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Crítica: Série 'Freud' é uma ficção histórica

Quem for assistir à minissérie esperando encontrar uma telebiografia convencional do pai da psicanálise vai se decepcionar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2020 | 05h00

Quem for assistir à minissérie Freud esperando encontrar uma telebiografia convencional do pai da psicanálise, vai se decepcionar. A série ajusta-se mais ao gênero heterodoxo da ficção histórica. Parte de personagens e situações reais e inventa o resto. A história concentra-se nos anos iniciais da prática médica de Sigmund Freud (1856-1939), em Viena. Tendo estudado em Paris, com Charcot, Freud volta para casa dominando a técnica da hipnose e interessado em distúrbios psíquicos, em especial a histeria, o grande enigma da época. 

Torna-se amigo do também médico e escritor Arthur Schnitzler (o que também é verdade) e começa a frequentar os salões vienenses, onde conhece muita gente interessante. Em especial, a fulminante médium Fleur Salomé (Ella Rumpf). A inspiração óbvia para esta personagem feminina é a musa da psicanálise, a russa Lou Andreas-Salomé (1861-1937), de inteligência e beleza selvagens e que virou a cabeça do círculo masculino da época, de Freud a Jung, incluindo Nietzsche.

Mas o resto é inventado ao jogar no colo do jovem Freud o mistério de um serial killer que aterroriza Viena. O ano é 1886 e Freud (Robert Finster) é mostrado como um jovem talento em dificuldades porque ninguém na instituição médica o leva a sério. Tem convicção de suas ideias, porém se sente solitário numa época de predominância rígida do método científico, que tende a tachar de superstição tudo que não pode ser visto, tocado e cheirado num laboratório. 

Vamos vê-lo fazendo experiências com a cocaína e adotando-a para uso próprio. Recomenda a droga a todo mundo, inclusive à sua noiva, Martha Bernays (Mercedes Müller), com quem acabaria se casando. Freud escreveu uma monografia, Über Coca, prescrevendo o produto como analgésico e também excelente estimulante em casos de fadiga mental.

A história se desenvolve nessa atmosfera frenética e mágica da Viena do final do século 19. Ambiente de grande agito cultural, com ciência, ousadia estética, filosofia do mais alto nível e bruxaria convivendo alegremente. Era também um tempo de grande instabilidade política. 

Um dos acertos da série é captar algo dessa época inusual, no qual o espírito humano vai fundo na busca do conhecimento, leva ao limite a criatividade artística e dança à beira do abismo. Para quem gosta de ler, há duas obras indispensáveis: Viena Fin-de-Siècle, de Carl E. Schorske, e O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig. Outro mérito da série é ser falada em alemão, idioma original dos personagens, sem o qual tudo soaria muito artificial. 

Uma série com esses elementos corria o risco de se tornar intelectual demais. De modo que Marvin Kren houve por bem diluir a coisa em solventes como a história do serial killer, da médium erótica e de uma conspiração política com ares de magia negra. Nada contra, mas não precisava exagerar e levar a trama ao reino do implausível e mesmo do trash em determinados momentos. Desse modo, o coquetel acaba meio desequilibrado. 

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