Victor Llorente/The New York Times)
Victor Llorente/The New York Times)

David Letterman volta com programa na Netflix em temporada que quase chegou ao fim

Apresentador e comediante de 73 anos fala da pandemia nos EUA e dos novos episódios com Kim Kardashian West e o ator Robert Downey Jr.

Dave Itzkoff / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 10h40

TARRYTOWN, NOVA YORK - Poucos dias após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, David Letterman sentou-se atrás de sua mesa no Late Show da CBS e compartilhou a história de um comício em Choteau, Montana, para arrecadar dinheiro para Nova York. Com a voz embargada, ele disse aos espectadores: “Se isso não disser tudo o que você precisa saber sobre o espírito dos Estados Unidos, não posso ajudá-los”.

Dezenove anos depois, com o país no meio de uma pandemia que dura há meses, Letterman achou difícil conjurar qualquer anedota inspiradora semelhante. Em uma manhã da semana passada, este veterano apresentador, locutor e comediante, agora com 73 anos, estava sentado em um parque, contemplando o rio Hudson e falando a respeito da ponte Governador Mario M. Cuomo. 

“Parece meio inacabado”, disse ele usando uma máscara de tecido que mal segurava sua barba rebelde. “Não parece que o estagiário recém-contratado foi o responsável pelo projeto?” 

Mas, verdade seja dita, Letterman estava mais melancólico do que alegre. Embora ele, a esposa, Regina, e o filho, Harry, tenham permanecido seguros, ele conhece várias pessoas que foram atingidas pelo novo coronavírus, algumas das quais morreram por causa dele. E ele está profundamente frustrado com o que acredita ter sido um esforço nacional inconsistente para informar as pessoas em relação à pandemia e mitigar sua disseminação.

Apesar do cenário devastador, o programa de entrevista da Netflix de Letterman, O próximo convidado dispensa apresentação, retorna na quarta-feira, após quase ter sido foi suspenso. Ele havia gravado dois episódios, com Kim Kardashian West e com Robert Downey Jr., antes da pandemia, e acreditava que a temporada - se não o programa - tinha chegado ao fim.

Em vez disso, ele foi capaz de produzir mais dois episódios, em circunstâncias substancialmente diferentes: um com Dave Chappelle, que foi gravado em um pavilhão ao ar livre em Yellow Springs, Ohio; e outro com Lizzo, no estúdio que ela tem em sua casa, em Los Angeles, sem nenhuma plateia.

Para Letterman, cada um desses episódios ofereceu a ele uma instrução adicional na evolução do entretenimento e insights mais profundos como entrevistador e observador da natureza humana. Mesmo assim, ele sentiu saudades do que chamou de "os dias despreocupados de disparate", quando podia "levar as pessoas a um teatro e conversar com elas por uma hora e, quando terminávamos, eu ia até o público e apertava as mãos , e todo mundo gostaria de me beijar com a língua."

“Não fazemos mais isso”, acrescentou.

Letterman falou mais sobre sua experiência com a pandemia, como foi fazer seu programa para a Netflix e o que ele espera que o futuro possa reservar para ele. Estes são trechos editados dessa conversa.

NYT: Como tem sido a pandemia para você? Como é isso para você agora?

DL: Como todo mundo, você se esquece disso. Seis, oito meses depois disso, você continua falando como se as coisas estivessem normais, e então, ah, não, não podemos fazer isso por causa da pandemia. No começo, foi mais do que terrível. O marido de uma mulher que trabalhou no (Late Show) morreu. Um professor da escola de Harry morreu. Paul Shaffer e sua esposa foram infectados. Cathy, sua esposa, foi hospitalizada. Barbara Gaines, que era produtora do programa, ela e sua esposa foram infectadas. E assim por diante.

NYT: Como você se sente ao entrar em contato com pessoas em outras partes do país que não parecem estar levando a pandemia tão a sério?

