Paulo Belote/Globo
Paulo Belote/Globo

'D. Pedro II foi uma mente brilhante', diz Selton Mello, protagonista de 'Nos Tempos do Imperador'

Selton Mello volta às novelas depois de mais de 20 anos no papel de D. Pedro II

Entrevista com

Selton Mello

Eliana Silva de Souza, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

Depois de ter sua estreia suspensa por mais de um ano, reflexo da pandemia, a novela de época Nos Tempos do Imperador enfim vai cumprir seu destino. A trama escrita e criada por Alessandro Marson e Thecom de Vinícius Coimbra, estreia nesta segunda, 9, ocupando o horário das 6, da Globo.

Essa é a mesma dupla de autores responsável por Novo Mundo (2017), e que pode ser vista como a primeira parte dessa narrativa histórica, com foco em D. Pedro I, vivido por Caio Castro, e Dona Leopoldina, que ganhou a força de Letícia Colin. Agora, o foco será o imperador Pedro II, interpretado por Selton Mello, e da imperatriz Teresa Cristina, que ficou sob a guarda de Letícia Sabatella.

Há mais de 20 anos distante das novelas, o ator e diretor Selton Mello retorna ao gênero no papel de D. Pedro II, monarca que conquistou o povo brasileiro e trabalhou para colocar o País na rota do desenvolvimento. Em entrevista por e-mail, Selton falou sobre viver o monarca brasileiro, da volta às gravações e lembra com carinho de Chicó, um de seus mais emblemáticos personagens, do filme O Auto da Compadecida.

Que tipo de homem foi D. Pedro II: era à frente do seu tempo, tinha realmente o País como centro de suas ações?

Sim, era um governante que pensava no povo, no progresso. Entre tantas outras coisas, quando ele viajava, procurava pegar as invenções mais modernas e trazer para o Brasil. Um exemplo disso foi o telefone. Também o daguerreótipo – ele era vidrado em fotografia e, dizem os historiadores, que ele pode ser considerado o primeiro fotógrafo amador do Brasil, porque trouxe a traquitana e ficava vidrado com aquilo, fotografando a família, tentando se autofotografar. E sempre apoiando a educação, as artes, a ciência, na maior parte do tempo usando recursos financeiros próprios. Realmente é uma história fascinante. Dom Pedro II falava várias línguas, traduzia do original, em árabe, livros gigantescos. Era, realmente, uma mente brilhante.

Algum dos feitos de D. Pedro II te deixou mais surpreso?

Não teve um, mas uma soma de muitos atributos, de muitas coisas que ele conseguiu imprimir e que ficaram. São muitos legados importantes até hoje: a preocupação com a educação, de que só através dela um país cresce. Tudo isso é muito bonito de ler e entender. Ao mesmo tempo, é uma responsabilidade enorme dar vida a esse personagem tão emblemático. O que alivia um pouco o peso é o fato de não ter tido, no audiovisual, um outro ator que tenha feito Dom Pedro II em algo desse tamanho. Dom Pedro I é muito retratado, mas Dom Pedro II, menos. Isso foi interessante e fica um registro de Dom Pedro II, durante um bom tempo, com a minha impressão. Isso é muito bonito.

O personagem influenciou o seu retorno às novelas?

Completamente. Tive alguns convites ao longo desses 21 anos, mas eu sempre estava envolvido em cinema, teatro – cinema foi o que mais fiz esse tempo todo. Em alguns momentos até quase deu, mas aí esbarrava em agenda, tipo “em maio tenho que fazer esse filme”, então não cabia. Novela é uma obra longa. Mas agora surgiu esse personagem que fiquei muito curioso em tentar desvendá-lo. As próprias biografias não conseguiram traduzi-lo completamente e nem eu conseguirei. Daremos uma impressão do Dom Pedro II e isso é muito estimulante. Um personagem que tem tantos elementos, mas também tem muitas lacunas. Me interessam essas entrelinhas, o homem por trás da coroa, seus dilemas pessoais. É muito interessante essa viagem, essa aventura emocional.

Como se preparou para viver D. Pedro II? Leu muito?

Li muito, livros variados, de várias correntes e pensamentos. Eu acho que é preciso ler tudo o que é possível, e até chegar o momento em que você tem de colocar de lado tudo isso e ir para o palco, tentar fazer uma expressão da impressão que eu tive. Colocando ali minha sensibilidade, o que senti e percebi nesses livros todos, da melhor maneira possível. E muita coisa eu não lembrava, porque a gente estudou na escola, mas tem muita coisa que não fica gravada tão fortemente. Agora, fica um mergulho muito mais consciente e profundo.

Alguma semelhança sobre a infância de D. Pedro II e a sua, que exigiram responsabilidades com tão pouca idade?

Adorei essa pergunta, porque isso foi um dos pontos que me pegou. Eu compreendi aquele menino. Ao contrário dele, eu sempre tive pais muito amorosos e presentes, até hoje, então já muda completamente. No caso dele, a mãe morreu, o pai foi embora, e ele foi criado por tutores. Mas essa coisa da responsabilidade logo na infância, eu tinha isso como ator, cuidando da minha vida apenas e da minha família. Agora imagina ele, tão jovem, com o peso de uma nação nas costas. Um homem que foi criado dentro de padrões muito rígidos, para não repetir os erros do pai, para tentar ser melhor. E, ao juntar as qualidades da mãe e do pai, tentou ser melhor.

Como foi voltar a gravar com a pandemia ainda presente?

A novela começou a ser gravada antes da pandemia e conseguimos fazer um bom bloco. Aí veio a pandemia, tudo parou. Nesse hiato, surgiu a ideia de fazer Sessão de Terapia 5, uma série que, a gente brinca, nasceu protocolar: duas pessoas, com distanciamento, sozinhas, dentro de um ambiente apenas, falando. Cabia muito bem. Então, na verdade, eu experimentei os protocolos, descobri como era trabalhar na pandemia, no Sessão 5. Ali eu já estava entendendo como era: bota máscara, tira máscara, faceshield na equipe, álcool, protocolos, muitos cuidados que a Globo sempre teve e continua tendo. Então, quando voltei para a novela, já tinha um pouco da experiência. Estava curioso para saber como seria na novela, com muito mais gente, outras situações, externas, coisas que o Sessão 5 não tinha. Mas tudo com muito cuidado, muito bem pensado para fazer acontecer com segurança para todos. 

Existe um personagem que tenha te marcado mais que Chicó, de forma positiva?

Completamente positiva! Chicó é quase um anjinho da guarda. Um personagem feito em 1998, há muito tempo, e que até hoje eu não dou um passo, em qualquer lugar do Brasil, sem que as pessoas lembrem com carinho do Chicó. Para marcar uma comemoração, a Globo remasterizou, refez os efeitos especiais, remixou o som e relançou O Auto da Compadecida em 2020. Foi impressionante, porque uma nova geração viu aquilo como se fosse uma novidade, vendo-o pela primeira vez. Nasceu ali mais uma geração gigantesca de fãs de O Auto. E isso mostra a força da arte; a força do Ariano Suassuna e de sua obra, de como ele criou esses personagens; a força do Guel Arraes, que estava em estado de graça quando escalou aquelas pessoas, dirigiu daquela forma e fez aquele trabalho daquele jeito visionário. É uma bênção na vida ter feito O Auto da Compadecida. Chicó é eterno. E é muito lindo isso!

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