Cauã Reymond vive sedutor em 'Amores Roubados'

Ator fala sobre minissérie que estreia em janeiro e diz que 'se desliga da própria figura' para driblar os efeitos da fama

João Fernando / Rio, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 20h29

"Eu sou um deus" foi um dos mantras que Cauã Reymond ouviu durante os quase dois meses que passou trabalhando no Nordeste. Mas não se trata de um surto de narcisismo do ator de 33 anos. O verso em questão faz parte da letra de I Am a God, canção do rapper norte-americano Kanye West que ele escutava para buscar inspiração antes de entrar no set para interpretar Leandro, o protagonista sedutor de Amores Roubados, minissérie da Globo que estreia no dia 6 de janeiro.

Na trama, inspirada no livro A Emparedada da Rua Nova, do pernambucano Carneiro Vilela, Reymond encarna o sommelier de uma vinícola à beira do Rio São Francisco que, entre uma taça e outra, encanta as moças da região. Contratado por Jaime Favais (Murilo Benício), dono do negócio, Leandro vai se envolver com Isabel (Patrícia Pillar), mulher do empresário, e com Antônia (Isis Valverde), filha do casal. De quebra, ele também terá um romance com Celeste (Dira Paes), casada com Cavalcanti (Osmar Prado), um dos poderosos da cidade.

Apesar do papel de garanhão e do histórico de atuação na televisão, o carioca jura não se enxergar como um galã. "Eu não me compro assim, não, bicho. Quando acordo de manhã, não acredito nessa brincadeirinha. O cabelo é ‘toin oin oin’. Tem de tomar uma ducha se estiver grande, não gosto de usar boné", diverte-se.

Para Cauã, a imagem que seus personagens passam não é exatamente a que ele associa a seu trabalho - tampouco a si mesmo. "Acho que o galã preenche uma função dramática. Às vezes, um cara bonito pode fazer outro papel."

O próprio não sabe definir qual impressão o público, que o acompanha em diferentes produções e comerciais, tem sobre ele. "Você analisa uma pessoa pelo conjunto, assim como analisa uma mulher pelo conjunto, pelo bom humor, pelas pernas, pelo decote, se ela se veste bem, pelo perfume. Acho que me veem como um conjunto, pelo que faço na TV e no cinema", diz.

Cauã diz que os olhares para conquistar as mulheres em Amores Roubados disfarçam o sentimentos de Leandro. O personagem teve um passado difícil por ser filho de uma prostituta, Carolina, vivida por Cássia Kis Magro. Criado em São Paulo, ele volta ao Nordeste depois de fazer a limpa na conta da mãe. "Ele tem uma coisa psicológica mais profunda do que a sedução pela sedução. Acho que a sedução, em muitos momentos, tem um lugar de baixa autoestima. Faz com que você seduza os outros para preencher um vazio. O caminho do Leandro vai muito mais por aí."

Cheio de convites para atuar, o carioca aceitou dar expediente na minissérie ao se sentir atraído pelas complicações do personagem e o destaque que ele tem na história. "Ele tem um arco dramático muito trágico. Foi o que me chamou para fazer. Hoje, na televisão, poucos autores escrevem papéis masculinos. A gente tem uma tendência de papéis mais femininos, mesmo que seja para homens, no caso dos gays. Toda novela tem um gay, e são personagens riquíssimos", analisa.

Nos cerca de dois meses passados no Nordeste, onde gravou 90% das cenas, Cauã não teve contato com família e amigos e conheceu um público diferente do que está acostumado a lidar no Rio, onde não é tão tietado. "A gente foi muito bem recebida. Mas, em alguns momentos em que eu andava, me sentia o Antônio Conselheiro, ou um líder religioso para ir à academia. Ia e voltava com muita gente. E eu no jogo de cintura. Eles iam por curiosidade, para tirar foto, conversar e tirar outra foto porque o cabelo não estava bom no dia anterior", relembra.

A escolha do ator foi manter a paciência. "Foi um trato que fiz comigo mesmo: ‘Vou ficar muito tempo, não posso ficar enfurnado’. Eu tenho tendência a ser simpático, não vou ficar recusando foto. Claro que, se eu estiver com a boca cheia ou tiver acabado de acordar eu pergunto se a pessoa se incomoda de fazer depois. Eu vou até a mesa da pessoa se eu prometi. Em Paulo Afonso (BA), tinha gente às 5h30 esperando para tirar foto. Você já acorda meio mal-humorado porque são 5h30. Mas aí, você tira a foto", explica ele, que, enquanto conversava com o Estado em um restaurante carioca, foi interrompido pelo maître, que queria um autógrafo.

Longe de casa, ele confessa que o que mais sentiu falta foi da família. O jeito foi fazer videoconferências com Sofia, sua filha de um ano e meio, que ainda não conversa. "Ela estava muito pequena, mas já te vê. É importante. Na época, ela tinha um ano e dois meses", derrete-se. O ator garante que o isolamento durante as gravações lhe fez bem. "Você sente falta de tudo. Mas é importante artisticamente ter esse tipo de processo. Você vai criando uma relação diferente com a equipe."

