra com a pesquisa de arquivos”, disse ele. “A última coisa que você abrir será a melhor.”  TRADUÇÃO DE JOÃO LUIZ SAMPAIO

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