Bryan Derballa/The New York Times
Bryan Derballa/The New York Times

Com novas histórias de 'Stranger Things' e 'La Casa de Papel', Netflix mira na literatura

Nos últimos meses, gigante do streaming tem feito movimentos de mercado que indicam que ela está de olho em um ramo além da televisão

Matheus Mans, especial para O Estado

13 de agosto de 2019 | 03h00

Atualmente, a Netflix possui mais de 4 mil títulos em seu catálogo brasileiro, variando entre filmes e séries. Seria preciso investir cerca de 240 mil horas de sua vida, ou 10 mil dias, para pôr todo o catálogo em dia – se não houver mais alterações. No entanto, parece que isso não basta para o serviço de streaming. Ao longo dos últimos meses, a Netflix tem feito movimentos de mercado que indicam que ela está de olho em um ramo além da televisão: a literatura. Tudo para conseguir amplificar ainda mais o alcance de suas produções originais.

A empresa lançou, em junho deste ano, a primeira aposta nesse sentido. Foi o livro Raízes do Mal, que amplia o universo da série Stranger Things ao contar a história da mãe da personagem Eleven. Outros dois livros já estão em produção, sendo que um deles, com previsão para 2020, mostra o passado de Hopper. “O que nos chamou a atenção é que os livros expandem a série. Não é uma repetição ou adaptação do que a pessoa assiste”, diz Talitha Perissé, editora de aquisição da Intrínseca, que comprou direitos de publicação no Brasil.

Além de Stranger Things, a Netflix também já vendeu direitos de livros para suas produções espanholas de maior sucesso – La Casa de Papel, Elite e La Casa de las Flores. Assim, em um acordo global, a editora Planeta vai produzir o conteúdo, que tem previsão de chegar às prateleiras entre o final de 2019 e o início de 2020. “O que sabemos, até agora, é que serão três projetos diferentes para cada uma”, afirma Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Planeta. “Teremos romances, ficções e até fan book baseados no conteúdo das três séries espanholas.”

Ou seja: La Casa de Papel e Stranger Things, hoje as duas produções originais de maior apelo para o serviço de streaming, já alçaram voos para além da série de TV. “A Netflix deve estar pensando na sua presença de maneira de transmidiática”, diz Rodrigo Petronio, professor e coordenador dos cursos de pós-graduação da FAAP em Roteiro para Cinema e Televisão. “Eles, provavelmente, querem fazer um caminho de conquistar um público leitor.”

Coisas estranhas

O livro Raízes do Mal, único publicado no Brasil até o momento, chama a atenção justamente por não se prender totalmente ao streaming. Há referências óbvias, que surgem a cada página, mas com uma independência que abre margem para um público novo. A autora Gwenda Bond, em entrevista ao Estado, contou que foi abordada para produzir uma história sobre a mãe de Eleven, mas que não recebeu determinações rígidas. “Tinha liberdade para fazer que aquela história fosse minha também”, diz a autora.

No entanto, para não cometer erros ou interferir em coisas do universo da série, ela teve um importante apoio ao longo da produção de seu livro. “Esta história traz desafios únicos. Eu preciso trabalhar dentro do universo de uma outra pessoa e com fãs apaixonados”, afirma. “Mas tivemos um consultor, que também está na equipe de redação da série, que aprovou todas as etapas do meu projeto e que serviu como linha direta para contato com os Irmãos Duffer”, explica a autora, citando os irmãos Matt Duffer e Ross Duffer, criadores e diretores de Stranger Things.

Petronio, da FAAP, chama a atenção para o fato de que esse é um movimento que lembra o das fanfics, as histórias inspiradas em produções de sucesso e escritas por fãs e para fãs. “É um movimento interessante que mostrou força a partir dessas narrativas de fãs, que se apropriam de histórias que gostam”, afirma. “Agora é a vez das próprias empresas fazerem isso.”

 

Competição

A questão que fica, a partir de todo esse cenário, é a razão que faz com que a Netflix busque outra forma de contato com o seu público. Afinal, livros e streaming são dois universos que ainda não possuem confluência clara. “A Netflix mudou a forma de consumir conteúdo, incluindo a literatura. E isso afeta tudo, já que a pessoa pensa diferente no tempo livre”, afirma Machado, da Planeta. “O que pode ser feito, e que eu acho que é o caminho deles, é inverter as adaptações. Transformar audiovisual em livros, mas como expansões. Elite, por exemplo, tem um enigma que não pode ser revelado no livro. Precisa ir além.”

A Netflix não respondeu aos questionamentos do Estado sobre suas produções literárias. Mas Rodrigo Petronio levanta outra questão sobre o avanço da empresa sobre o universo literário: a competição, que agora fica maior com os streamings da Disney e Warner. “A diversidade é algo importante nesse momento em que o mercado fica mais acirrado. Primeiro, em um nível audiovisual, com produções de lugares e gêneros distintos. Depois, usando o livro como recurso”, afirma. “É algo que deu certo com Star Wars, e a Netflix pode se dar bem. Mas tem que pensar em projetos para também trazer diversidade na literatura.”

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