Colby Katz/The New York Times
Colby Katz/The New York Times

Conto que salvou carreira de George R.R. Martin vai virar série

Autor de 'Game of Thrones' fala sobre 'Nightflyers', e diz que não seria escritor hoje se não fosse esse conto

Jennifer Vineyard, The New York Times

22 de dezembro de 2018 | 03h00

George R.R. Martin ficou surpreso ao saber que seu conto Nightflyers, de 1980, se tornaria uma série de televisão do SyFy – principalmente porque ignorava ter vendido os direitos para a TV. Quando ouviu que o programa já estava sendo feito, sua primeira reação foi de choque e ultraje. “Como podem fazer uma série de TV? Não vendi nenhum direito!” Mas, ao ler as letras miúdas do contrato de venda para o cinema que assinou em 1984 (resultando em uma mal recebida adaptação de 1987), constatou que os direitos para TV estavam incluídos.

Na história original, uma equipe de cientistas vagando numa espaçonave assombrada tenta manter contato com uma misteriosa raça alienígena. Fiéis à propensão de Martin de ir exterminando personagens, sete dos oito cientistas morrem em rápida sucessão. “Pensei: Quem vai acompanhar quatro temporadas de uma espaçonave cheia de cadáveres?”

Assim, foram feitas adaptações para a série, programada para estrear neste domingo no Syfy. A maioria das mudanças foi decidida sem a colaboração de Martin, devido a seu contrato de exclusividade com a HBO. Mas ele palpitou, inclusive sobre uma antiga escolha de elenco que sempre lamentou. 

Numa entrevista telefônica, Martin falou sobre como o amplamente detestado filme de Nightflyers salvou sua carreira. Compartilhou também alguns detalhes sobre a série sucessora de Game of Thrones, que ele ainda chama de The Long Night, apesar de a HBO tê-lo proibido. 

A personagem Melantha Jhirl é negra no conto, mas numa das capas e no filme de 1987 ela era branca. Como você viu na época esse branqueamento e como vê agora o papel sendo dado à atriz negra Jodie Turner-Smith?

Achei a decisão gratificante, depois do que aconteceu nos anos 1980. A personagem principal que criei era negra – de fato, o nome Melantha significa “flor negra”. Quando a história foi publicada pela primeira vez, na revista Analog, eles puseram uma espaçonave na capa. Alguns anos depois, a história foi publicada novamente numa antologia. Para minha surpresa e choque, a personagem era uma mulher branca! Liguei para o editor: “Está errado. Ela é descrita explicitamente como negra”. E ele respondeu: “Se puséssemos uma negra, não venderia”. Para minha vergonha e pesar, cedi. E, quando a história virou filme, puseram uma atriz branca no papel, não sei se pela mesma razão. Isso sempre me incomodou e ainda penso se não deveria ter sido mais duro. Hoje sou mais famoso e tenho mais poder, mas na época era só mais um escritor lutando para sobreviver. Assim, quando soube que estavam fazendo uma série de TV, eu disse: “Vamos escalar uma atriz negra.” Jodie Turner-Smith está maravilhosa no papel. 

Quando ‘Nightflyers’ virou filme, você não estava pensando em parar de escrever? Foi também quando saiu ‘Armageddon Rag’, seu maior fracasso comercial.

Sim, meu quarto romance. Embora tenha sido bem recebido pela crítica, ninguém comprou. De repente toda minha carreira parecia em perigo. Eu havia comprado uma nova casa esperando que Armgeddon Rag fizesse sucesso. Tive de fazer uma segunda hipoteca. Estava estourando meus cartões de crédito. Entrei num curso de corretor. Fui salvo quando Nightflyers, inesperadamente, foi aprovado. Tudo que escrevi a partir daí se deve em boa parte ao filme. Se não fosse ele, eu estaria mostrando casas para clientes em Santa Fé.

Um dos aspectos do conto é a atitude liberal sobre sexo como atividade recreacional, ‘sexing’, como dizem os personagens.

Escrevi sobre sexing após a revolução sexual e os hippies. Acho uma atitude saudável e espero que prevaleça no futuro. Foi sem dúvida minha intenção mostrar como o sexo pode ser mais casual. Espero que no futuro as pessoas digam “fiz sexo com Bill” com a mesma naturalidade com que diriam “jantei com Bill”. Hoje, se a mulher de Fred jantar com Bill, Fred não liga. Mas disser que fez sexo com Bill, é divórcio e todo aquele trauma. Por quê? Não sei. É parte de nossa criação religiosa, um legado de séculos. Mas daqui a 400 anos, época em que Nightflyers foi ambientado, a atitude em relação a isso certamente será outra.

Como vai indo o piloto da série sucessora de ‘Game of Thrones’?

Eu chamo de The Long Night. A HBO me disse para não chamá-la assim, pois não é o nome oficial. Mas ainda penso nela como The Long Night. Jane Goldman escreveu o roteiro e eles estão engrenando a pré-produção. Naomi Watts foi escalada, o que é muito animador.

Em que a visão de Jane Goldman difere de seu conceito original, com a Era dos Heróis e a chegada dos Caminhantes Brancos?

Bem, ela tinha que acrescentar algo. Se você olhar os livros publicados até agora, há na verdade pouquíssimo material sobre isso – uma frase aqui, outra ali. A Velha Ama conta uma história que ocupa um parágrafo. Assim, Jane teve de criar os personagens, as ambientações e alguns eventos. E nós tivemos de examinar tudo e dizer “Ok, isto é o que foi dito em tal ponto, e precisamos deixar o roteiro coerente”. Discutimos juntos algumas ideias e fiz algumas sugestões. Mas foi principalmente trabalho de Jane. A história é ambientada mil anos antes de Game of Thrones. Porto Real não existia. Nem o Trono de Ferro. E não havia dragões. / Tradução de Roberto Muniz

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.