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Cena da série que é baseada no romance homônimo do jornalista e escritor italiano Roberto Saviano Amazon

Com ‘ZeroZeroZero’, Amazon entra no nicho das narcosséries

Produção que estreia na sexta, 6, retrata mercado global de cocaína

Pedro Venceslau e Paula Reverbel, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2020 | 07h00

Com liturgias, regras e códigos morais próprios, o mercado global de cocaína movimenta bilhões de dólares todo ano e está estruturado como uma sofisticada rede empresarial na qual players com perfis completamente diferentes jogam afinados como um relógio suíço. 

Os grandes “empresários” do ramo são em sua maioria pais de família respeitados por suas comunidades no México, nos Estados Unidos e na Europa e mantêm negócios de fachada enquanto operam o tráfico de forma violenta. Esse universo peculiar se tornou fetiche do público e inspirou dezenas de documentários, filmes e séries. 

Na esteira da bem-sucedida franquia Narcos, da concorrente Netflix, a Amazon Prime Vídeo coloca em seu catálogo na sexta-feira, 6, a série ZeroZeroZero, uma superprodução que acompanha o caminho do pó do chão de fábrica no México, onde é embalada em latas de chili, até o nariz do consumidor final na Europa. 

O título é uma gíria usada pelos europeus para a cocaína de altíssima qualidade produzida pela elite do narcotráfico mundial. Trata-se de uma ficção, que fique claro, mas que foi baseada no livro homônimo do cultuado jornalista e escritor italiano Roberto Saviano. 

É a assinatura e o caderno de fontes dele nos serviços de inteligência que conferem à série um grau de verossimilhança maior que todas as outras obras do gênero, a maioria inspirada em biografias de “capos”, como Pablo Escobar, Chapo ou Felix Gallardo.

Ameaçado de morte em 2006 depois de seu livro-reportagem sobre a máfia napolitana, Camorra (que foi adaptado para o cinema), Saviano vive há mais de uma década em endereço desconhecido e sob vigilância cerrada 24 horas por dia. 

Em 2015, ele cancelou sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde seria o principal convidado da 13.ª edição do evento. 

Na ocasião, a organização da Flip divulgou um comunicado dizendo que o escritor “não foi autorizado” pelos responsáveis por sua segurança a deixar o continente europeu. 

 



Escala. A narrativa conta a história na perspectiva de todos envolvidos - vendedores, intermediários e compradores de pó. Já no primeiro episódio, um pagamento é extraviado, o que quebra toda a cadeia produtiva e causa consequências em três continentes. 

“Foi um privilégio trabalhar em uma série criada por alguém que escreveu um livro muito técnico sobre o funcionamento do ramo. O livro do Roberto Saviano, que eu li, obviamente, dá uma boa ideia de como esse mundo funciona, embora seja ficcional. A série é uma extensão desse livro”, disse ao Estado, por telefone, a atriz Andrea Riseborough (A Morte de Stalin, A Guerra dos Sexos). 

Na série da Amazon ela interpreta a personagem Emma Lynwood, que cuida do dia a dia das operações da transportadora de seu pai, interpretado por Gabriel Byrne (In Treatment, Os Suspeitos). 

Com a morte do patriarca, ela é obrigada a tomar decisões drásticas para manter o negócio funcionando.

A empresa de transportes marítimos, cuja sede fica em New Orleans, tem mais cem anos na praça, mas mergulha no tráfico para sobreviver. 

Assim como Saviano, o criador da série ZeroZeroZero (e diretor dos dois primeiros episódios) também conhece como poucos o riscado do tráfico. O diretor e roteirista italiano Stefano Sollima assina dois clássicos do gênero: Sicário e Gomorra

A série também abre um debate clichê em produções do gênero. Uma força de elite da polícia mexicana nos moldes do Bope do Capitão Nascimento corre por fora da polícia local corrupta e usa e abusa da tortura como método de trabalho. 

Vale tudo na luta contra as drogas? Algumas cenas são especialmente fortes, como a morte de uma garotinha por bala perdida durante um tiroteio em um mercado logo no primeiro episódio. 

