FÁBIO COSTA/ESTADÃO
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Cauã Reymond fala da carreira e da minissérie ‘Justiça’, que estreia no dia 22

O ator conta como se prepara para ser D. Pedro I em filme de Laís Bodanzky

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2016 | 06h00

Este domingo, 14, Dia dos Pais. Para todo lugar que você se virar, neste Brasil imenso, vai topar – em outdoors, displays e metrô – com a imagem de Cauã Reymond, de cueca, saltando na água. O pai de Sofia, 4 anos – com Grazi Massafera –, faz a propaganda de conhecida marca de cuecas para o Dia dos Pais. Numa entrevista por telefone, do Rio, Cauã, de 36 anos, conta que precisou saltar umas 20 vezes na água – em São Paulo. “Fiquei com as costas vermelhas, pelo sol e pelo impacto.” Dedicado, focado, Cauã leva muito a sério tudo o que faz, até publicidade. Mas ele quer falar de sua participação na minissérie Justiça, que vai ao ar, na Globo, na segunda, dia 22. É sua nova, a terceira, parceria com José Luiz Villamarim, que o dirigiu em Avenida Brasil e em outra minissérie, Amores Roubados. Cauã faz um ex-presidiário. Por conta do papel, um ex-detento que ficou privado de sol por sete anos, Cauã está ‘branquinho’. “Tenho evitado sair, minha vida anda indoor”, brinca. Ator sofre. O carioca Cauã tem se privado de duas coisas de que gosta – praia, surfe. “Faz parte.”

Ele ainda tem quatro ou cinco cenas para filmar, mas conseguiu uma licença da Globo e está indo a Portugal nesta semana, como parte da pesquisa para um próximo trabalho. Por meio da Serena Filmes, sua empresa com Mário Canivello, e associado à Buriti Filmes de Laís Bodanzky, que vai dirigir, Cauã será Dom Pedro I, num filme sobre a juventude do príncipe português que, às margens do Ipiranga, gritou “Independência ou Morte!”, e naquele 7 de setembro de 1822 iniciou uma nova etapa da história do Brasil. O produtor português Luiz Urbano juntou-se ao projeto e Cauã informa que parte do dinheiro já está captada, mas a filmagem deve ocorrer somente no segundo semestre de 2017. “Laís quer assim. Quer mais tempo para trabalhar no roteiro (com o marido, Luiz Bolognesi). Eu vou agora (a Portugal) porque preciso. O projeto nasceu da gente, Canivello e eu, e quero conhecer o palácio de D. Pedro, o lugar em que ele combateu com o irmão, D. Miguel. Quero conhecer os lugares, sentir o clima. Acho que será bom para a criação do personagem.”

Há 14 anos, Cauã começou – “Muito verde”, define – em Malhação. Participou de uma temporada e meia da novelinha e estourou, no horário das 7, com Da Cor do Pecado. Desde essa época, tem feito novelas e filmes que lhe permitiram mostrar que o moço bonito tinha algo mais – talento. A par de novelas importantes como Avenida Brasil (de João Emanuel Carneiro, mesmo autor de Da Cor do Pecado), Cauã também filmou com Carlos Reichenbach, José Eduardo Belmonte e André Ristum, todos autores de ponta, destacados. Ganhou confiança – e credibilidade. Está adorando fazer Justiça. “A Manuela (Dias) tem uma forma inovadora de escrever. Estou logo no primeiro capítulo, mas minha história, de verdade, só vai aparecer mais tarde. Cada ator, e tem gente muito fera no elenco, tem o seu capítulo, o seu personagem, mas aparece como coadjuvante de outras histórias. É muito bacana”, ele reflete.

“É uma forma de fugir do protagonismo. Em geral, a dramaturgia de TV tende a contar histórias dentro da mesma matemática, usando o ator de forma massiva, como protagonista absoluta. A gente termina ficando engessado, sem muita possibilidade de mudar. E aí você encontra um texto como o da Manuela e diretores como o Zé (Villamarim) e o Walter Carvalho. Walter é aquele monstro, um dos maiores fotógrafos do mundo. Tem um senso estético muito aguçado. O Zé também tem. Então, os dois juntos, é um sonho para o ator.” As imagens são captadas em HD, com câmeras digitais de alta definição, mas Cauã usa, indistintamente, o verbo filmar. “Para mim, estamos filmando, porque é tudo feito com muito cuidado e meticulosidade. Filmamos poucos planos por dia, já participei de filmes que iam mais rápidos”, ele conta.

