Ricardo Pompeu
Ricardo Pompeu

Claude Troisgros é tema do documentário ‘Além da Cozinha’

Longa dirigido por Ricardo Pompeu acompanha o chef francês em viagem de moto por cidades do Nordeste

Entrevista com

Claude Troisgros

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 05h01

Ele está no Brasil há 40 anos, mas o sotaque ainda é carregado, com aquele charme francês. Depois do sucesso em restaurante e TV, o chef Claude Troisgros agora tem um documentário para chamar de seu. Claude - Além da Cozinha, de Ricardo Pompeu e produção da Moonshot Pictures, mostra Claude em sua moto viajando pelo Nordeste. Longa estreia dia 31, às 23h30, no GNT.

Como surgiu o documentário? 

Desde 2014, eu faço uma viagem de moto junto com um amigo meu. Costuma ser uma viagem grande de três semanas a um mês, atravessando alguma região ou algum país. Sempre em cidades pequenas, dormindo a maioria das vezes em hotéis simples, na casa das pessoas ou acampando. Passamos por lugares onde conversamos com as pessoas, entendemos a cultura delas, nos aproximamos, cozinhamos com essas pessoas - já que estou ligado também a essa profissão. Então, é uma viagem para botar o pé no chão, voltar às raízes, procurando por tranquilidade e entendendo a cultura de um país ou região.

Você gostou do resultado, fez bem para você?

 

Para a viagem no Rio São Francisco, eu tive essa proposta do Roberto d'Avila, da Moonshot Pictures, de ser seguido por câmeras e filmarem a minha viagem. Eu fui sozinho, o meu amigo não veio e a ideia era justamente seguir, do meu jeito, e viajar de moto, com os meus pensamentos, como eu ajo, o que eu faço e o que eu peço. Contar a minha história, da minha família, de onde eu venho, por que cheguei ao Brasil, mas tudo isso com uma pegada muito sentimental e psicológica. No início, minha primeira resposta foi: ''não, você vai atrapalhar a minha viagem, não é isso que eu quero!" E, na realidade, depois de algum tempo e algumas conversas, eu aceitei e o resultado foi incrível, pois a equipe que me acompanhou respeitou muito a minha liberdade não só de roteiro como também nas ações, pensamentos e fala. Então,  o resultado é um documentário muito verdadeiro, sem ser roteirizado. Gostei muito do resultado e fez muito bem para mim.

Como é subir em sua moto e partir pelo mundo? 

Eu ainda não parti pelo mundo, mas é o meu sonho. Parti para a América do Sul. A moto proporciona, diferentemente de um carro, mais liberdade. Sou motoqueiro desde os 16 anos de idade, eu ando de moto todos os dias. O fato de viajar em uma moto abre as portas, já que quando você chega a uma cidade pequena, como o interior do Brasil, o veículo parece uma coisa meio extraterrestre, né? Ela fascina! A primeira coisa que acontece são as crianças que veem um motoqueiro cheio de malas, capacete, óculos, roupas estranhas... E elas são curiosas. Então, sempre estou com chaveiros, bandeiras do Brasil, uma máquina fotográfica instantânea para tirarmos fotos e dar para as crianças. Em seguida, vem as mães ver o que a criança está fazendo e então já começamos a conversar, nos convidam para tomar um café, uma água e já fazemos amizade. Oferecem comida - que no interior é sempre muito farta e fácil. Às vezes acabamos dormindo na casa da pessoa também. Eu gosto muito de voltar para essa coisa de verdade, que você sai da cidade e volta ao mundo real, com muito amor, pessoas calorosas, acolhedoras, generosas e simples. A vida como ela é.

Ao subir em sua moto, a sensação é de liberdade, é isso? como é essa sensação de estar sem o peso do nosso dia a dia?

Realmente, a moto dá essa sensação de liberdade, primeiro porque você não está dentro de um carro fechado, então você consegue sentir o vento, o cheiro, o que está acontecendo em volta e tem a sensação de velocidade. Você está sozinho dentro de um capacete, não tem ninguém para conversar, apenas si mesmo. Esse pensamento interno dentro de um capacete, dentro da sua cabeça, é muito bonito, eu amo isso! E, principalmente, durante essas viagens onde o objetivo é se libertar de toda essa infraestrutura que a gente tem no dia a dia, como cama, comida, celular, televisão, internet, aquela ginástica que você tem que fazer todo dia... tudo isso vai para o beleleu. É sua moto, você e o que irá acontecer. 

Não importa em que lugar do mundo esteja, você será sempre um cozinheiro? 

Eu sou cozinheiro acima de tudo. Assim como as viagens, as pessoas que me recebem mostram a arte e a cultura delas. Na cozinha, eu também gosto de retribuir. Uma das grandes emoções que tive foi preparar uma refeição para uma aldeia indígena, numa viagem que fiz anos atrás. Cozinhar é amor, compartilhar, é uma doação. As pessoas sentem quando você cozinha com sentimento.

Alguma viagem te marcou mais?

 

A viagem que mais me marcou foi a da Bolívia. Eu estou acostumado a viajar com o meu amigo Pol, pois ele é meu amigo há 40 anos, nos conhecemos muito bem, temos os mesmos pensamentos, a mesma filosofia, dormimos cedo, levantamos cedo... Em um ano saímos do deserto da Bolívia com quatro mil metros de altura, e foi a única vez que contamos com um guia turístico, porque nesse momento era muito importante, já que não sabíamos o caminho e teríamos três dias de travessia. Não tem comida, não tem água, tudo deve ser levado no carro. No segundo dia, meu amigo caiu e quebrou o ombro. Graças a Deus, o carro estava para a ajudar e ele voltou, enquanto eu continuei sozinho atravessando toda a Bolívia por três semanas. Entrei pelo Peru, fui para o Machu Pichu e voltei. A viagem sozinho é diferente de uma viagem à dois. O que aconteceu com o meu amigo me fez a refletir se eu continuaria sozinho, porque todos falam que a Bolívia é perigosa.  Além disso, eu também nunca tinha feito uma viagem sozinho. Decidi continuar e foi incrível, porque sozinho, realmente as portas se abrem muito mais, as pessoas te convidam, conversam com você. Eu amei viajar sozinho, mas obviamente minhas viagens continuam sendo com o meu amigo Pol, por conta da amizade e porque à dois é muito mais seguro. Essa viagem pela Bolívia, principalmente o deserto, foi um marco na história das minhas viagens. 

Você se tornou um homem generoso e livre?

Não sei se eu me tornei generoso e livre. Acredito que eu sou generoso e livre desde que nasci (risos). Acho que a generosidade deveria estar em todos nós. Já a liberdade, a gente consegue ter. Eu sou uma pessoa que batalha bastante todos os dias para ter essa liberdade. É uma questão de ser livre.

 

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