Catarina, a grande mala

Ela sofre desde os primeiros capítulos nas mãos do marido desnaturado. Veste-se como uma Maria-mijona e não acredita nem mesmo nos seus dotes culinários. Saiu de uma família relativamente bem-estruturada para formar a própria, disfuncional até o último segundo, mas ainda posa de moralista, condenando qualquer pessoa que saia do figurino. Vamos combinar uma coisa? Catarina é chata pra caramba.Nem mesmo o amor e o talento com que é interpretada pela atriz Lília Cabral resgatam Catarina do reino das Grandes Malas, em A Favorita. Está certo que a personagem representa um enorme contingente de mulheres brasileiras, submetidas a um casamento sem amor, carinho, respeito, nada. Mulheres que apanham na cara e encontram sempre um argumento para perdoar o agressor. Catarina sofre e o público aguarda, ansioso, por sua virada, a transformação da pata feia em pavão real. Até que a grande vingança se concretize e lave a alma das catarinas anônimas, muita humilhação há de rolar.Nada justifica a agressão física numa relação familiar. Mas Catarina nada faz para impedir que a mão pesada do marido desça, implacável. É como se ela dependesse da agressividade dele pra se sentir exercendo seu papel de mulher, mãe e dona de casa. Parece conversa de terapia, mas talvez a empatia da personagem caminhe nessa trilha esquisita. E Catarina vai granjeando tanta peninha, que ninguém parece perceber as hipocrisias em que a personagem se mete.Catarina quer, a todo custo, um ar condicionado em seu quarto. Seria ótimo, se ela fosse uma dona de casa carioca. Mas uma mãe de família paulista não é tão calorenta assim. Foi por ela sentir frio, aliás, que a atriz incorporou aquelas meias infames - por sugestão própria, segundo li neste caderno. Pra que, então, o ar-condicionado? Só pra mostrar o pobre papai Copola (Tarcísio Meira) empenhando um relógio de ouro e, depois, render mais uma cena de maldade gratuita de Leonardo, o Perverso (Jackson Antunes). Fraquinho. Personagem e intérpretes podem render muito mais.Ainda na Favorita, o sumiço do sotaque da caipira assanhada Maria do Céu (Débora Secco) não é o pior. Chocante mesmo é ver que Céu, com o jeito carioca de falar, adquiriu inteligência e esperteza. Por acaso, sotaque e Q.I. são sinônimos?e-mail: mvianinha@hotmail.com

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