Rafael Arbex / ESTADÃO
Rafael Arbex / ESTADÃO

De caminhoneiro a matador de aluguel, Marco Pigossi coleciona personagens

Em seus papéis, o ator procura sempre a característica reveladora

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2017 | 06h00

Marco Pigossi é um ator apaixonado por detalhes. “Às vezes, topo fazer uma novela inteira só pela chance de fazer apenas uma cena”, conta ele, um dos astros do folhetim das 9h, assinado por Glória Perez, A Força do Querer. Quando recebeu as primeiras indicações de seu personagem, logo descobriu qual seria “o” momento: aquele em que Zeca causa furor no mercado Ver-o-Peso, em Belém do Pará, ao carregar nos ombros sua então paixão, Ritinha (Isis Valverde), vestida de sereia. “A cena é inusitada, bem-humorada, e a graça provoca identificação sem rejeição”, comenta o ator, revelando assim sua afeição pelo machismo pouco convincente do caminhoneiro Zeca.

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São histórias como essa que fascinam o ator de 28 anos, que já ostenta dez novelas no currículo e um punhado de marcantes interpretações no teatro e no cinema. “Sempre quero me reinventar, especialmente fora da TV”, conta Pigossi que, para cada personagem, cria uma nova persona. É o que o público poderá conferir depois do final de A Força do Querer, no segundo semestre, quando o ator será visto em dois filmes e em papéis totalmente distintos.

Em A Última Chance, por exemplo, longa de Paulo Thiago, Pigossi vive um protagonista inspirado em uma história real: a de Fábio Leão, homem que colecionou uma série de passagens pela polícia desde a infância, seja por pequenos furtos ou clonagem de carros até tráfico de drogas. Quando foi preso mais uma vez, em 2007, tornou-se evangélico e admirador das marciais. Com isso, abandonou a vida no crime e passou a dar aulas de lutas aos outros detentos.

“É um personagem que não difere de muitos outros até descobrir a luta”, conta o ator, que treinou durante 50 dias as técnicas do muay thai com um professor, além de assistir a diversas lutas. Foram ainda muitas horas de ensaios para Pigossi descobrir os caminhos para interpretar Leão – ele preferiu não pesquisar diretamente com o rapaz, disposto a criar o seu personagem. “Não é um filme sobre lutas, mas sobre a superação de um homem”, justifica.

É justamente a complexidade humana que indica os caminhos interpretativos de Pigossi. Zeca, por exemplo, o protagonista da novela, é, à primeira vista, um machista inveterado. “Mas essas atitudes não passam de uma máscara de proteção”, acredita ele, que conseguiu, aos poucos, introduzir o humor no personagem, apesar da desconfiança inicial da autora, Glória Perez. Para isso, contribuiu a química estabelecida com Paolla Oliveira, que interpreta a policial Jeiza, com quem inicia uma improvável relação. “Jeiza surge para refrear o machismo dele e isso resulta em uma deliciosa história de gato e rato, em que preconceitos são desmascarados.”

Um sinal de mudança – ainda que vagarosa – nos hábitos arraigados na sociedade brasileira. Pigossi responde com cuidado quando questionado sobre o caso do ator José Mayer que, em abril, foi acusado de assédio por uma figurinista da Globo. Ele foi afastado por tempo indeterminado do trabalho na emissora. “Foi um momento grave, mas serviu para colocar a discussão do assédio na mesa”, comenta Pigossi, que desenvolve um curioso método de entendimento de seus personagens: no domingo, ele revê todos os capítulos da semana anterior, buscando uma compreensão mais completa e amarrada das situações que cercam Zeca. “Busco descobrir sua musicalidade.”

Pigossi quer saber onde está pisando, embora não abra mão de enfrentar o desconhecido. É o que acontece em O Nome da Morte, filme de Henrique Goldman baseado em livro de Klester Cavalcanti e que deve estrear no segundo semestre. Novamente, ele interpreta um homem que existiu – Júlio Santana é um homem devoto do cristianismo, caridoso, exemplar como filho e pai de família. Mas, para sobreviver ao cruel meio que o cerca, Santana é um pistoleiro, responsável por 492 assassinatos em 35 anos.

“Júlio é um desafio, pois foge de tudo que já fiz”, observa o ator. “Essa convivência com a morte é um convite para o estereótipo e foi justamente fugir dessa armadilha a minha decisão. Busquei mostrar que existe um complexo lado humano em um matador, que tem medo de ir para o inferno por causa de seus pecados.”

De fato, Júlio Santana enfrenta um conflito semelhante ao de Mr. White, personagem da série Breaking Bad: ambos são bons sujeitos que praticam atos abomináveis, mas evitam que isso afete sua vida. O matador de aluguel é a prova real da existência de impunidade no Brasil – ele foi preso apenas uma vez e acabou solto, depois de subornar o delegado.

“Fora da televisão, quero sempre me reinventar”, continua Pigossi, que aprendeu a praticar o impossível na arte, algo que o leve distante de seu dia a dia. É por causa de tal desprendimento que ele já tem outros quatro convites para o cinema. Ainda nem examinou nenhum para não atrapalhar seu trabalho como Zeca.

O palco, no entanto, continua como seu espaço preferido. “Sou louco para montar uma peça de Pirandello, especialmente Seis Personagens à Procura de um Autor e seu estudo metalinguístico do teatro”, conta ele, que ambiciona ainda participar de outro clássico, Morte de um Caixeiro Viajante, de Artur Miller, obra-prima do realismo mágico – aqui, já arrebanhou outro interessado, Marco Ricca. “A lista aumenta com meu fascínio por uma montagem que vi em Londres de Shakespeare Apaixonado, do Tom Stoppard. Gostaria de montar aqui.” O teatro, definitivamente, é sua escola de vida.

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