Matt Sayles/Invision/AP
Matt Sayles/Invision/AP

Chuck Lorre dá adeus a seu grande sucesso ‘Two and a Half Men’

Seres humanos que se comportam de maneira inapropriada são ótimos para a comédia, diz diretor e produtor

Entrevista com

Chuck Lorre

Mariane Morisawa , Especial para O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2015 | 07h00

BURBANK (EUA) - Chuck Lorre é o rei da comédia na televisão americana, criador de Two and a Half Men, The Big Bang Theory, Mike & Molly e Mom. Seu reinado começou em 2003, quando seu amigo Lee Aronsohn o convidou para criar uma coisa nova porque, segundo consta, estava para perder o seguro-saúde do sindicato. Assim nasceu Two and a Half Men, sobre Charlie Harper (Charlie Sheen), um músico bem-sucedido que precisa abrigar o irmão Alan (Jon Cryer), então recém-separado da mulher. 

Mesmo depois de 12 anos e uma turbulência e tanto – a perda de seu ator principal, substituído por Ashton Kutcher –, a sitcom continua tendo números expressivos de audiência. Mas chegou a hora de dar adeus à série, cuja temporada final está sendo exibida pelo Warner Channel, às quintas, 20h. O episódio final vai ao ar nos EUA no dia 19 de fevereiro. Ao Brasil, chega duas semanas depois. 

Para marcar a data, os elencos e os roteiristas das quatro atrações participaram de um evento que culminou com o batismo do estúdio 26 da Warner Bros. como Estúdio Two and a Half Men. Lorre não quis confirmar os boatos de que Sheen vai aparecer no último episódio, que ainda não foi gravado. “Terminar o show é complicado, porque ele virou outra coisa no meio do caminho. Queremos honrar ambos”, despista ele. 

Em 2011, Sheen, descontente com o cancelamento de episódios da temporada daquele ano – por causa de seus problemas pessoais –, publicou carta aberta atacando Lorre, na qual o chamava de “homenzinho estúpido, um idiota que eu nunca gostaria de ser”, entre outras ofensas. No recente encontro com a imprensa, no entanto, o produtor deu indícios de que as diferenças entre ele e o antigo protagonista de sua série estavam superadas. “Seria inapropriado não reconhecer o extraordinário sucesso que tivemos com Charlie e como sou grato, todos somos, pelas suas contribuições. Não há nada além de bons sentimentos pelos oito anos e meio que trabalhamos juntos.” 

O roteirista e produtor é tão poderoso que é capaz de brincar com o formato quase estanque das sitcoms em sua mais nova criação, Mom, em seu segundo ano. O programa é estrelado por Allison Janney e Anna Faris, mãe e filha que tentam restabelecer seu relacionamento, e lidar com assuntos sérios como gravidez na adolescência. Lorre sabe que não seria capaz de fazer Mom se não fosse o sucesso de Two and a Half Men e The Big Bang Theory, que chega a fazer 18 milhões de espectadores numa semana. 

Nem sempre foi assim. “Eu era um músico em dificuldades até os 35 anos”, disse Lorre. Ele se lembra de colocar menos de US$ 1 de combustível no carro para conseguir comer na casa do primo. Tudo mudou quando ele resolveu deixar a música de lado e investir na TV, em princípio, escrevendo roteiros para desenhos animados. Mais tarde, começou a ter oportunidades de escrever seriados cômicos como Roseanne (1988-1997) e de criar Grace Under Fire (1993-1998), Cybill (1995-1998) e Dharma & Greg (1997-2002).

Em entrevista exclusiva no estúdio em que Two and a Half Men é gravada, o produtor e roteirista de 62 anos, falou da carreira, do fim da série e de seus outros sucessos na TV. 

O que vai sentir quando terminar esse seriado que colocou você no mapa?

Não foi Dharma & Greg? (risos) Não sei, não consigo imaginar o que vai ser quando terminar. Two and a Half Men foi parte da minha vida por 12 anos. Não sei como vai ser aparecer aqui na segunda-feira e não fazer a série toda semana. É estranho. Vamos conversar novamente daqui um ano. 

Two and a Half Men ainda vai muito bem de audiência. Houve razões econômicas para terminar agora ou você só se cansou de fazer o seriado?

