TV Globo/Divulgação
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Cauã Reymond e Cléo Pires estrelam nova série

'O Caçador', que estreia no dia 8, tem direção de Heitor Dhalia e José Alvarenga

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2014 | 03h00

Num encontro com o repórter no restaurante Mare Nostrum, no Leblon, Heitor Dhalia admite. “Depois do fracasso de Serra Pelada nos cinemas, estava me sentindo um m... Além de caro, o filme foi feito com muito empenho de toda a equipe. Vera (a também cineasta Vera Egito, sua mulher e roteirista) e eu fomos fundo. Bate aquele desânimo - onde foi que erramos? E aí o Serra Pelada estourou na TV, com média de 20 pontos, seis a mais que o horário costuma dar. Foi como tirar um peso do peito.”

Dhalia conversa com o repórter sobre sua nova parceria com José Alvarenga, que editou Serra Pelada para a TV. O próprio Alvarenga chega em seguida para ampliar a conversa sobre cinema e televisão. Ele diz que não fez nenhum milagre na edição de Serra Pelada - “Já estava tudo no material filmado pelo Heitor, que é muito forte.” Elogia - “Serra Pelada deu sequência ao sucesso de Amores Roubados (a minissérie anterior do horário, com Cauã Reymond). É uma tendência mundial. Nos EUA, todo mundo diz que o melhor cinema, hoje, está sendo feito na televisão. Aproveitando o horário, pode-se criar entretenimento adulto. A Sophia Charlotte virou uma deusa na Globo.”

Alvarenga refere-se à atriz, ex-Malhação, que protagonizava as tórridas cenas de sexo com Juliano Cazarré. Ambos - Alvarenga e Dhalia - estão unidos agora em um novo projeto. O Caçador estreia na Globo na sexta, dia 11. A série sobre um policial renegado é uma criação dos escritores Marçal Aquino, Fernando Bonassi e do próprio Alvarenga. Está prevista para uma temporada de 14 episódios. Alvarenga dirige os seis iniciais, Dhalia outros cinco, um terceiro diretor (Luiz Henrique Rios) assina o 12.º e Alvarenga fecha os dois restantes. Embora o essencial da trama, o conflito pai/filho, se resolva no desfecho, O Caçador teria (tem?) fôlego para prosseguir. Daria para reabrir, avaliam os roteiristas.

“Estamos trabalhando nisso há três anos e não vou entregar o ouro dizendo que desfecho é esse. Trata de relações familiares, de traição”, diz Aquino. Cauã Reymond faz o protagonista, André. Quando O Caçador começa, ele está saindo da cadeia, onde ficou três anos, condenado por um crime que não cometeu. Obcecado por vingança, o ex-policial se converte num caçador de recompensas. O mundo todo está contra ele. A mãe o culpa pela morte do pai policial. O irmão delegado lhe move implacável perseguição - André está tendo um affair com a mulher dele, Cléo Pires.

Em cada episódio, o caçador segue uma presa - integrantes da Máfia italiana, coreana, nazistas. Aquino confessa que foi divertido brincar de ‘cinema’, absorvendo lições de clássicos de Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. Bonassi e eles não tentaram copiar, mas sabem que, no imaginário do público, o mafioso e o nazista têm uma história construída pelo cinema. “Cada caso que o André resolve, como caçador de recompensas, é uma parte da vida dele que também está se resolvendo”, diz Alvarenga. Os primeiros episódios desenvolvem, em paralelo, outra busca pela ex-prostituta que foi amante do pai e virou crente. Nanda Costa entra no 6.º episódio. Recusa seu passado, mas é nele que André encontra a chave para resolver o enigma de sua vida.

Heitor Dhalia virou o maior fã das séries norte-americanas. “Bicho, você tem de ver o Breaking Bad”, exorta o repórter. “É a melhor coisa que tem por aí, atualmente.” Alvarenga concorda. “Se há uma crise de valores no mundo atual, ela é o tema da série. Ninguém presta, todo mundo é corrompido.” Tipo assim O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese? “Por que, você não gosta? Aquilo é maravilhoso. Além de bem filmado, como só o Scorsese sabe fazer, espelha a degradação do mundo, o poder corruptor do dinheiro”, acrescentam em uníssono. 

E Alvarenga acrescenta - “Estamos vivendo um momento muito especial. A Globo não está interferindo em nada no processo criativo de O Caçador. Estamos tendo toda liberdade para fazer cenas de sexo, mas também para falar de corrupção num nível que vai surpreender as pessoas. Não a grande corrupção que ganha o noticiário, por meio de denúncias da imprensa. Estamos falando das pequenas corrupções do cotidiano , que a todo momento confrontam as pessoas com noções de ética. Se todo mundo aceita um favor aqui, outro ali, como se manter íntegro, sem se comprometer?”, pergunta Alvarenga.

