Marcus Yam/The New York Times
Marcus Yam/The New York Times

Como a mais famosa e talentosa artista de uma série de TV da sua era fracassou na Broadway

Lucille Ball queria bancar um musical, estrelando todas as cenas, dançando e cantando um grande número de músicas difíceis. Havia apenas dois problemas: ela não era uma boa dançarina e nem uma boa cantora

Darin Strauss, The New York Times

01 de agosto de 2020 | 11h00


Esta é a história de como a mais famosa e talentosa artista de uma série de TV da sua era, e talvez de todos os tempos, fracassou na Broadway. A estrela era Lucille Ball. O ano era 1960. E ela estava num momento difícil - “numa fase depressiva”, como lembrou mais tarde.

I Love Lucy havia chegado ao fim. Seu casamento também. O último beijo em Desi foi no último momento do último episódio. O rosto dele no seu cabelo, as lágrimas, “Você queria dizer, “Corte”. O abraço final. No dia seguinte, ela entrou com pedido de divórcio.

Quando seu casamento é considerado o casamento dos Estados Unidos o que você faz quando o amor desmorona? Lucille Ball não sabia, inicialmente. Biógrafos afirmam que ela dormiu e gritou no sofá de uma amiga. “O que eu faço é tão sem sentido, tão sem importância”, ela suspirou depois de assistir a uma peça estrelada por Vivien Leigh. “Veja o que ela faz”.

Essa inveja a arrancou do sofá: uma carreira no teatro, como disse em sua autobiografia, “era a ambição da minha vida”. Uma ambição que os que viram suas atuações puderam acompanhar. Aos 17 anos, ela deixou a escola secundária numa pequena cidade no norte do Estado de Nova York e partiu para a Broadway, para ouvir apenas isto: Você não tem talento. Por que não volta para casa?

Mais tarde, outras tentativas também fracassaram. “Nunca consegui”, disse ela a um jornalista em 1960. “E quero provar para mim mesma”.

Lucille Ball não era somente uma superestrela em 1960. Ela também era uma pioneira, um magnata de saias. A Desilu Productions, o império comercial que ela dividia com Desi Arnaz, seu ex-marido, controlava o maior espaço de estúdio de TV  e o que ocupava mais tempo de televisão do que todos os demais do setor, segundo a Life Magazine.

Agora ela precisava apenas encontrar uma peça para estrelar. 

Fiquei sabendo da aposta de Lucille Ball no teatro, um fato amplamente esquecido, quando estruturava meu livro The Queen of Tuesday,  É um híbrido de romance e biografia sobre ela - e também sobre meu avô, e o polêmico romance entre eles. O caso é integralmente uma especulação, mas de resto a maior parte do que está no livro pode ser comprovada. (Havia uma lenda na família de que meu avô e ela se encontraram numa festa da qual participaram o pai de Donald Trump, com celebridades lançando tijolos contra um belo monumento em Coney Island, que é a cena de abertura do livro).

Escrever o livro levou-me a admirar esta mulher poderosa e brilhante. Mas para relatar o trecho seguinte até mesmo o mais ardoroso fã de Lucille fica mais cauteloso.

Lucille queria bancar um musical na Broadway, estrelando todas as cenas, dançando e cantando um grande número de músicas difíceis. Havia apenas dois problemas: ela não era uma boa dançarina e nem uma boa cantora. “Nem no banheiro”, ela lembrou em sua autobiografia, Love Lucy. E o show que escolheu, Wildcat, exigia que ela cantasse e “quase subisse paredes”.

Ou, exigiria isso. Eventualmente. Uma peça pode sofrer todos os tipos de mutação. Especialmente quando a mais popular estrela do país participa da produção (para não dizer se apropria).

N. Richard Nash, que escreveu a peça, concebeu-a como um drama - a história de uma mulher de jardineira (macacão) que chega a uma cidade petrolífera do sudoeste americano com o sonho de enriquecer. Ao contrário de heroínas de outras peças, Lucille leu e rejeitou o papel. Wildcar Wildly Jackson, “o gato pula mais alto que a onça”, como escreveu ela, era o tipo de personagem de fala grosseira e incrivelmente ativa” que ela queria interpretar.

