Globo/Mauricio Fidalgo
Globo/Mauricio Fidalgo

'Cidade dos Homens' ganha nova temporada após hiato de 12 anos

Série teve o respaldo do sucesso de 'Cidade de Deus'

Gabriel Perline, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2017 | 05h00

No dia 15 de outubro de 2002, uma terça-feira, metade de todas as televisões do País estava sintonizada na Globo durante a faixa noturna, pós-novela das oito. E os responsáveis pelo interesse do público eram duas crianças negras, pobres e faveladas, perfil diferente dos protagonistas das produções que costumeiramente atraem a atenção da audiência. Os meninos, mesmo vivendo em um ambiente inóspito e cercado de violência, atraíram a simpatia da audiência pela história de amizade que se apresentou ao longo dos quatro anos da série Cidade dos Homens. Laranjinha (Darlan Cunha) e Acerola (Douglas Silva) passaram de crianças a adolescentes diante de nossos olhos. Após um hiato de 12 anos, os meninos ressurgem na tela com a quinta temporada da série. Viraram homens, são pais de família e, pela primeira vez, terão a amizade posta em xeque. 

O resgate de Cidade dos Homens é uma ação inédita por parte da Globo. Reprises e releituras de produtos antigos de sua dramaturgia não são novidade, mas dar continuidade a uma trama que supostamente havia sido encerrada há tantos anos, e com o elenco original em atividade, é um ato ousado. A nova safra, coproduzida com a O2 Filmes, conta com quatro episódios inéditos e será exibida diariamente, entre os dias 17 e 20 de janeiro, após a novela A Lei do Amor.

Desta vez, Laranjinha e Acerola não estarão sozinhos. Como estão adultos e o plot da série é a amizade entre duas crianças, os roteiristas George Moura e Daniel Aldjafre encontraram uma saída interessante para manter o foco da história: acompanhar a divertida relação entre Davi (Luan Pessoa) e Clayton (Carlos Eduardo Jay), filhos dos protagonistas, que dividirão o foco da narrativa com seus pais.

“O ditado ‘filho de peixe, peixinho é’ foi o norte para a edificação desses personagens”, disse George Moura ao Estado. “O que poderia romper essa amizade entre o Laranjinha e o Acerola? A única coisa que nos parecia suficientemente forte seria a vida de um filho. É algo que faz você apontar uma arma inclusive para o seu melhor amigo, porque poucas coisas são tão fortes como isso. Quando os inserimos na história, imediatamente vimos que estavam surgindo dois novos protagonistas. O que sempre encantou o público foi a amizade das crianças, e essa é uma forma de a gente acompanhar a amizade entre duas crianças, sem perder os originais, o Laranjinha e o Acerola”, completou Daniel Aldjafre.

Um cuidado importante para a retomada dessa história é o ‘refresco’ à memória da audiência, solução encontrada pelo diretor Pedro Morelli. Afinal, passaram-se 12 anos e, por mais que Laranjinha e Acerola sejam personagens icônicos, as particularidades dessa relação fogem das lembranças até mesmo dos telespectadores mais atentos. Ao longo dos quatro novos episódios, a história será costurada por cenas antigas da série. Além de resgatar elementos importantes dessa relação entre os rapazes, permite ainda que um novo público, que não assistiu às temporadas anteriores, entenda e assimile o universo dos personagens.

“É muito raro esse tipo de produto audiovisual, em que você vê a passagem do tempo. Recentemente, teve o filme Boyhood (2014). Só que no nosso caso é mais longo. Lá eram 12 anos. Aqui são 15 anos. E é muito bonito de ver essas passagens. O público viu o Cleiton nascendo, e a trama corta para 12 anos depois. Esse corte entre passado e presente está inserido em toda a série”, disse ainda Morelli.

12 anos depois. Laranjinha e Acerola continuam próximos. Seguem vivendo em uma comunidade carioca - muito menos hostil que o universo retratado nas temporadas anteriores -, enfrentam dificuldades financeiras e tocam suas vidas driblando a tentação ao ‘dinheiro fácil’, vindo de uma das atividades informais mais praticadas no ambiente em que estão inseridos: o tráfico de drogas.

O drama da nova temporada gira em torno da saúde de Davi, filho de Laranjinha. Portador de uma grave doença, o menino não encontra auxílio no serviço de saúde pública, e seu pai não tem dinheiro para custear o tratamento na rede particular. 

Um incidente faz com que Laranjinha encontre uma mala com muito dinheiro, pertencente ao principal traficante da favela em que vive. A quantia é suficiente para salvar seu filho. Mas Acerola, o lado sensato da relação, tenta convencê-lo a entregar a mochila ao dono e evitar problemas com o criminoso. E aí nasce o atrito entre os dois amigos. 

“Quando o George me convidou para escrever a série, a primeira questão foi: de onde vem o fôlego dessa história? Vem da amizade entre duas crianças, uma coisa muito preciosa. É completamente diferente da história de um casal, que é repleta de clichês. E essas crianças, agora homens, estão inseridas no universo adulto, com problemas que a idade traz. Dá vontade de ver os dois velhinhos como amigos”, comentou Aldjafre. “Esta temporada encerra com um lindo gancho para o início de um novo seriado. Quero que cause um fascínio e que as pessoas fiquem com vontade de ver mais, porque, se quiserem ver mais, nós faremos mais”, garantiu Moura.

Globo testa novos hábitos do público

De olho no efeito binge-watching, hábito provocado pelas plataformas de streaming, a Globo observou a nova maneira que o público passou a assistir às séries de TV e resolveu se mexer. A 9 dias da estreia da nova temporada, todos os episódios inéditos de Cidade dos Homens foram publicados na Globo Play. A ideia da emissora é testar a força de seus produtos na web e, desta maneira, tentar mostrar ao mercado internacional que também produz séries ‘viciantes’.

Bilheteria e indicações para o Oscar motivaram Fernando Meirelles e Braulio Mantovani a criar um subproduto para a TV

O primeiro contato do público com Laranjinha e Acerola ocorreu em dezembro de 2000, no extinto Brava Gente, especial de fim de ano da Globo dedicado à dramaturgia. Na ocasião, a emissora investiu em Palace II, telefilme inspirado no livro Cidade de Deus, de Paulo Lins, adaptado por Braulio Mantovani e dirigido por Fernando Meirelles.

A boa audiência levou o roteirista e o diretor a adaptarem para o cinema a obra completa, lançada em 2002. Darlan Cunha e Douglas Silva foram escalados para o filme, mas viveram outros personagens.

Com o sucesso de bilheteria (levou mais de 3 milhões de pessoas aos cinemas no Brasil) e a boa repercussão no mercado internacional - recebeu quatro indicações para o Oscar -, a obra deu origem a Cidade dos Homens, rara produção da TV brasileira protagonizada por negros que garantiu bons índices à Globo.

“Já faz 12 anos que o último episódio foi exibido e ainda hoje há uma escassez de protagonistas negros e de periferia em narrativas brasileiras. Com a retomada dessa história há a possibilidade de tratar de assuntos que permanecem. Por exemplo, na periferia mudaram-se algumas embalagens, mas a exclusão e a necessidade de pertencimento permanecem.

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