Crítica: Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, uma relação tão delicada em 'Amor e Sorte'

Crítica: Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, uma relação tão delicada em 'Amor e Sorte'

O episódio de estreia da série, protagonizado pelas duas atrizes e exibido na terça, 8, foi tão emocionante que essa história deveria ganhar uma série própria

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 14h11

Nova produção da quarentena da Globo, a série Amor e Sorte estreou na terça-feira, 8, com o episódio Gilda e Lúcia, protagonizado por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real. Inicialmente foi divulgada que essa história seria contada no último episódio, mas ela acabou inaugurando o seriado na emissora. A mudança no cronograma foi acertada: Amor e Sorte iniciou sua trajétoria de quatro episódios, cada qual estrelado por atores diferentes, com a força da interpretação das Fernandas, sobretudo da Montenegro. A atriz de 90 anos é gigante em qualquer papel: não só no drama, mas também quando o texto flerta com o humor. É o caso de sua personagem Gilda.

Fernanda Montenegro vive a mãe aposentada que é levada à força para o isolamento pela filha, Lúcia, personagem de Fernanda Torres, depois de ser encontrada tomando caipirinha na praia em meio à aglomeração. Lúcia a leva para a região serrana do Rio, mas precisa ouvir no caminho os lamentos de uma mãe contrariada, que é independente quando leva uma vida “normal”. Só que essa vida não se encaixa mais no “novo normal”. Lúcia quer proteger a mãe contra o coronavírus, mas Gilda não quer interferências em sua rotina. A pandemia veio para bagunçar tudo e inverter os papéis de mãe e filha, de quem cuida e de quem é cuidada. 

Lúcia se assusta ao descobrir que a mãe voltou a fumar. Na verdade, ela talvez nunca tenha parado. Mas o dia a dia atribulado da filha executiva, que mora em São Paulo, impede que ela conheça os hábitos da mãe. A rotina sob o mesmo teto expõe as diferenças entre as duas: a forma de pensar, de sentir, de comer e até divergências ideológicas. Pelo bem-estar de sua empresa, Lúcia precisa fazer demissões a distância. Gilda não concorda com aquilo. 

O embate entre a focada Lúcia, cria do mercado financeiro, e a debochada Gilda, e seu estilo meio hippie, rende momentos (e diálogos) divertidos. No entanto, a aproximação compulsória entre mãe e filha reconecta a relação delas em sua essência. Gilda não quer que a filha descubra que a vacina contra o coronavírus já saiu e, consequentemente, que as duas retomem o “antigo normal” no relacionamento delas. Por isso, destrói antenas e o que mais possa ligar a filha com o mundo exterior. Ela quer adiar a notícia. Soa legítimo. 

Criada por Jorge Furtado, a série, além de mirar nos atores que estão em isolamento juntos, parece apostar também na intimidade que as duplas protagonistas têm na vida real, para transportar isso para a ficção. E a cumplicidade que Fernanda Montenegro e Fernanda Torres demonstram em cena é comovente. No olhar, nos gestos, no amor, mesmo estando as duas no campo ficcional. Há outros elementos que certamente contribuíram para o clima afetivo, íntimo que marcou esse episódio: a gravação foi feita in loco – e não remotamente, como os outros episódios – no sítio da família, com direção de Andrucha Waddington, marido de Fernanda Torres, e a participação dos filhos do casal nos bastidores: na produção, na assistência de direção, entre outras funções. Afinal, não havia equipe de fora para isso. 

Os três outros episódios, independentes, também tratam de relacionamentos colocados à prova no confinamento: Linha de Raciocínio, com Lázaro Ramos e Taís Araujo; Territórios, com Fabiula Nascimento e Emilio Dantas; e A Beleza Salvará o Mundo, com Caio Blat e Luisa Arraes

Mas a história de Gilda e Lúcia parece ter acabado tão rápido que deu vontade de ver mais episódios da dupla. E, quem sabe, uma série só delas.

 

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