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Choque de realidade

Sai Cordel Encantado, a fábula, entram os conflitos familiares da nova era

Patrícia Villalba,

18 de setembro de 2011 | 06h00

RIO - a sala de visitas de um dos estúdios do Projac, no Rio, Paulo Betti e Ana Beatriz Nogueira analisam seus novos personagens, Eva e Jonas. Dali a uma hora eles terão um embate decisivo em cena, pouco depois de ela flagrar o marido com a personal trainer, logo no primeiro capítulo de A Vida da Gente, trama das seis da Globo que substitui Cordel Encantado a partir do dia 26 - ou dentro de uma semana. Na conversa com o Estado, Ana Beatriz tira muitas conclusões sobre Eva. Mais contido, Paulo fala pouco, julga menos ainda e conclui que nessa etapa do trabalho procura entender o que leva Jonas a tomar certas atitudes. "Até brinquei com o Paulo - a gente fica casados durante meio capítulo", diverte-se Ana Beatriz.

 

Já no estúdio, Jonas ficará calado diante da fúria de Eva. Tentará se defender, mas não parecerá constrangido o suficiente para agir com o mínimo de cavalheirismo. A mulher já jogou um tanto de roupas sobre a cama quando ele diz: "Eu não vou sair de casa feito um louco só porque você está tendo um surto." Sem poder recuar, se ele não sai, "saio eu", diz Eva.

 

A separação traumática terá consequências que a gente conhece bem, e que já fazem parte da vida contemporânea. A atual estrutura familiar, que encontra cada vez mais formas de se apresentar é o assunto que interessa a Lícia Manzo, estreante como autora titular de novelas (é dela a série Tudo Novo de Novo, de 2009).

 

Na tela, o casamento de Jonas e Eva dura apenas meio capítulo, mas a história conta que ele já leva sete anos. "Logo dá para perceber o desgaste daquela relação, um casamento que vem se arrastando, cada um preocupado com suas coisas", explica Ana Beatriz.

 

No caso dele, é o trabalho como "advogado bem-sucedido". No dela, é a carreira de tenista da filha. Ana (Fernanda Vasconcellos) é a protagonista da trama e trata de sacudir ainda mais a vida da família para além da separação de Eva e Jonas. É que o casal juntou quatro filhos - duas dela e dois dele. E logo no meio da separação da mãe e do padrasto, Ana vai se apaixonar pelo filho dele, Rodrigo (Rafael Cardoso).

 

Mais do que isso, vai engravidar, sofrer um acidente, e cair num coma que vai durar quatro anos. Na volta, a filha que ela mal conheceu estará sob os cuidados de sua irmã, Manuela (Marjorie Estiano), que engatou um romance com ninguém menos que Rodrigo. Parece confuso? Pois na nova família de novela, as possibilidades de arranjo são muitas, como na vida real.

 

Vida moderna. Quando a novela começa, Paulo Betti já mantém um caso há tempos com a personal trainer Cris (Regiane Alves) e há indícios de que ele encarna um tipo bastante comum - o "tiozão que quer recuperar o fôlego". "Ela é muito diferente dele, e não sei exatamente por que ele se apaixona. Mas acho que tem muito dessa coisa do homem mais velho que procura a garotona", adianta o ator, que vê até certa ingenuidade na maneira como Jonas se deixa envolver pela amante.

 

Lá pelas tantas, animada com a conta bancária do novo marido, Cris vai querer engravidar. Jonas já não pode gerar filhos, e eis que entra na história o "irmão fracassado", Lourenço (Leonardo Medeiros). "Jonas vai comprar o sêmen do irmão, que precisa de dinheiro", conta Paulo. Quem não vai gostar disso é a mulher de Lourenço, Celina (Leona Cavalli).

 

Com as novas famílias, surgem novos conflitos que, afinal, são combustível para a ficção. Traída, trocada por uma mulher mais jovem e prejudicada financeiramente, Eva vai se tornar inimiga de Jonas - outro tipo bastante comum por aí. Por isso, o envolvimento dos "irmãos postiços" Ana e Rodrigo não vai ser apenas um problema doméstico, mas uma verdadeira guerra entre famílias. "A Eva projeta tudo na filha, que é como um cavalo premiado", explica Ana Beatriz. "Não é uma vilã, mas é equivocada e vítima dela mesma."

 

A gravidez põe em risco a carreira de Ana no tênis, ganha-pão da mãe. Com medo de perder um contrato publicitário, Eva decide apresentar a neta como filha. Mas com o acidente da mãe biológica, a criança será criada como filha de Manuela, na verdade sua tia, e Rodrigo, seu pai biológico. Quando Ana voltar do coma, a menina terá uma nova mãe - a verdadeira, oras. E um novo pai, Lúcio (Thiago Lacerda), com quem Ana se casa. Como se vê, o conceito "os meus, os seus e nossos" foi há muito subvertido. "A família tradicional, aquela dos anos 50, é o desenho de um ideal. Mas será que ela realmente existiu um dia?", questiona Paulo Betti. "Acho que as coisas hoje são mais cobradas, as insatisfações aparecem mais. É claro que todo mundo deseja ter uma família bacana e estável. Mas o fato é que o ser humano não é assim tão simples."

 

E se a vida fosse uma novela?

 

Bem-humorada e animada com a empreitada que tem pela frente, Lícia Manzo conta uma anedota: quando vai, por exemplo, à manicure e perguntam quando A Vida da Gente vai ao ar e ela responde "entra no lugar de Cordel Encantado", a decepção da interlocutora é indisfarçável. "Dizem ‘ah, então quer dizer que Cordel vai acabar, é?’", relata, às gargalhadas.

 

A autora sabe que não será fácil substituir uma novela tão querida do público. "Mas claro que é melhor receber o horário com boa audiência", pondera.

 

Não chega a ser proposital, mas é curioso que A Vida da Gente, que estreia dia 26, proponha um choque de realidade, o que é oposto de Cordel, um verdadeiro conto de fadas eletrônico. A intenção de Lícia é falar das relações pessoais e fazer mesmo uma novela que, enfim, poderia ser sobre "a vida da gente" - a dela, a minha e a sua, leitor, mas é claro que com o indispensável verniz do folhetim. "Gosto de pensar sobre as relações humanas, me interesso por gente", explica a autora. "São situações de família em trânsito, que se decompõem e se recompõem", diz.

 

O tema esteve presente no trabalho anterior de Lícia na Globo, o seriado Tudo Novo de Novo (2009). Com Julia Lemmertz e Marco Ricca como protagonistas, mostrava o encontro de um casal a partir de duas separações anteriores. Os desdobramentos dos encontros que seguimos tendo na vida, sem grandes reviravoltas rocambolescas, são os que mais atraem a autora e é com eles que ela tempera a vida dos personagens. A ideia é que sejam tipos que a gente reconheça por aí, como ensinou o mestre Manoel Carlos, de quem Lícia é grande admiradora.

 

Há também um elemento forte na trama de A Vida da Gente, o coma da protagonista. "É como um meio-termo entre a vida e a morte. Acho que esse reencontrar da vida que seguiu sem você é o centro da novela", anota.

 

Com direção de núcleo de Jayme Monjardim e cenas gravadas em Bonito (MS), Ushuaia, na Patagônia, e Buenos Aires, a novela é ambientada num cenário pouco explorado pelas novelas globais - Porto Alegre e Gramado. Além de terem recebido a equipe para gravações, as cidades ainda foram representadas numa cidade cenográfica no Projac. O sotaque, entretanto, não está no pacote - o cenário é tipicamente gaúcho, mas a família de Ana é paulista.

 

 

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