Um telefonema de Desi Arnaz e US$ 400 mil depois, “e tudo foi embalado e tirado literalmente das minhas mãos”, disse Nash a um jornalista. “O produto final não tinha nada a ver com o meu original”.

O público em 1960 na Broadway estava começando a se agitar. E Lucille Ball era a estrela das estrelas. Corpos celestiais de tal magnitude colocam tudo na sua órbita, então por que não o mundo do teatro? Os cartazes ilustram o óbvio: “Broadway loves Lucy”, você consegue ouvir, mesmo hoje, o zumbido das velhas calculadoras, o fluir das receitas.



E assim o drama de Nash se tornou (como Lucille descreveu na autobiografia) “um musical com excelentes músicas de Cy Coleman e Carolyn Leigh” - naquela época uma nova equipe de roteiristas. Outra renovação: a protagonista, uma jovem de 20 anos que cuidava da irmã adolescente - foi transformada numa mulher já nos seus 50 anos.

Problemas atrasaram a produção desde o início. Nos ensaios, Lucille ficava cansada, chegou a ir para o hospital e tinha dificuldade em decorar o texto. E seu professor de canto sugeriu que ela se limitasse a cantar apenas em uma nota enquanto a orquestra tocava a melodia.

Não quer dizer que Lucille não estivesse envolvida: ela alugou um apartamento na East 69th Street e embora fosse apenas uma locação, ela derrubou paredes do imóvel para ter uma vista dos rios Hudson e East; o plano era ficar cinco anos na Broadway.

Mas como a rainha da novela ela se habituara às risadas grandiosas: quando ficou claro que o show não iria produzir gargalhadas fenomenais ela decidiu fazer do seu jeito. Um cachorro no palco teve um acidente numa matiné logo depois da noite de estreia e Lucille pegou uma vassoura usada para o palco e se dirigiu à plateia: “Isto está em letras pequenas no meu contrato”, disse ela. “Tenho de limpar o cachorro”.

Outra noite sua personagem perguntou ao ator coadjuvante: “Diga-me, você conhece um camarada chamado Fred Mertz?” A piada provocou gargalhadas (Mertz era o nome do vizinho dela no programa em I Love Lucy), mas não tinha sentido. Quem na cidade do Texas, em 1912, conheceria Mertz, e por que ela perguntou? Lucille também reconhecia seus erros para o público quando se perdia no diálogo ou numa canção, e começava de novo.  

Desnecessário dizer que essas excentricidades violavam as regras sagradas do teatro. Mas não foram os amadorismos e nem mesmo as péssimas críticas que condenaram Wildcat. O show foi um sucesso comercial. As pessoas queriam ver Lucy. E era o mais próximo que conseguiam vê-la. Mas a produção naufragou graças ao seu pecado original: confiar um papel não apropriado a uma atriz que não era de teatro estrelando um musical.

“Foi o trabalho mais extenuante fisicamente da minha carreira”, ela disse mais tarde. Ela ficou gripada, tinha crises de choro, quebrou dois dedos, torceu o tornozelo três vezes, perdeu oito quilos, contraiu um vírus e fez uma pausa para se recuperar na praia. Depois desmaiou no palco, mais de uma vez. A produção instalou um balão de oxigênio nos bastidores do teatro. Ela sofreu um desmaio, durante um número intitulado Tippy, Tippy Toes, um colega tentou escondê-la e quebrou o punho. Nesse ponto da apresentação, a substituta de Lucille já havia ido para a casa.

Todo o sucesso e popularidade do mundo não pode salvar uma ideia mal concebida. Talvez exista uma lição no caso, uma lição geral para o teatro do século 21. Por mais admiração que as estrelas de Hollywood tenham pela Broadway - e muitos produtores de peças que só visam lucro devem ter ganho ao atrair Lucille Ball para seu mundo relativamente pequeno - o triunfo em um meio pode, na verdade, corroer o trabalho em outro. Talento não é necessariamente algo transitório.

Mas ainda assim acho o esforço de Lucille Ball admirável. Em 1986, quando Ronald Reagan conferiu a ela o prêmio do Kennedy Center - a mais alta honra que o país oferece a seus artistas, Walter Matthau apresentou-a com uma frase que aparece em inúmeros obituários e biografias: “Não existe um sonho que ela não tenha buscado. E nenhum deslize que não assumiu”.

Tradução de Terezinha Martino

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