DL: Isso me deixa muito triste. Porque aprendemos uma lição que essas outras pessoas estão rejeitando. Eu estava conversando com um amigo meu e ele estava furioso com o prefeito de sua cidade por mantê-la fechada e disse: “Bem, aquele cara nunca será reeleito”. E eu apenas pensei, devo dizer a ele o que isso realmente pode ser? Estamos estimando um quarto de milhão de pessoas mortas em breve. Mas eu simplesmente não queria ter essa briga.

NYT: Depois dos ataques de 11 de setembro, você fez vários monólogos no 'Late Show' nos quais tentou reunir o que os espectadores estavam sentindo e pensando. Você já sentiu vontade de fazer algo semelhante agora?

DL: Algo aplicável a esses tempos? Eu gostaria de ter os meios para dizer algo significativo. Mas todas essas pessoas que estão resistindo à ideia da prevenção, apenas fico pensando: e as famílias das 220 mil pessoas que morreram? Eu me pergunto como elas estão se sentindo. Eu não entendo. Não tenho outra solução a não ser fazer o que é dito: cuide de você e de sua família.

NYT: Como a pandemia afetou seu trabalho no programa para a Netflix?

DL: Eu pensei que tudo estava acabado para sempre. Sério. No começo, realmente parecia que, Santo Deus, está chegando tão perto de nós, todos vamos morrer. As pessoas continuam me lembrando que, na minha idade, sou especialmente vulnerável. O que eu não gosto de jeito nenhum. "Pai, você sabe que está perto dos 100, é melhor não sair."

NYT: Como você decidiu continuar com a nova temporada?

DL: Tínhamos mais dois episódios (com Lizzo e Dave Chappelle) em pré-produção e estávamos ansiosos para fazer algo. Fizemos isso em um período muito curto de tempo e depois voltamos para casa. Naquele ponto, havia protocolos da empresa que cuidou da produção e da Netflix que tínhamos que seguir, felizmente, e conseguimos fazer isso bem.

NYT: Kim Kardashian West, que agora é uma convidada estimada em seu programa na Netflix, foi alvo frequente de piadas em seus dias de 'Late Show'.

DL: Oh, eu era o primeiro a querer fazer isso. Lembro-me de quando ela estava agendada para participar do programa e era como se eu não soubesse nada a respeito dela e nunca tinha visto seu programa. E então, quando conversamos com Kanye, eu pensei, oh, eu julguei mal esta mulher.

NYT: O que mudou sua opinião em relação a ela?

DL: Depois que nos encontramos com Kanye West (para a temporada anterior do programa na Netflix), tive uma longa conversa com ela na casa deles e comecei a pensar em como eu a usei como uma piada e a considerei como alguém que não deve ser levado a sério. Descobri que essa impressão não era definitiva. 

Ela tinha uma família. Ela tem seu programa de reforma prisional. Não vou comentar sobre a facilidade de ser casado com Kanye West. E se ela consegue manter um programa como seu reality show no ar por todos esses anos, é uma realização. Se você pode continuar no mundo da televisão por tanto tempo, parabéns.

NYT: Você foi a Yellow Springs, Ohio, para entrevistar Dave Chappelle. Você se apresentou no show de comédia dele ao ar livre lá?

DL: Sim. Eu acho que fiz isso. (Pergunta para seu assessor) Eu fiz isso? (O assessor responde: “Você fez.”) Disseram-me que fiz isso (risos). Foi maravilhoso. O cenário é único. É ao ar livre. Todos são testados, todos mantêm distanciamento social. Ele recebeu três ou quatro comediantes e cada uma acabou ainda mais comigo. Porque quando eu estava fazendo comédia, muito disso era algo como (debilmente) "Ei, de onde você é?" Mas esses homens e mulheres, uau - o nível disso, o intelecto disso, a apresentação é muito superior ao que era quando eu e meus amigos fazíamos coisas como "Ei, como vai, acabei de chegar de Indiana.” Sério? Ninguém se importa. Saia daqui.