(risos) Todos concordaram que fomos muito mais longe do que jamais esperamos. Realmente, parecia que ia terminar quatro anos atrás. E tivemos mais quatro. Então, parecia uma boa hora para dizer adeus. 

O que é um bom fim de seriado?

Gosto de ser surpreendido, mas dentro do contexto da série. Também acho que nem todas as pontas soltas precisam ser amarradas. Vamos terminar da maneira como queríamos. No caso de Two and a Half Men, decidimos quais eram os elementos fundamentais desse seriado desde sua origem. E, vamos ser honestos, o seriado tornou-se outra coisa por causa do escândalo que o cercou. Não dá para ignorar isso. Está no DNA da série.

De quantos seriados é possível cuidar ao mesmo tempo?

Um. Em dado momento, o trabalho acaba se tornando menos escrever e mais confiar, delegar, encorajar, incentivar pessoas talentosas. É impossível, se não for assim. Esses seriados são uma colaboração. São muitos episódios. Fazemos 22, 24 por temporada. É ridículo. Então, precisa ser uma colaboração, preciso confiar nos grandes roteiristas. 

Vocês já escreveram alguma coisa para um seriado que perceberam depois ser mais adequado para outro?

Não. Eles são muito diferentes. As equipes são distintas. O tom é diferente. No começo de The Big Bang Theory, vimos muito rapidamente que eram personagens inocentes. E que o tom afiado que empregávamos em Two and a Half Men não funcionava. Era inapropriado que os personagens fossem sexualmente ousados. O seriado desenvolveu a própria voz. 

Onde encontra esses cenários? 

Acho que as melhores histórias não vêm de uma situação, mas de uma imperfeição do personagem, ou um traço de personalidade. Os sete pecados capitais são um bom ponto de partida: ganância, inveja, luxúria. Seres humanos que se comportam de maneira inapropriada são ótimos para a comédia. 

Quanto de você há em seus trabalhos?

Não tenho objetividade o bastante para responder a essa questão. O que gosto do meu trabalho é poder me apaixonar por esses personagens ficcionais, mesmo os negativos.

O sucesso de Two and a Half Men e The Big Bang Theory deu a você mais poder para usar ideias que sempre teve?

Sem dúvida. Não poderíamos fazer em Mom o que estamos fazendo se não fosse o sucesso de Two and a Half Men e The Big Bang Theory. Não posso imaginar tentar vender uma história sobre alcoólatras em recuperação se fosse desconhecido e não tivesse o sucesso das outras duas séries. Acho que ninguém me ouviria. 

Sentiu que tinha de ser mais ousado com Mom por causa do atual cenário das sitcoms? Está mais difícil fazer sucesso hoje. 

Não. Acho que Mom tem sua própria voz. Ainda há muito espaço para fazer coisas bobas, loucas, exageradas. Lembra de Agente 86? Eu amava. Não acho que um formato de sitcom negue os outros. 

‘Em vez de ficar triste, quero aproveitar os momentos finais’

Jon Cryer sobreviveu às várias crises de ‘Two and a Half Men’.

O seriado teve a produção parada por causa da greve de roteiristas, entre 2007 e 2008, e depois perdeu seu protagonista Charlie Sheen, por desentendimentos com os produtores, em 2011. Não à toa, o intérprete de Alan Harper, que se instala na casa do irmão Charlie (Sheen) depois do divórcio, divide a série em dois momentos – e sabe que vai ser difícil honrar as duas versões no episódio final, como declarou Chuck Lorre. “A grande diferença que notei é que a primeira versão do seriado não tinha nenhum momento de sentimentalismo. Se havia qualquer pista de emoção, já virava comédia”, disse

em entrevista no estúdio 26 da Warner Bros. “Na segunda versão, como é um ‘bromance’ entre os dois caras, podíamos gostar um do outro.” Ashton Kutcher, que substituiu Sheen, interpreta o milionário Walden Schmidt. Ele compra a casa de Charlie e deixa Alan continuar morando lá. 

Cryer está certo de que ‘Two and a Half Men’ se despede no momento certo. “Decidi que não vou ficar triste. Porque vou ficar muito bravo se passar esses últimos episódios triste em vez de aproveitar os momentos finais.” O ator ainda contou ter aprendido uma coisa com o personagem: “As pessoas conseguem perdoar muito!”. Cryer só tem um plano por enquanto: o lançamento da autobiografia ‘So That Happened’, prevista para abril.

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