Da procissão ao Sambódromo

Mineiro gosta é de Semana Santa, mas esse já tem todas as pistas da maratona carnavalesca

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2009 | 02h55

"Vamo nessa, com as bênção de Deus e Nossa Senhora, alô comunidade; aí, Chico Pinheiro, nós vamo passá!". A reverência ao jornalista já é fava contada no grito de guerra dos puxadores das escolas de samba no Anhembi. Mineiro infiltrado pela Globo no samba paulista, o âncora das transmissões dos desfiles de São Paulo acaba de cumprir sua sexta maratona de Sambódromo. E a rotina pede disciplina germânica: são 10 horas de transmissão ininterruptas, em pleno horário de sono, sem chance de bocejar e nas madrugadas de maior audiência do ano. Conta aí, Chico, como funciona esse trem:SÓ MUDA O ANDAMENTO"Nunca (tinha frequentado quadra de escola de samba até transmitir os desfiles). Sou mineiro, mineiro gosta de Semana Santa, não gosta de carnaval. A gente vai em procissão, a gente não vai em desfile, que é mais ou menos a mesma coisa: só muda a música, a letra da música e o andamento."NA QUADRA"Desde o primeiro carnaval que transmiti, visito todos os barracões, um mês antes do desfile. Fico duas, três horas com o carnavalesco, ele conta a história do enredo, pegamos a letra do samba-enredo e ele faz um desfile narrado: ?vou abrir com a comissão de frente, com tantas pessoas, ensaiadas por coreógrafo fulano de tal, a fantasia é essa, usando tal material, inspirada nisso...? Ele mostra os desenhos e vou anotando tudo. Aí vejo a fantasia, o carro abre-alas, converso com as pessoas que estão montando o carro, elas explicam como são montadas as luzes, os detalhes, quem vai em cima, e eu vou anotando."FAZ UMA FOTO?"De três anos pra cá, comecei a me agendar pra ir à noite às quadras. Vou, brinco, converso com eles, vou no meio da bateria... E com esse negócio de celular que tira foto, sem brincadeira, não se dá um passo sem que alguém peça: ?deixa eu fazer uma foto??." DOSSIÊ CARNAVAL"Todo ano, de outubro a novembro, o núcleo de carnaval da Globo já levanta uma pesquisa e, no carnaval, entrega pra cada um de nós um book de cada escola. Tudo o que eu fiz eles fazem também. Ali no book tem os bonequinhos com fantasias e onde estão posicionados em cada ala. Mas não consigo usar na transmissão mais do que um terço das informações que apuro. Porque a exibição tem a sua dinâmica e não dá tempo."AO VIVO, OU NEM TANTO"Fico naquela bolha e vejo a avenida toda. Eu tô no melhor lugar do Sambódromo e não posso narrar o carnaval olhando o que está passando na avenida. Narro o que está no meu monitor. Imagina: são 18 câmeras transmitindo, uma num carro, outra no plano geral, outra, no Globocop, outra percorrendo a avenida, outra na bateria; o diretor tem 18 telinhas e escolhe uma. A bolha também é quase impermeável ao som local. O som da rua me chega por fone de ouvido."FUSO JAPONÊS"Começo a semana acordando mais tarde; de quarta pra quinta e de quinta pra sexta, praticamente passo a noite acordado. De quinta pra sexta, durmo às 7 da manhã e acordo às 6 da tarde. Tem que virar o fuso, como se estivesse no Japão."SAMBA NO PÉ"Às vezes, lá pras 5 da manhã, alguém fala: ?dá gás nisso?, porque, com o cansaço, há uma tendência de a voz ir caindo. Tem gente que acorda pra ver só determinada escola, e eles gravam o desfile pra mostrar depois para a comunidade, não podem achar que houve mais animação com esta ou aquela escola. De três anos pra cá, fico em pé quase o tempo todo. Narro com um olho no monitor e outro na avenida, microfone de lapela, retorno no ouvido, e fico sambando."FURANDO A FILA DO XIXI"Pra fazer xixi tem que aguardar o intervalo entre uma escola e outra e correr. Ainda tem escada pra descer e tem fila. Eu vou falando: ?dá licença, que eu tô narrando?."

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