Sergei Bachlakov/NBC
Sergei Bachlakov/NBC

Como uma cirurgia no braço transformou a atriz Mary Steenburgen em compositora

Ela está no elenco da série 'Zoey’s Extraordinary Playlist', que conta uma história muito parecida com a dela

Sonia Rao, The Washington Post

02 de março de 2020 | 06h00

Há pouco mais de uma década, Mary Steenburgen despertou de uma pequena cirurgia no braço e começou a ouvir música – por toda parte. Cada placa de rua que via, cada frase que ouvia, era como se fosse um “furacão musical”. Palavras e melodias giravam em sua cabeça. Ela ficou aterrorizada.

“A melhor maneira de descrever essa sensação é que você tem a sua ideia do que é um som para você, tem em mente o que ele é”, disse a atriz vencedora de um Oscar ao The Washington Post. “E, de repente, já não é mais assim. A concentração em qualquer coisa fica muito difícil”, continuou.

Mary necessitava encontrar uma maneira de retornar à normalidade, e finalmente descobriu – e isso a levou a uma nova realidade como compositora. Mas começar como uma estreante aos 54 anos de idade foi “muito duro para o ego”, segundo ela. Foram necessários bom senso e uma percepção honesta de si mesma para ela chegar onde está hoje. “Nunca tentei passar a impressão de estar mais realizada do que eu era”, argumentou.

Tendo conseguido “aprender” a compor músicas – e talvez a palavra “aprender” não faça justiça a ela, uma vez que uma das suas composições entrou na lista do Oscar de melhor música original este ano –, Mary está pronta para um novo desafio. A atriz, hoje com 67 anos, estreia na série da NBC Zoey’s Extraordinary Playlist, em que canta e dança ao som de suas músicas. 

A série narra uma história curiosamente similar à dela. Depois de se submeter a uma ressonância magnética, Zoey Clarke (Jane Levy) descobre que consegue ler os pensamentos das pessoas por meio de canções, e ela então as imagina cantando.

Mary Steenburgen interpreta a mãe de Zoey, Maggie, uma força fundamental numa série cuja premissa com frequência imprime a ela uma certa frivolidade. O marido de Maggie, Mitch (Peter Gallagher), é um personagem baseado no próprio pai do criador da série, Austin Winsberg, que tem um problema neurológico raro que o deixou incapaz de falar ou se mover. 

A mãe de Mary morreu de uma doença similar e ela disse que aceitou o papel em parte “para homenagear as pessoas que perderam sua vida por causa dessa doença, os que cuidaram delas e os que tiveram de estruturar uma vida para dar apoio a elas”.

“Do ponto de vista emocional, foi uma das coisas mais difíceis que fiz até hoje, por muitas razões. Uma é que, depois de seis meses trabalhando com Peter, e com ele sendo tão brilhante nesse papel, senti que tudo era muito real e duro de enfrentar. A outra foi que meu marido e eu não somos jovens, portanto essas coisas acabam sendo mais difíceis”, justificou.

Mary Steenburgen também aceitou o papel pela chance de trabalhar com Mandy Moore, coreógrafa que conquistou o Emmy, que ela qualifica como “um gênio”. 

A atriz admite que suas habilidades musicais não se estendem naturalmente da composição para a dança, mas está fazendo as duas coisas no segundo episódio (em que a música Moondance, de Van Morrison, tem um papel crucial). “Gosto de assumir riscos. E era uma oportunidade de incorporar música ao trabalho que faço e amo há 45 anos. Não poderia dizer não ao convite.”

Embora sua balada Glasgow (No Place Like Home) tenha entrado na lista das músicas indicadas ao Oscar, mas não incluída na lista final, o filme Wild Rose, de Tom Harper – sobre uma garota da Escócia que sonha em ser uma cantora de música country – foi reconhecido na cerimônia de entrega do BAFTA, da Academia Britânica de Cinema. 

Indicada ao prêmio de melhor atriz, Jessie Buckley cantou Glasgow no Royal Albert Hall, em Londres, sem que a autora, que outrora viveu ali perto, tomasse conhecimento.

“Se você me dissesse que um dia uma composição minha seria apresentada naquele lugar, eu nem saberia o que pensar”, afirmou Mary, acrescentando que “é maravilhoso para mim que essa música tenha estado ao lado da composição de Elton John e Bernie Taupin (I’m Gonna) Love Me Again, no Critic’s Choice Awards.

Mary credita muito do seu sucesso na música ao apoio que recebeu de pessoas que encontrou em Nashville, como os roteiristas de Glasgow, Caitilin Smith e Kate York. Trabalhando com elas e compondo para o Universal Music Group e Warner Chappell, sua atual gravadora, ela passou a acreditar que a música sempre foi parte dela, só que antes não tinha acesso a ela.

Chega um momento na vida em que as pessoas param de lhe dizer para tentar novas coisas, comentou a atriz. E embora sua experiência tenha sido no início mais assustadora do que imaginou, ela é grata pelo quanto isso a encorajou a sair da sua zona de conforto.

A música se tornou uma parte tão essencial da vida dela que em The Good Place, série recentemente concluída da NBC estrelada por seu marido, o ator Ted Danson, ela apareceu brevemente interpretando uma professora de guitarra.

“Cada momento na vida em que você tem o privilégio de parar para pensar, você é capaz de mudar. E é capaz de aprender, de crescer. Por que fechar a porta para isso?” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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