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'Chernobyl', que acaba nesta semana, tem muitas invenções, mas isso não importa

Minissérie da HBO toma algumas liberdades ao rever o pior desastre nuclear da história, que ocorreu em 1986, na antiga URSS, mas mantém a verossimilhança e o fascínio; veja trailer

Henry Fountain, The New York Times

06 de junho de 2019 | 03h00

A primeira coisa a ser compreendida sobre a minissérie da HBO, Chernobyl, que conclui sua corrida de cinco partes na sexta, 7, é que muito é inventado. Mas aqui está a segunda e mais importante: isso realmente não importa.

A explosão e o incêndio no reator da Unidade 4 de Chernobyl em 26 de abril de 1986 foi um evento bastante confuso e sombrio, uma bomba radioativa “suja” em uma escala para a qual ninguém – certamente nenhuma pessoa na União Soviética – estava preparado.

Continua sendo o pior desastre na história da energia nuclear, matando mais de 30 pessoas inicialmente (e mais nos anos que se seguiram, embora os números sejam muito controvertidos) e espalhando a contaminação radioativa por grandes áreas do território soviético e europeu.

No período de pânico que veio logo após, e nos meses de crise e confusão até acabar, sete meses depois, o sarcófago de concreto e aço que sepultou os restos letais do reator, os heróis e vilões são contados em centenas, e o elenco de apoio em centenas de milhares.

Os produtores da minissérie não atenuaram o desastre (às vezes, a sanguinolência vai longe demais: as vítimas da radiação em geral ficam cobertas de sangue por algum motivo). Em vez disso, simplificaram. Eles deixam o desagradável em paz, mas as exigências de Hollywood e dos orçamentos de produção pesaram sobre a parte complicada.

Isso não quer dizer que não existam muitos toques de verossimilhança. A cena do telhado, na qual os recrutas têm apenas alguns segundos para atirar detritos radioativos no chão, é tão sobrenatural quanto deve ter parecido para aqueles que lá estiveram há três décadas. E a sala de controle da Unidade 4 é fielmente recriada, desde os mostradores das barras de controle nas paredes até os casacos brancos e as tampas usadas pelos operadores. (Quando visitei a sala de controle adjacente à Unidade 3 há cinco anos, tive de usar a mesma estranha roupa, que mais parecia apropriada para uma padaria do que uma usina nuclear.)

Mas se você não soubesse muito sobre Chernobyl, poderia ser desculpado se, depois de assistir, pensasse que toda a resposta e limpeza foram feitas por duas pessoas, Valery Legasov e Boris Shcherbina, auxiliados por uma terceira pessoa, Ulana Khomyuk.

Você também poderia ser perdoado se pensasse que todos eram personagens reais. Legasov e Shcherbina eram reais, embora seus papéis tivessem sido distorcidos e amplificados para atender à necessidade do roteiro de manter as coisas em movimento. Khomyuk, de sua parte, foi totalmente ficcional, e suas ações forçam a credulidade, desde viajar a Chernobyl, sem ser convidada, para investigar o acidente até estar na presença de Mikhail Gorbachev no Kremlin, não muito depois.

Os produtores mencionam com alguma trivialidade no final que Khomyuk era um personagem criado para representar todos os cientistas que ajudaram a investigar o desastre. Ok. Mas grande parte do resto de Chernobyl também recebe o tratamento simplista de Hollywood.

Há os bravos bombeiros condenados, que ignoram os perigos da radiação que encontraram (embora ninguém tenha escalado os destroços do reator, como retratado na série; eles estavam trabalhando no telhado para evitar que o incêndio se espalhasse para a Unidade 3, não danificada).

Os corajosos garimpeiros, trazidos para escavar sob o reator para impedir o colapso, se despindo para fazer o trabalho (a série não diz isso, mas seu trabalho acabou em grande parte sendo a troco de nada). Os pilotos de helicóptero, práticos e diretos, arriscam-se a ser contaminados pela doença da radiação ao despejar suas cargas de chumbo, boro e areia sobre o reator (embora um helicóptero tenha caído, matando sua tripulação, esse foi um acidente que aconteceu meses depois, e a radiação nada teve a ver com isso).

Eu poderia continuar. Nem me deixe começar a falar sobre a luz azul do reator exposto brilhando no céu noturno no primeiro episódio. Sim, os reatores nucleares podem produzir uma tonalidade azul, a partir de algo chamado radiação Cherenkov, mas não, não há como a Unidade 4 parecer com o “Tributo à Luz” em Lower Manhattan no aniversário de 11 de setembro.

No final, porém, nada disso realmente conta. Isso porque a minissérie parte de uma verdade básica – que o desastre de Chernobyl foi mais sobre mentiras, enganos e um sistema político em decomposição do que sobre má engenharia ou péssimo gerenciamento e treinamento (ou, ainda, se a energia nuclear é inerentemente boa ou má).

Chernobyl é sombria apenas em parte em função de toda destruição e morte. A necessidade de mentir constantemente (ou lidar com as mentiras dos superiores) pesa sobre seus personagens tanto quanto todo o chumbo lançado sobre o reator. Sim, essa verdade básica também é simplificada, especialmente no episódio final, que retrata o julgamento de três funcionários de usinas de energia.

Eu não quero comentar muito sobre tais cenas, embora deva lembrar que o termo nerd “coeficiente de vácuo positivo” – uma das falhas de projeto do reator – foi pronunciado. As cenas têm muita tensão e estão entre as melhores da minissérie. Mas elas parecem mais tiradas das cenas de filmes sobre tribunais americanos do que da jurisprudência soviética. A ideia de alguém falar a verdade ao poder nessa corte parece tão improvável quanto qualquer outra coisa em toda a Chernobyl.

Os espectadores podem se afastar de Chernobyl percebendo que, juntas, pessoas e máquinas podem fazer coisas horríveis – como criar uma catástrofe nuclear para a eternidade. Se eles também saírem compreendendo que, nesse caso, tal resultado era mais culpa de um governo e de seus burocratas, tanto melhor. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

 

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