Seu personagem vai preso porque cometeu eutanásia, matando a mulher, uma bailarina – interpretada por Marjorie Estiano – que ficou tetraplégica ao ser atropelada por um motorista que fugiu. O marido vai preso, é condenado e, quando sai, consumido pela vingança, vai atrás do atropelador. “É um político corrupto. Não creio que o que o Maurício faz (é o nome do personagem) seja correto, mas o que o político corrupto faz também não é, então se cria um conflito ético muito interessante.” Villamarim e Carvalho estão filmando em planos-sequência. “Até nisso a minissérie vai ser ousada, porque essa coisa de não ter muita decupagem não é frequente na TV. A televisão corta muito, e a emoção flui de forma mais intensa nos planos longos. Há uma troca sutil no set. O Zé (Villamarim) é daqueles diretores que não ficam dizendo exatamente o que querem, mas é incrível como se cria uma sintonia e a gente sabe, simplesmente sabe. E o que ele quer é sempre o melhor para a cena.”

Cauã diz que viveu outra experiência singular, e também na TV. Dia 2 de janeiro vai estrear Dois Irmãos, a minissérie que Luiz Fernando Carvalho adaptou do romance de Milton Hatoum. “Cara, foi outra experiência incrível. Sinto-me privilegiado, porque a Globo tem me dado oportunidade de fazer esses trabalhos que são especiais. É o que quero, é o que procuro e eles respeitam. Tem sido muito bom.” A Globo será parceira no projeto sobre Dom Pedro. Bem antes disso – mas Cauã não sabe exatamente quando –, deve estrear A Curva do Rio Sujo, de Felipe Bragança, que ele interpreta (e do qual também é coprodutor). “É bem legal, uma história sobre disputa de terras. Meu personagem é obscuro, um matador de índios.”

Vive montado na moto. Cauã teve um acidente feio na moto de Reza a Lenda, longa de Homero Olivetto. Poderia ter traumatizado. E agora? “Peguei o jeito, mas a moto também era diferente”, diz. Já que não tem ido à praia, ele lê. O quê? “Estou lendo Os Doze Contos Peregrinos, de Gabriel García Márquez. Genial.” E filmes. “Vi Julieta, que gostei mais na segunda parte, mas se o (Pedro) Almodóvar me chamar eu vou na hora”, brinca. Nacionais? “Quero muito ver o Big Jato.” E Se Cláudio Assis o chamasse? “Ele já me chamou, mas estava comprometido com uma novela. Só espero que me chame de novo.

Formato narrativo da minissérie é provocação, esclarece diretor

No dossiê de imprensa que a Globo criou para Justiça, o diretor José Luiz Villamarin esclarece – “Não se trata de uma discussão forense. É mais uma provocação para o público. Saber o que é justo é uma questão particular.” Justiça é uma minissérie de 20 capítulos. O primeiro vai ao ar na segunda, 22. Depois, e ao longo de cinco semanas, serão apresentados os demais capítulos. Segunda, terça, quinta e sexta. Na quarta, não.

O texto é de Manuela Dias, com a colaboração de Mariana Mesquita, Lucas Paraizo e Roberto Vitorino. Villamarin é o diretor artístico, Walter Carvalho, Luisa Lima e Isabella Teixeira são codiretores. A história começa com quatro prisões numa única noite, no Recife, em 2009. Uma mãe que vingou a morte do filho. Um homem forçado a tirar a vida da mulher que ama. O racismo da polícia que atingiu uma jovem que passou no vestibular. Outra mulher presa por defender o filho de um cachorro. Os efeitos dessa trágica coincidência vão se fazer sentir por mais que os sete anos a que cada um(a) é condenado(a).

“Não é uma minissérie sobre o sistema penal, tratamos sobre o que é justo. São histórias ligadas por um tema e por uma cidade”, explica a autora. E o desafio de Manuela Dias é compor esse mosaico intercalando as tramas. Cada ator, em cada núcleo, é protagonista de seu episódio, mas aparece como coadjuvante em outro, ou outros capítulos. Elisa e Vicente, Fátima e o casal Douglas e Kellen, Débora e Rose, Maurício e Antenor. O extenso elenco inclui, além de Cauã Reymond, Débora Bloch, Jesuíta Barbosa, Camila Márdila, Adriana Esteves, Luiz Carlos Vasconcelos, Ângelo Antônio, Leandra Leal, Letícia Sabatella, Júlio Andrade e outros, interagindo o tempo todo.

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