Iara Morselli
Iara Morselli

Com filme 'Divino Amor' e novela 'Verão 90', Dira Paes mostra diferentes faces da mulher brasileira

Atriz comenta papéis e processos distintos nas duas produções

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 14h17

Dira Paes tem uma das mais extraordinárias carreiras de atriz do cinema brasileiro, mas sua descoberta deve-se ao inglês John Boorman, quando aqui veio fazer A Floresta das Esmeraldas. Há 34 anos! Dira fazia a jovem índia cuja tribo virava a família do garoto interpretado pelo filho do cineasta. O paraíso reencontrado, a utopia. Desde então, não parou de filmar, mas era uma atriz de cinema, conhecida de poucos. A TV deu-lhe uma popularidade imensa, como a diarista

Em seguida a minissérie Amores Roubados fez com que o Brasil descobrisse o que já devia ser óbvio, que ela era uma mulher sexy, e bela. Dira está agora nas telas como a protagonista de Divino Amor. O filme de Gabriel Mascaro é uma distopia projetada num Brasil não tão distante assim, 2027. A cultura evangélica disseminou-se pelo País. O carnaval deixou de ser a grande festa nacional, substituído pela celebração do divino amor.

Nesse quadro, Dira faz Joana, uma mulher de fé, que sonha ter um filho para ser plenamente aceita por sua comunidade. Mas o Senhor parece surdo às suas preces. Quando a atende, é de um jeito para o qual não está preparada. O filme é uma fábula sobre o Messias, sobre o menino Jesus. Isso nos cinemas. 

Na TV, Dira diverte-se fazendo Janaína na novela das 7, Verão 90. A trama já vai se despedindo do horário. Nas próximas semanas será substituída por Bom Sucesso, com Grazi Massafera como diarista e Ingrid Guimarães como rainha da bateria de uma escola de samba. Dira vai sentir saudade de sua personagem. “Faço a mocinha velha, é uma delícia. Tenho esses dois filhos, e o Roger é fonte permanente de problemas, sempre aprontando de tudo para se dar bem. Já o João é do bem, talentoso, trabalhador. A Janaína também tem a cara da mulher brasileira trabalhadora.” Dira tira de letra esse tipo de personagem. “Os filhos se iniciaram na carreira artística, mas a Janaína deu um duro danado para criar um restaurante de comida nordestina. Deu-se bem, e nessa fase final até descobriu o amor, com o Raimundo, que também é nordestino e tem um restaurante. Começaram brigando e estão como dois pombinhos.”

Dira acha a maior graça de estar fazendo a velha mocinha. Está batendo um bolão com Flávio Tolezani, ator de teatro – das peças de Gabriel Villela, que após alguns trabalhos em TV e publicidade, finalmente ganha um papel que lhe dá exposição. A novela, como indica o título, passa-se nos anos 1990, quando a MTV chegava ao Brasil. Tem todos os ingredientes do folhetim. Vilãs malvadas, a jovem e carreirista Vanessa (Camila Queiroz) e a matronal e aristocrática Mercedes (Totia Meireles), que se acha a dona do Rio com aquele sobrenome, Ferreira Lima. “O que eu mais gosto no texto (de Izabel de Oliveira e Paula Amaral) é que ele, no espírito do horário, é leve, bem-humorado. Os autores não querem que a gente se leve a sério e a novela é permeada pela autoironia. É muito gostoso de fazer. E o barato da novela é a resposta do público, quando as pessoas, na rua, identificam você pela personagem.”

A pantera de Claudia Raia, a grã-fina de Totia Meireles, a quituteira nordestina de Dira. O Quinzão de Alexandre Borges, o Rojê de Jesuíta Barbosa. “A vida no Brasil anda tão dura. A novela passa entre dois noticiários da emissora (a Globo). É raro que as notícias não sejam duras, e aí Verão 90 oferece um refresco. A Manu, a jovem mocinha de Isabelle Drummond, vai ficar com o João de Rafael Vitti? Claro, né, mas antes o casalzinho jovem vai sofrer um bocado. Já o Raimundo e eu estamos no sétimo céu. A novela não deixa de refletir o País com suas desigualdades, falcatruas, com essa gente que sempre quis se dar bem descontando nos outros, mas é outro tempo. Nos 90, não havia redes sociais nem essa cultura do ódio. O Brasil encarava seus problemas de uma forma mais saudável. A novela mostra isso, e o público percebe. É muito gratificante.”

