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De Harvard, roteirista cria diálogos científicos para ‘The Big Bang Theory’

Eric Kaplan fala sobre as inspirações para uma das comédias mais populares da televisão

Claudia Dreifus, The New York Times

14 Setembro 2013 | 23h32

Pode parecer improvável uma série de televisão girar em torno das vidas e amores de um grupo de cientistas no Instituto de Tecnologia da Califórnia, ou Caltech. Mas The Big Bang Theory, que inicia sua sétima temporada nos EUA no dia 26 de setembro (no Brasil, a estreia será no dia 8 de outubro, às 20 h, no canal Warner), é uma das comédias mais populares da televisão.

Parte de seu sucesso pode residir no fato de que um de seus produtores executivos e roteiristas, Eric Kaplan, entende de comédia e de academia. Seu currículo inclui não só Os Simpsons e The Late Show With David Letterman, mas também Harvard e um programa de doutorado não concluído – na Universidade da Califórnia.

Conversamos com Kaplan, de 46 anos, por duas horas em Boston e, dias depois, novamente, agora por telefone. Em seguida, uma versão condensada e editada das duas conversas.

Você cresceu no Brooklyn, certo?

Cresci em Flatbush. Minha mãe era uma professora de biologia na Erasmus Hall High School. Meu pai era um advogado de fachada. Entrei na Hunter High School aos 12 anos e ia de metrô para Manhattan. Foi um despertar. Eu tinha amigos de todas as partes da cidade, íamos olhar a coleção de armas e armaduras no Metropolitan Museum of Art. Como os personagens de The Big Bang Theory, jogamos um bocado de Dungeon and Dragons e frequentamos convenções de quadrinhos. Comecei a ler filosofia. E, depois, Harvard. Meu tio dizia: “Você deve ir para Harvard porque eles têm maior tolerância a esquisitões”.

Harvard era parecida com sua versão da Caltech em The Big Bang Theory?

Era. Porque havia pessoas ali que eram sincera e apaixonadamente interessadas no que estavam fazendo. Aquele mundo era de pessoas tão envolvidas em qualquer coisa que estivessem estudando que se esqueciam de vestir as calças. Eu nunca esqueci, mas conheci pessoas que fizeram isso... A ideia de que você está mais interessado nos problemas admiráveis que a vida oferece do que em algum tipo de jogo de status era genuíno ali; e é isso que tentamos transmitir na série.

Ganhador do prêmio Nobel de Física. Leon Lederman passou anos tentando interessar Hollywood numa série de televisão sobre cientistas, mas não conseguiu. Como foi que Chuck Lorre, o primeiro a desenvolver a série, conseguiu?

Chuck é um produtor de televisão bem-sucedido. Mas aposto que se ele quisesse fazer um experimento com o colisor de partículas, não deixariam.

Disseram a Lederman que ninguém ia assistir a um programa sobre um bando de nerds.

Chuck e Bill Prady, criadores da série, imaginaram que a experiência de ser um outsider tinha apelo universal. Nossos personagens não precisam ser cientistas. Eles poderiam ser qualquer outsider.

Vocês não estariam criando estereótipos de cientistas ao rotulá-los como desajustados?

Veja, isto é uma história, não uma tese. É um conjunto de personagens específicos. Nem todos os cientistas são como Sheldon Cooper, que acha difícil abraçar alguém. Mas muitas pessoas cujas habilidades cognitivas ultrapassam seu senso emocional podem ver algum aspecto de Sheldon em si próprios.

Como você encontra o conteúdo científico das histórias?

Bem, suponha que decidimos que Amy e Sheldon deveriam ter uma briga. Como eles são cientistas, sua briga será sobre ciência – sobre as prioridades relativas da neurociência e da física. O que está se passando emocionalmente é que eles estão discutindo sobre os termos de seu relacionamento, mas eles encobrirão este fato expressando-se sobre ciência. Em outro momento, se queremos que Sheldon fique realmente zangado com algum ramo da ciência, perguntamos a nosso consultor científico: “O que poderia ser?”

Você lê revistas especializadas?

Não, lemos o Science Times. Ali nós topamos com coisas que parecem interessantes. O acelerador de partículas na Suíça, havia certa preocupação de que ele poderia destruir o universo. Nós provavelmente fizemos alguma piada sobre isso ou talvez até alguns diálogos sobre o assunto.

Como você chegou à série?

Eu me candidatei a um emprego. Já faz alguns anos que trabalho na televisão. Escrevi um roteiro sobre especulação para conseguir um emprego em Malcolm in the Middle, que apresentei a Chuck e Bill como uma amostra. E eles me entrevistaram. Meu roteiro tinha duas histórias: uma era sobre masturbação e a outra, sobre a teoria dos jogos. Chuck disse. “Masturbação e teoria dos jogos, parece algora para The Big Bang Theory".

Você recebe e-mails de alguns cientistas que gostam de assistir à série?

Não só e-mails. Cientistas vêm ao programa e assistem da plateia. Nós os usamos com frequência como extras no fundo das cenas no restaurante, por exemplo. Stephen Hawkins participou uma vez. Ele ficou contente de retratar uma versão mesquinha e pueril dele mesmo – no episódio, ele gostava de humilhar Sheldon num jogo de quebra-cabeça de palavras online. Ele interpretou a si mesmo como um bebezão. Não quis ser retratado como um herói da ciência. Isso me fez respeitá-lo ainda mais, porque ele não sente a necessidade de se fingir de alguma coisa.

Suas histórias têm muitas piadas internas; houve um episódio hilário que incluiu referências ao gato de Schrödinger. Como sua equipe sabe o que é engraçado em ciência?

Eu me formei em filosofia analítica, que é culturalmente muito parecida com a ciência. E visitamos várias escolas e laboratórios. Fomos à estação de controle do Mars Rover (veículo de exploração do planeta Marte). Essa visita foi a fonte de várias histórias. Conversamos com um astronauta da Nasa, Mike Massimino. Ele nos contou sobre seus parentes italianos que não ficaram impressionados por ele ter ido ao espaço – e isso virou um enredo para Howard. Ele vai para o espaço e, quando volta à Terra, ninguém no seu cotidiano fica impressionado.

Você às vezes ouve cientistas dizerem “obrigado por mostrar algo de nossas vidas na televisão”?

Oh, claro. Eles às vezes dizem que haverá uma nova geração de cientistas daqui a 10 anos: garotos que assistiram à série e decidiram se tornar cientistas porque gostaram dos personagens. Isso seria ótimo. Creio que haverá mais cientistas e menos advogados. É melhor inventar um avião de plástico do que processar alguém.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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