NYT: Você criou algo novo para seu stand-up ou usou material antigo?

DL: Material antigo (risos). Sim, guardo o material do passado na arca do tesouro. Porque é tão valioso que não quero que outros se machuquem com isso. Não, foi algo bem sucedido pelo momento. Eu poderia ter dito: "Com licença, tenho que amarrar meu sapato" (imita o riso da plateia). Porque uma vez que Dave coloca seu selo de aprovação em alguém, não é tão difícil quanto você pensa que será. No começo, pensei, ah, meu Deus, isso não vai funcionar. E então, quando terminei, pensei, uau, isso é o máximo de diversão que terei durante todo o verão.

NYT: Você já tinha recebido Lizzo como convidada em seu 'Late Show' em 2014, antes da carreira dela realmente decolar. Essa é a razão de conversar com ela agora?

DL: (Profundamente sarcástico) Cronologicamente, você pode argumentar que sou a razão do sucesso dela. E eu acho que nós - eu acho que, dane-se todo mundo - eu a coloquei no mapa. E defendo essa ideia.

NYT: Por causa da pandemia, este episódio não tem plateia - são apenas vocês dois conversando no estúdio da casa dela. Isso fez você repensar como poderia trabalhar o programa daqui para frente?

DL: Foi bem mais relaxado, e acho que é por conta dela. Ela foi tão adorável, graciosa e agradável, e o que realmente me surpreendeu foi sua habilidade com a flauta. Sempre foi minha a ideia de que tínhamos de ter uma plateia, porque é assim que se cria o programa - o timing é dado pelo público. Mas daqui para frente, a exigência da plateia não é essencial. Ficaria interessado em ver se funciona com outras pessoas além de Lizzo.

NYT: Você acha que a televisão da madrugada, um gênero que você ajudou a criar, tem sido enfraquecido nos últimos anos -  tanto que se tornou uma comédia política que realmente parece não ter impacto algum e deixa de fora todo o resto?

DL: Eu sei que as pessoas têm tido um enorme sucesso com isso. Stephen (Colbert) fez um ótimo trabalho com meu antigo programa - seu programa agora. Na minha época, o objetivo era qualquer coisa para fazer o público rir. Isso pode fazer parte da dinâmica agora. As pessoas têm essa fome de ver o atual governo sendo agredido e se envergonhando. Então, acho que é isso que (programas da madrugada) tinham em mente. Eu não os culpo por isso. Depois de um tempo, isso se desgasta, mas o apetite por isso não diminuiu. Acho que ainda fazem isso o suficiente para manter as pessoas felizes.

NYT: Você já se pegou temendo pelo futuro dos Estados Unidos?

DL: Sem dúvida, até bem pouco tempo. E agora estou confiante - ou mais confiante do que estive nos últimos quatro anos - de que mudaremos de presidente em algumas semanas. E será uma grande vitória. Não apenas por nossa cultura e nosso governo, mas o simples ato de votar terá sido a razão para que o resto do nosso país seja recomposto e, de muitas maneiras, salvo do que parece ser uma tirania, certamente, de uma ameaça. Acho que será uma grande vitória em muitas frentes, e não menos importante dentre todas elas é chamar a atenção para a valiosa liberdade de votar.

NYT: Não confunda isso com uma sugestão, mas você já pensou em levar o programa para uma emissora de televisão?

DL: Em primeiro lugar, você não pode ferir meus sentimentos porque estou morto por dentro. Mas o pessoal da Netflix me trouxe de volta à ativa de uma forma que foi, para mim, muito, muito divertida. Por outro lado, reconheço minha própria vida útil. Estou muito ultrapassado. Quando isso acontece, ainda desfruto de pequenas coisas aqui e ali, e isso é o suficiente. Mas há outras pessoas mais competentes. Não tenho nenhum problema com isso. Se houver algum tipo de plano, será quando meu filho terminar o ensino médio. Mas se for amanhã, tudo bem.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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