Laboratório. Após apostar suas fichas em Hunters, série na qual Al Pacino é um caçador de nazistas, a Amazon Prime Vídeo fez de ZeroZeroZero seu novo grande investimento de 2020. A plataforma não revela o investimento, mas o elenco custou caro. 

Um dos protagonistas é o ator Dane DeHaan, que fez O Espetacular Homem-Aranha 2. Ele interpreta Chris Lynwood, cuja vida é virada de cabeça para baixo quando sua ajuda é solicitada no negócio da família enquanto ele luta contra uma doença degenerativa. 

“Meu personagem tem algo chamado doença de Huntington, que é uma doença degenerativa genética. Mas uma coisa que gosto da série é que ela não é sobre um personagem com a doença - isso é só um dos obstáculos no caminho do personagem que tem que superar muitas outras coisas”, acrescentou o ator. 

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‘O envolvimento com o tráfico não foi glamourizado’, diz atriz principal de ‘ZeroZeroZero’

Andrea Riseborough interpreta Emma Lynwood, filha de um magnata do ramo de transportes marítimos, na nova série da Amazon

Entrevista com

Andrea Riseborough

Paula Reverbel e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 07h00

Para a atriz Andrea Riseborough, que interpreta Emma Lynwood, filha de um magnata do ramo de transportes marítimos, em ZeroZeroZero, um dos diferenciais da série foi não glamourizar o tráfico de drogas. “Eu já vi séries e li livros em que você quer fazer parte do que está acontecendo, em que o traficante é praticamente sensacionalizado”, conta.

“Nesta série, a diferença é que a cocaína, que nós acompanhamos ao longo de toda a série, é resultado das pessoas almejando poder. Acho que isso era muito profundo”, acrescenta.

 

 

 

Como que você se preparou para fazer uma série que retrata tráfico, cartéis e violência?

Eu li bastante sobre o ramo de negócios da minha personagem, que vem de uma família proprietária de uma empresa de transportes marítimos que tem mais de uma centena de anos e cuja sede fica em Nova Orleans. Achei que isso era crucial para entender a vida familiar da Emma (a personagem). Em reação ao tráfico de cocaína, foi um privilégio trabalhar em uma série criada por alguém que escreveu um livro muito técnico sobre o funcionamento do ramo. O livro do Roberto Saviano, que eu li, obviamente, dá uma boa ideia de como esse mundo funciona, embora seja ficcional. A série é uma extensão desse livro. 

 

O Roberto Saviano segue um protocolo de segurança muito rígido. Chegou a conhecê-lo?

Sim, fizemos uma entrevista juntos no Festival de Cinema de Veneza. Ele participou conosco, divulgou muitos fatos sobre tráfico. Foi um privilégio estar lá, ele é uma pessoa muito corajosa, em detrimento da própria segurança. 

 

Temos visto muitas séries que falam sobre drogas. 'Breaking Bad', 'Narcos', 'Fariña', 'El Chapo'. Você assistiu? Alguma ajudou a preparar para esse trabalho?

Assisti, mas não em preparação para essa. São muito diferentes. Enquanto existir o tráfico de cocaína, nós tentaremos compreendê-lo e retratá-lo nas nossas histórias. Sempre haverá histórias sobre cocaína aparecendo na tela. O que eu gostei desta é que o envolvimento com o tráfico não foi glamourizado. Eu já vi séries e li livros em que você quer fazer parte do que está acontecendo, em que o traficante é praticamente sensacionalizado. Nesta série, a diferença é que a cocaína, que nós acompanhamos ao longo de toda a série, é resultado das pessoas almejando poder. Acho que isso era muito profundo.

 

A sua personagem preferia não estar envolvida no que acontece na série, certo? 

Não, acho que isso não é verdade. Ela está absolutamente envolvida. Talvez ela não consiga encarar de frente o que eles estão fazendo, não quer conversar sobre o fato de que ela e sua família são traficantes de drogas, mas ela quer respeito e poder. Quanto mais ela consegue, mais ela precisa e gosta, de uma maneira muito humana. 

 

Quais são as suas visões sobre política antidrogas?

Não sinto que eu domino o assunto bem o bastante para responder a essa pergunta. Não tenho o conhecimento ou a expertise para poder falar disso.

