Keiny Andrade/AE
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Chico Buarque na telinha

Músicas do compositor inspiram microssérie na Globo, sob o comando de grandes diretores

Adriana Del Ré, do Jornal da Tarde

25 de dezembro de 2010 | 08h09

SÃO PAULO - Na região central de São Paulo, o intenso vai-e-vem de carros e pessoas já foi incorporado ao cenário do Viaduto Major Quedinho. Mas naquela noite de quinta-feira, 11 de novembro, os transeuntes não conseguiram cumprir seu destino no tempo habitual.

Afinal, veículos, câmeras e funcionários da Globo davam indícios de que alguma coisa estava na iminência de acontecer bem ali, em cima do viaduto. Foi o que bastou para que curiosos começassem a se aglomerar atrás dos cordões de isolamento.

De repente, o ator Vladimir Brichta despontou de dentro de uma tenda improvisada numa das calçadas e foi ao encontro do diretor Bruno Barreto, em busca das últimas orientações de cena. Enquanto isso, no outro lado da rua, a atriz Alinne Moraes aguardava pacientemente o comando de “gravando!” - ora retocando a maquiagem, ora sentada com os fones de ouvido ligados em seu iPod. “Eu estava ouvindo rock pauleira”, disse Alinne, depois.

A atriz gosta que a trilha sonora de seus momentos de concentração tenha relação com o papel que está vivendo. “Vera é uma personagem forte. Então, eu precisava ouvir muito rock”, disse ela, referindo-se à prostituta que interpreta na nova microssérie da Globo, Amor em 4 Atos, inspirada na obra de Chico Buarque e que vai ao ar de 11 a 14 do mês que vem.

“É aquela que fazia a Luciana (da novela ‘Viver a Vida’)? Ela é bonita, né?”, perguntou uma senhora à sua amiga, ao avistar Alinne Moraes ao longe, enquanto tentava conseguir, entre as cabeças de outros curiosos, uma visão melhor dos atores famosos. Naquele momento, a atriz, de casaco prateado, saia preta e botas de cano alto, preparava sua personagem para ser admirada pela primeira vez por Ary, papel de Brichta.

Nessa mesma cena, Ary acabara de sair transtornado de casa, após uma briga feia com a mulher, Selma (Camila Morgado). Ele resolve caminhar sozinho pelo viaduto, quando um tumulto no meio da rua lhe tira a atenção das próprias agruras. Um homem havia sido morto num crime passional e seu corpo ainda estava estendido no chão, coberto por um plástico. Uma roda de pessoas se forma em torno do falecido. Vera se junta aos curiosos. Ary mira a confusão, mas seu olhar recai direto sobre a bela jovem.

“É uma personagem iluminada, que lhe rouba a atenção naquele primeiro momento que ele a vê. Mas nada entre os dois acontece ali”, destaca Vladimir. A cabeça de Ary está cheia demais para flertes. A madrugada avança. Vera encontra Ary num bar, o aborda e ele, assustado, foge. Mas o destino os coloca frente a frente de novo, horas mais tarde: bêbado, Ary se mete numa briga, é colocado a pontapés para fora de uma boate e é resgatado da sarjeta por Vera.

“Ele não sabe que ela é garota de programa. Acha que tirou a sorte grande”, conta o ator. Eles passam a noite juntos, mas no dia seguinte ela lhe cobra dinheiro por seus serviços. “Vera é uma mulher marcada por grandes desilusões amorosas”, diz Alinne. Não quer saber de ninguém. Ela é prostituta por opção. É “dessas mulheres que só dizem sim”, como traz a letra da música Folhetim, de Chico Buarque, que serve de inspiração para o primeiro episódio protagonizado por Alinne e Brichta.

Segunda chance

Com isso, o coração de Ary fica esfacelado. Mas essa história não acaba no episódio Folhetim. Continua em As Vitrines, outra música de Chico Buarque mostrada em Amor em 4 Atos. Também dirigido por Barreto, As Vitrines mostra Ary obcecado por Vera, ao ponto de pedir a permissão dela para admirá-la à distância.

“Ele está seduzido por aquela imagem”, diz o ator. Aos poucos, a prostituta vai baixando a guarda. “Quando Vera vê Ary na vida dela, não quer acreditar. Mas eles acabam ficando mais próximos e ela dá uma segunda chance à vida”, conta Alinne, que já havia trabalhado com Brichta na novela Coração de Estudante (2002, da Globo) e no filme Fica Comigo Esta Noite (2006).

Amor em 4 Atos faz parte de um projeto idealizado por Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos autorais de dez canções de Chico Buarque. Para a série da Globo, cinco delas vão abastecer um total de quatro episódios: as já citadas Folhetim e As Vitrines (sob a batuta de Bruno Barreto), além de Construção e Ela Faz Cinema (que, juntas, vão ajudar a construir a narrativa de um único episódio, com direção de Tadeu Jungle), e Mil Perdões, que será dirigido por Roberto Talma, responsável também pela direção-geral da microssérie. “É fácil usar uma canção de Chico para contar uma história”, acredita Rodrigo Teixeira.

A produção também marca a estreia de Bruno Barreto na televisão aberta. “Há muito tempo, eu estava querendo fazer algo na TV. Sou fã de televisão desde a década de 70, da primeira versão da novela Selva de Pedra, Pecado Capital...”, destaca Barreto. Para ele, hoje existem produções televisivas que buscam a inovação, mas pecam ao deixar de lado a tradição de contar uma boa história. “Tenho um grande respeito pelo melodrama. É um gênero muito bom”. É o que Barreto pretende preservar nos dois episódios que pilota em Amor em 4 Atos.

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