Coordenador do AfroReggae cria projetos de TV a partir de convivência com crime

Coordenador do AfroReggae cria projetos de TV a partir de convivência com crime

José Junior debate violência contra policiais na sétima temporada do 'Conexões Urbanas'

João Fernando, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2014 | 03h00

 Em meio aos deleites das atrações de viagem e séries de humor do Multishow, surgem, pelo menos duas vezes ao ano, debates sobre violência, drogas e outras questões da sociedade. A partir de domingo, 23, às 23h30, o Conexões Urbanas volta em sua sétima temporada para falar sobre policiais feridos em conflitos, projetos sociais e outros temas que fogem à regra do canal.

O episódio de estreia, batizado de O Que Sobrou do Céu, põe em xeque o que acontece com agentes da Polícia Militar gravemente atingidos em operações com consequências graves. “Quando um policial é morto na rua, não reverbera”, defende o apresentador José Junior, 

Figura central do Conexões Urbanas, ele afirma não ser pró-polícia. “Não tenho a preocupação de mostrar os dois lados, pois não sou jornalista. Na primeira temporada, mostramos a violência policial e a polícia ficou p... comigo. Quero mostrar que a polícia do Rio é a que mais mata e a que mais morre. Claro que o crime mata mais. Mas qual ONG denuncia a violência do tráfico?”, indaga Junior, coordenador da ONG AfroReggae, que faz inclusão social por meio da arte e da cultura.


Por causa de sua ousadia, o apresentador recebeu ameaças de morte, o que o faz circular sempre acompanhado de agentes da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais, unidade especial da Polícia Civil) fortemente armados. Um dos policiais de sua equipe foi baleado ao ser confundido com um bandido quando não estava de farda. O fato reforçou sua vontade de mostrar o outro lado da violência. “O caso só teve visibilidade porque ele era meu segurança.”

Para o programa, ele conversou com autoridades como o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, além de policiais que tiveram a vida transformada após serem feridos em serviço. “Alguns deles não queriam dar entrevista”, relembra. A temporada, entretanto, não fica restrita à violência nem à capital fluminense. Um dos episódios vai tratar da cultura urbana de SP. “Há uma coisa com o rock, tatuagens até saraus de literatura. Há uma pluralidade cultural em São Paulo. É difícil para um carioca reconhecer”, admite.

Futuro. A convivência com o crime fez José Junior ter uma visão criativa sobre o universo do tráfico. Entre os planos dos próximos projetos está o documentário de nome provisório Narcocultura. “É sobre o aspecto musical, econômico e da moda. Quero contar a história de como o tráfico influenciou o trabalho lítico e até as novelas, por exemplo”, adianta. Segundo ele, elementos do dia a dia de bandidos já estiveram presentes na vida de quem não tem relação com esse universo. 

“Em programas como o da Xuxa, cantavam o funk cujo refrão era ‘Tá tudo dominado’. Ela não sabia que isso era o hino de uma facção criminosa”, aponta. O longa incluirá ainda outros países. “No México há os narcocorridos, é um tipo de repentistas que compõe letras sobre ações do tráfico”, conta. As composições em questão foram incorporadas em canções de hip-hop que fazem sucesso nos Estados Unidos.

Entre os itens no planejamento do AfroReggae, que além do trabalho de ONG tem um núcleo audiovisual, está outro filme sobre homens que foram chefes do tráfico e abandonaram a função. “Tenho acesso a 40 histórias. Quero fazer um misto de documentário, com depoimentos e ficção”, disse ao Estado por telefone.José Junior também desenvolve Redenção, em que pretende registrar o momento em que os integrantes da ONG abordam jovens aliciados pelo tráfico em locais como bocas de fumo. “Vamos acompanhar até o momento em que eles puderem mostrar o rosto.”

Em 2015, ele vai retomar o Caminho de Abraão, programa em que percorrerá a pé países do Oriente Médio para reproduzir o trajeto do personagem bíblico. O projeto havia sido adiado porque Junior teve necrose na cabeça do fêmur, o que o impediu de fazer esforço físico. Ele também prepara sua biografia em vídeo e em papel. “Sempre me pediram. É melhor fazer agora do que quando estiver morto.” 

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