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Protagonista fala da abrangência de ‘ZeroZeroZero’: ‘Essa série é falada em sete línguas’

DeHaan, que já foi o vilão em 'O Espetacular Homem-Aranha 2', interpreta Chris Lynwood, que passa a auxiliar os negócios de tráfico da família apesar de sofrer de uma doença genética degenerativa

Entrevista com

Dane DeHaan

Paula Reverbel e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 07h00

Apesar de ser um grande fã da série Breaking Bad, o ator Dane DeHaan, enaltece a abrangência de ZeroZeroZero, da qual é protagonista.

“A nossa tem uma abrangência muito grande, tem um grande elenco internacional, filmamos em cinco países diferentes em três continentes”, explica. “Ela é falada em sete línguas… É uma coisa de uma escala muito grande e de uma abrangência enorme”, conclui.

DeHaan, que já foi o vilão em O Espetacular Homem-Aranha 2, interpreta Chris Lynwood, que passa a auxiliar os negócios de tráfico da família apesar de sofrer de uma doença genética degenerativa.

 

 

Você já fez filme de super herói e de fantasia. Como é trabalhar em uma série árida, sombria?

Eu me diverti muito. Acho que a série tem esse aspecto bem realista e bem sombrio, que é uma das coisas que atraiu para esse trabalho. Tivemos três diretores muito bons (Stefano Sollima, Janus Metz e Pablo Trapero) que nos levaram por uma jornada imprevisível. 

 

E como você se preparou para retratar um personagem com uma doença degenerativa? Pesquisou e frequentou grupos de apoio?

Sim. Meu personagem tem algo chamado doença de Huntington, que é uma doença degenerativa genética. Eu me informei sobre ela o máximo que eu pude, me encontrei com pessoas que sofrem dela, li sobre o assunto. Encontrei um documentário incrível chamado Huntington's Dance (A Dança de Huntington, em inglês). O filme não tem distribuidor, mas eu consegui localizar a pessoa que fez - o documentário acompanha a vida de um homem com a doença na fase em que ela começa a tomar conta de seu corpo. É algo muito forte, tanto do ponto de vista físico como mental. Tentei representar um portador dessa doença da forma mais realista possível. Mas uma coisa que gosto da série é que ela não é sobre um personagem com a doença - ela é só um dos obstáculos no caminho do personagem que tem que superar muitas outras coisas. 

 

O seu personagem é lançado no meio de toda a trama, contrariando os desejos do pai dele, certo?

Sim. Ele queria muito estar envolvido no negócio da família, mas o pai deixa-o de lado por conta da doença. O pai está preparando a irmã para tomar as rédeas do negócio. Mas o Chris eventualmente consegue o que quer e mais - viaja junto com um carregamento de cocaína e tem que superar uma intensa corrida de obstáculos para transportar essa mercadoria. 

 

Temos acompanhado muitas séries com a temática de tráfico de drogas, como 'Narcos', 'Fariña', 'El Chapo'… É fã do gênero?

Eu nunca assisti a essas séries, mas gosto muito de Breaking Bad

 

Vê semelhanças entre 'ZeroZeroZero' e 'Breaking Bad'?

Acredito que não, Breaking Bad é muito diferente da nossa série. A nossa tem uma abrangência muito grande, tem um grande elenco internacional, filmamos em cinco países diferentes em três continentes. Ela é falada em sete línguas… É uma coisa de uma escala muito grande e de uma abrangência enorme.

 

O diretor Stefano Sollima (criador da série) já fez outros trabalhos criticamente reconhecidos e relacionados à temática das drogas, como a série italiana 'Gomorra' e o filme 'Sicário'. Como foi trabalhar com ele?

A série contou com três diretores muito fortes. O Stefano dirigiu os primeiros dois episódios, Janus Metz esteve encarregados dos episódios 3,4 e 5, e Pablo Trapero ficou com os episódios 6, 7 e 8. Todos são incríveis. O Stefano era realmente quem já tinha intimidade com o tema e ele que estabeleceu como que seria a aparência e a sensação da série. Foi ótimo trabalhar com ele. O Janus é um excelente explorador e o Pablo é muito meticuloso para planejar as cenas e contar uma bela história visual. 

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