O período de imersão de Amores Roubados coincidiu com o término do relacionamento com a atriz Grazi Massafera. Por causa disso, surgiram rumores de que ele havia engatado um romance com Isis Valverde, companheira de cena, no Nordeste. No lançamento da série, no Rio, os dois não confirmaram a história. Na ocasião, Cauã fez graça ao falar com os jornalistas. "Espero que essa história dê ibope para a série."

Ele conta ter criado uma defesa interna contra as notícias e especulações sobre a vida íntima. "Eu não me vejo mais na notícia, não me vejo mais como personagem. Não é mais a pessoa física, é outra pessoa. Isso acalma a alma. Quando você se mistura com isso, fica nervoso. Você chega a um limite e diz: ‘Não sou eu’."

Cauã reconhece que a projeção dada pela TV mudou sua vida e dos que o rodeiam. "Deixei de ir a praia, de sair à noite. Nunca fui de sair à noite. Na última vez que saí à noite, há alguns anos, tinha tanto cara querendo brigar comigo. Eles te dão ombrada. Meu amigo tomou tanta ombrada que a gente até riu. Isso me tole."

Ele, porém, sabe dos benefícios de estar em evidência na telinha. "A TV me dá um segurança financeira e a forma como conduzo as minhas finanças. Eu sou taurino, cuido bem. Dinheiro não aceita desaforo. Levo isso comigo", ensina o carioca, que afirma estar colhendo frutos do passado. "Fiz muito baile de debutante quando era mais novo e não tenho vergonha nenhuma disso. Fiz muito jabá no interior de São Paulo. Esse esforço de deixar de passar o final de semana com os amigos e estar em alguma cidade do interior em um quarto de hotel me rendeu hoje fazer escolhas artísticas que me interessam."

Mesmo com o sucesso aqui, Cauã jura não se esforçar para uma carreira fora do País. "Se você for ver nossos atores que têm destaque no cenário internacional, a Alice (Braga), Wagner (Moura) e o Rodrigo (Santoro), todos tiveram filmes que os conduziram para fora. Se eu fizer um filme que tenha esse destaque, claro que tenho interesse. Mas abandonar esses ótimos projetos que estão surgindo para mim no Brasil, não. Acho que as pessoas com que trabalho aqui não desmerecem em nada. Os trabalhos estão no mesmo nível do que está lá fora", justifica ele, sondado para longas menores em outros países. "Não tive data."

Em 2014, ele começa a gravar O Caçador, série policial da Globo, para a qual está tomando aulas de tiro. "Faço um policial que, no primeiro capítulo, é preso e mandado para fora da polícia. Ele passa os capítulos provando a sua inocência e se tornando um caçador de recompensas", adianta.

De olho no cinema

Arredio no início da entrevista, Cauã desencosta do sofá e abre um sorriso quanto o assunto é cinema. Nos últimos três anos, ele tem sido disputado pelas produções nacionais. “Eu batalhei tanto para encontrar um lugar de reciclagem. Eu adoro fazer televisão, fazer novela. Vou fazer novela sempre, mas adoro fazer minissérie e cinema.” Mesmo sem números expressivos de bilheteria de longas recentes de que participou, como Reis e Ratos, Meu País e Estamos Juntos, o ator não se importa. “Eu não faço cinema por dinheiro. Faço por tesão. Não que a gente não faça televisão por tesão.”

Entusiasta da sétima arte, ele está se aventurando em outras searas da indústria. “Estou entrando como produtor associado e coprodutor em alguns filmes. Estou produzindo meu próprio longa. Ano que vem, entro como coprodutor no Língua Seca, com o Homero Olivetto. Sou coprodutor associado no Alemão (sobre o complexo de favelas carioca). Faço o chefe do tráfico de drogas. Eles me chamaram para fazer um dos policiais e eu pedi para fazer o bandido. Frequentei o morro, conversei com pessoas que participaram do tráfico e com a polícia.” Em 2014, Cauã também será visto em Tim Maia, cinebiografia do cantor. “Sou o narrador do filme e melhor amigo do Tim. Foi sedutor, como narrador, estar ali como voyeur, acompanhando o Tim.”

Segundo ele, atuar nos bastidores foi uma maneira de movimentar a carreira. “Enveredar pela produção está me dando bastante tesão, sair daquele lugar passivo de ficar esperando o convite da vida aparecer”, analisa. Com outras ambições, Cauã se diz inspirado pela atitude do ator Kevin Spacey, que escreveu uma carta para Woody Allen pedindo um papel. “Se você for escrever sobre o Kevin Spacey, escreva sobre as cartas que vou mandar. Talvez um e-mail. Desde o Fernando (Meirelles) ao Walter (Salles). Também tem o Karin (Aïnouz), a Laís Bodanzky, entre outros.”

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