Crise de Identidade

Primeira isca para fisgar a audiência, os títulos de novelas nem sempre vão ao ar como nasceram

Keila Jimenez, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 21h21

Que falta faz uma vilã psicótica como a de Juízo Final. Mas emocionante para valer foi o final de Bumba-Meu-Boi... Ah, boa mesmo é Dinastia, trama que volta ao ar no Vale a Pena Ver de Novo, da Globo, na próxima semana.   O.k., a sensação de déjà vu existe, mas você não se lembra de ter assistido a nenhuma dessas novelas. Viu sim, mas não com esses nomes. A Favorita, Renascer e Senhora do Destino, respectivamente, estão entre os folhetins que tiveram seus títulos trocados pouco antes da estreia.   Embora mais simples e corriqueiro que a troca do nome de uma pessoa, o rebatismo de uma trama sempre gera controvérsias.   Até porque criar um título atraente, comercial, com identificação com o enredo e sem impedimento judicial não é uma equação fácil.   "Se eu disser que é simples escolher um título, estarei mentindo. Nem sempre funciona, às vezes a gente odeia ao vê-lo impresso ou sendo pronunciado", conta Aguinaldo Silva. "Na época do Boni (ex-chefão da Globo, considerado pelo autores "expert em títulos") a palavra final era dele. Agora a tendência é aceitar o título original do autor".   Não há regras para a nomeação de novelas, mas alguns ingredientes sempre ajudam. "Não pode ser longo, tem de ser fácil de memorizar e sonoro", fala Walcyr Carrasco. "Não pode conter nome próprio", decreta Aguinaldo Silva. "Nome próprio pode ter sim, mas acho que bons títulos devem ter a letra ‘A’, porque abre o som da palavra", pitaca Lauro César Muniz.   Mas o que vem primeiro: o título ou a trama? Depende. Há enredos que partem só de um nome. "O Daniel Filho um dia me disse que Sassaricando daria um ótimo título de novela. Aí criei uma história inteira em cima da palavra", conta Silvio de Abreu.   Uma coisa é certa, emissora e autor têm de entrar em consenso - o que nem sempre acontece pacificamente.   "Às vezes fico desgostoso quando meu título é substituído", conta Lauro César Muniz, o mais recente autor a ter um filho rebatizado. Sua anunciada Vendetta, que estreia em março na Record, virou Poder Paralelo, fruto de concurso interno na emissora. "A Record considerou que, por vendetta (vingança) ser uma palavra estrangeira, seria de difícil aceitação", conta.   Desconto seja dado: autores sentem-se às vezes como mães que acabaram de parir, enquanto os pais (executivos das TVs), saem para registrar o tão sonhado pimpolho. Na volta, o lindo e esperado Pedro Paulo Augusto vira Gumercindo, em homenagem ao avô que nem vivo está, ou Lindoberto, união de Lindalva, a mãe, e Roberto , o pai.   "Vale Tudo, minha e de Gilberto Braga, a certa altura esteve sob a ameaça de se chamar Bufunfa. Imagine!", conta Aguinaldo Silva. "Já Resplendor, virou Fera Ferida, cruzes!" E o risco continua: Vende-se um Véu de Noiva, excelente título de Janete Clair, pode virar Ilha Mágica na adaptação em andamento no SBT.   Mas mudanças também podem ser para melhor. Baila Comigo, de Manoel Carlos, nasceu como Quadrilha e por intervenção de Boni, que queria aproveitar a música de Rita Lee na abertura, teve seu nome trocado. Coração Alado escapou de ser Vernissage, Estúpido Cupido era originalmente Parece que Foi Ontem, e Tititi, veja bem, seria Troca-Troca. Ufa!   IDENTIDADE FALSA   Assim que ganha vida na Globo, toda sinopse leva um título provisório, que pode ou não ficar de vez. Além de servir de teste, o batismo original dribla engraçadinhos de plantão que correm para registrar o nome antes da emissora.   "Esses caras são ladrões, registram um título e depois tentam vendê-lo ao seu criador", ataca Silvio de Abreu. Foi assim com Dinastia, que virou, aos 47 do segundo tempo, Senhora do Destino.   A prática gerou precaução. "Quando tenho um título que quero usar, mesmo em um futuro remoto, peço para a Globo registrar. Mulheres Apaixonadas (2003) foi registrada antes de Laços de Família (2000)", conta Manoel Carlos.   "Para evitar essa prática deletéria, minha próxima novela vai se chamar, até às vésperas da estreia: A Novela Sem Nome", avisa Aguinaldo Silva. E não é que é um bom nome?   TROPIKANKA?   Executivos do SBT se divertem com a história de que Silvio Santos sugeria mudanças de títulos até nos filmes que iam ao ar no SBT. O lendário Ben-Hur quase virou O Charreteiro do Rei. Com as novelas da Globo, o processo acontece às avessas. As trocas, nem sempre engraçadas, servem para adequar as tramas ao gosto do comprador internacional. A Muralha tornou-se A Conquista nos EUA. Já Pedra sobre Pedra foi batizada de Te Odeio Meu Amor e Pecado Rasgado virou Chegue mais Perto no mercado hispânico. Roda de Fogo tornou-se Potere (Poder) na Itália e Cidadão Brasileiro, Scar (Cicatrizes) nos EUA. Esperança virou Terra Nostra 2 lá fora, apesar de a Globo insistir que a novela não era continuação da outra. Sem tradução em russo, Tropicaliente teve seu nome alterado para Tropikanka, também sem sentido, mas com sonoridade. Empolgados com o sucesso, os russos batizaram Mulheres de Areia de Tropikanka 2. O que elas têm em comum além de praias nordestinas? A Rússia não sabe até hoje.  

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