E o filme? “Foi meu primeiro trabalho com o Gabriel (Mascaro) e ele é supertalentoso. Filme não é como novela, que pode sofrer correções de rumo a partir das reações do público. Quando o Gabriel começou a escrever o Divino Amor, e me disse que teria um papel para mim, acho que nem com bola de cristal ele poderia adivinhar que seu filme seria lançando num Brasil estranhamente semelhante à ficção que criou. A ideia era refletir sobre o corpo controlado pelo Estado, e aí o Brasil foi se evangelizando, virou essa coisa louca, repressora. Respeito as religiões, respeito o outro, mas me assusto quando vejo que, em nome do amor, se proclame uma cultura da exclusão, das armas, do ódio.”

A atriz já havia interpretado outra evangélica, no filme de outro grande cineasta pernambucano, Cláudio Assis. Em Amarelo Manga, Dira fazia a Kika, muito religiosa e frequentadora de um culto, casada com o açougueiro Wellington, que não podia ver rabo de saia e tinha uma amante.

“A Kika era muito austera, reprimida, e o tratamento do Claudião (o diretor) para a religião era muito diferente dessa coisa ruidosa que o Gabriel criou. Divino Amor se inscreve numa tradição da ficção científica distópica. O sagrado e o profano impregnam as imagens e a representação religiosa se faz com elementos como néon, rave, terapias sexuais. Faz parte da dinâmica do filme, e dos personagens, que os grupos se excitem sexualmente dentro do propósito divino de alcançar a concepção. A Joana se atormenta com o silêncio de Deus, com esse filho que não vem, e quando vem a coloca à prova, ameaça destruir o casamento que ela tenta tanto proteger.” 

São duas personagens bem diversas, e os processos também são distintos. O ritmo da novela é mais industrial, dezenas de cenas por dia; o do filme, mais reflexivo, poucas cenas, conceituação maior. “Para o ator pode ser ótimo. A Janaína é mais extrovertida, o mergulho da Joana é mais interior. Não sou nenhuma delas, mas carrego as duas em mim.”

Entrevista. O cineasta Gabriel Mascaro conversa com o Estado.

É seu primeiro trabalho com Dira Paes. E...?

Ela me surpreendeu, e muito. É uma atriz que possui uma capacidade de elaboração intelectual muito grande. Você discute com Dira a curva da personagem, o conceito, ela sustenta o diálogo e aí, diante da câmera, transforma tudo numa coisa que parece tão fácil que chega a desconcertar. É uma atriz e mulher em pleno domínio dos seus recursos. Uma atriz cidadã, que sabe que o filme pode ter uma dimensão política e o corpo dela será ferramenta num processo. Sempre gostei de ver a Dira Paes nos filmes dos outros. Dessa vez estou muito feliz de que ela esteja brilhando num filme meu.

Você escreveu o filme ‘Divino Amor’ num momento especial da história brasileira, filmou em outro e estreia num terceiro. Parece um filme profético, antecipando tudo o que ocorreu. Como se sente?

Não sou profeta, e estava apenas tentando aprofundar uma discussão sobre o corpo político que tem estado no centro do meu trabalho. Refletindo sobre o corpo e o Estado, cheguei à questão das instituições, da religião. Filmei o filme que escrevi, projetado num Brasil transformado em uma ficção científica distópica. Então, se algo mudou foi o olhar das pessoas, e o meu, sobre o Divino Amor. Nunca imaginei que estrearia o filme no Brasil presidido por um sujeito como o (Jair Bolsonaro). Mas havia um clima que, de certa forma, foi para a tela.

Tudo o que sabemos sobre:
Dira Paes

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.