É o diretor de A Justiceira e A Força Tarefa. Alvarenga reflete sobre a relação entre cinema e TV. “Não é só essa coisa de filmar com película ou usar HD e achar que se está fazendo cinema. A chanchada dos anos 1950 e a televisão são herdeiras da tradição do rádio no Brasil. O que é o rádio senão a palavra desprovida de imagem? Na TV, a novela é muito falada e a imagem quase sempre reitera aquilo que o público já sabe ou está ouvindo nos diálogos. E o que é o cinema? Pegue os grandes diretores e eles constroem as cenas por meio de olhares, de gestos. Valorizam o silêncio. Existem cenas em que o silêncio vale mais que mil palavras. E é isso que o Heitor e eu estamos tentando fazer n’ O Caçador.”

Embora já tivesse contribuído no texto de outros trabalhos que dirigiu, é a primeira vez que Alvarenga coassina um roteiro (com Aquino e Bonassi). “Me apaixonei pela história e desde o início me envolvi muito. Os personagens foram se desenhando muito ricos e antes mesmo da aprovação do projeto eu procurei o Cauã (Reymond) para fazer o André. Ele leu os primeiros episódios e topou fazer. E nós passamos a escrever já para ele.”

Sexo

Em 2009, José Alvarenga foi considerado pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes. Na TV – na tela da Globo – e no cinema – quase sempre com participação da Globo Filmes –, ele já dirigiu grandes nomes do show biz nacional e por isso vale prestar atenção no que diz. Alvarenga diz que nunca viu nada comparável a Cauã Reymond. O carioca de 33 anos já virou um fenômeno. “Você vai filmar nas comunidades e as pessoas se descontrolam com a presença do Cauã. Vira um clamor. E o interessante é ver como ele reage a isso. Cauã não se inebria com o próprio sucesso. Não surta. (O diretor faz um movimento para baixo com as mãos). É o primeiro a acalmar as pessoas.”

Na coletiva de lançamento de O Caçador, numa boate do Copacabana, Cauã é o mais assediado pela imprensa. O repórter comenta o sucesso de Alemão, que, naquele momento – era o primeiro fim de semana do filme em cartaz –, havia feito mais de 250 mil espectadores. “Fico muito feliz porque era um absurdo que um diretor talentoso como o (José Eduardo) Belmonte não tivesse um grande sucesso de público.” A previsão do distribuidor (a Paris Filmes) era de que Alemão ultrapassasse 1 milhão de espectadores (isso estã ocorrendo neste final de semana). “Isso deve fortalecer o desejo da gente de fazer o Alemão 2.”

Em Alemão, Cauã faz o traficante Playboy, um criminoso. Em O Caçador, é o policial renegado André, que vira caçador de recompensas. Para o primeiro, Cauã teve de aprender as gírias dos traficantes. O segundo, ele explica, é uma história para quem gosta de adrenalina. “Fiz um treinamento especial com a força da polícia civil e era quase brincadeira de criança. Aprendi a atirar, assimilei as técnicas de invasão de locais que eles praticam, foi bem legal.” Embora tenha cenas gravadas no Projac – estúdio da Globo –, O Caçador passa-se quase todo em locações. “Elas dão cara nova ao produto e trazem vigor e realidade para toda a equipe”, explica Alvarenga.

Sexo na faixa das 11, quando O Caçador irá ao ar, a partir do dia 8, não é novidade, mas houve um incremento com o sucesso de duas atrações que passaram no horário neste ano – Amores Roubados, com o próprio Cauã, e Serra Pelada, com Juliano Cazarré. “O que é legal é que nessa faixa a gente começa a fazer uma TV adulta”, avalia Alvarenga. “O sexo é adulto.” Na trama, André/Cauã tem cenas íntimas com a cunhada, mulher de seu irmão, também policial. A personagem chama-se Kátia e é interpretada por Cléo Pires. “A Kátia é uma mulher com grandes dramas, mas que sempre escolhe pela vida. Acho que todo mundo tem válvula de escape, a dela vai para o lado destrutivo. A gente tenta segurar a onda, ela não consegue”, diz Cléo.

Tirar a roupa não é problema para ela. “Tudo vale a pena quando você está dentro da personagem. E o sexo mostrado com bom gosto é bonito.” Cauã tem umas dez tatuagens espalhadas pelo corpo, como André. Você vai vê-lo como nunca viu antes, nem em Amores Roubados. Diante da revelação, Cauã volta-se para seu diretor (Alvarenga) – “Você me falou que não ia aparecer nada...”

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