ESTEVAM AVELLAR/DIVULGAÇÃO
ESTEVAM AVELLAR/DIVULGAÇÃO

Casal de lésbicas da novela ‘Babilônia’ vai provocar debate de maneira suave

Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro vivem as personagens; homossexuais também terão destaque em 'Sete Vidas', nova das 6

João Fernando, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 16h00

RIO - Não é só no Congresso Nacional que a discussão sobre o conceito de família está em xeque. Em Babilônia, novela das 9 da Globo, prevista para estrear no dia 16 de março, as novas configurações farão parte da história escrita por Gilberto Braga, João Ximenes Braga e Ricardo Linhares. Um dos pilares do debate será o casal Estela e Teresa, interpretado por Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro, respectivamente.

As duas lésbicas octogenárias vão causar frisson – na ficção e na vida real – ao oficializar a união na trama. Para agitar ainda mais o caso, as duas criam o neto de Estela, Rafael (Chay Suede), como um filho. Por ter duas mães e chamá-las assim, o jovem será discriminado.

Teresa, cuja função é trazer o tema para o público, também vai atuar contra o preconceito na novela. Dona de um escritório de advocacia, ela lutou pela libertação de presos políticos durante a ditadura militar. Na fase em que a trama se desenrola, 2015, ela será ativista pelos direitos dos homossexuais. 

“Minha personagem é totalmente humanizada e é um porta-voz desse avanços humanos. A gente tem de lutar contra isso, contra esse preconceito, as portas fechadas. São coisas grosseiras e desumanas, que fazem o ser humano sofrer. A dificuldade do papel é ser um porta-voz e não ser só politicamente correto”, analisa a atriz.

Fernanda garante não ter ouvido comentários negativos de quem soube do papel. “Acho que hoje ninguém mais se espanta com o fato de alguém ter sua opção sexual. Pode até fazer comentários particulares, mas a sociedade já caminhou bastante. Não como nós queremos. Mas, pelo menos, já vemos uma luz no fim do mundo.” 

Os autores reconhecem uma resistência do público, porém, creem que a rejeição não supera a aceitação. “Acredito que, no fundo, o País é mais liberal do que o País vê. Essas pessoas que não querem ver afeto entre duas pessoas do mesmo sexo na televisão são muito locais, elas ficam o dia inteiro ligando para a Central de Atendimento ao Telespectador. Os gays e os simpatizantes não se dão a esse trabalho, mas os conservadores ficam o dia inteiro. Isso dá um retorno que parece maior que a realidade”, explica João Ximenes.

Independentemente do fato serem duas importantes atrizes do teatro e da TV na missão, Nathalia Timberg aposta que qualquer artista poderia estar no papel. “Eu não me olho no espelho e digo: ‘Você é consagrada’. Sou uma artista como outra qualquer. Espero estarmos à altura do que nos foi proposto. Nós, que lidamos com comunicação, temos de ligar com humanidade. Não me interessa o enfoque na situação pela situação. Temos de tirar o enfoque do escândalo”, disse ao Estado.

Além da questão homossexual, está em jogo o relacionamento de pessoas da terceira idade. “Quando a gente fala amor, parece só o erótico, de cama. É o amor amizade de 40 anos envolvida com uma companheira”, avalia Fernanda Montenegro, que dará mais verdade às cenas por ser amiga e colega de Nathalia há quase seis décadas. “Reencontrá-la como minha mulher é uma coisa muito bonita”, derrete-se.

Segundo os autores, as sequências de amor do casal serão moderadas. “Vão rolar selinhos normais que as pessoas dão em qualquer lugar. Até pela idade delas, a gente não vai ver nenhuma cena mais ardente. Temos consciência de que a novela fala para todo mundo. Somos cuidadosos não só com temas gays, mas com qualquer tema, porque o público vai de 8 a 80”, reforça Ricardo Linhares. 

Ele explica que a equipe pensa na melhor maneira de passar a mensagem. “Somos autores progressistas e usamos a história para levar discussão de comportamento sem chocar ou chutar um assunto pelo único objetivo de chocar. Fazemos dentro de um contexto, e é óbvio que existe preocupação de não fazer nenhuma barbaridade.”

Fernanda, que já sofreu discriminação por ser atriz e foi perseguida na ditadura, afirma não fazer diferença da situação da personagem. “Eu não ponho em escalas. O preconceito está em todos os níveis, de olho, de cabelo, de classes sociais. A humanidade é cheia de preconceitos. Não podemos nos restringir à sexualidade. Temos uma frente de gente que se arrisca, que reivindica”, defende.

A atriz torce para que a novela abra a mente do público e traga o debate de maneira construtiva. “Há uma esperança de que a gente vá aprender a viver melhor no futuro, sem preconceitos, sem ferir as pessoas e respeitando a vontade de cada um.” / COLABOROU CRISTINA PADIGLIONE

Filme retrata casal gay discriminado

Com tema semelhante, o filme O Amor É Estranho, previsto para estrear na quinta, conta história de um casal cinquentão, formado por Alfred Molina e John Lithgow. Após décadas, casam-se no papel e encaram preconceitos. Um deles é demitido da escola católica onde trabalha e eles passam por problemas financeiros. 

‘Estranho condenar uma pessoa a ser homossexual para sempre’

Personagem interpretado por Regina Duarte na novela ‘Sete Vidas’ vai sofrer discriminação da própria família

Personagens homossexuais também terão destaque em Sete Vidas, novela das seis, que estreia nesta segunda-feira, 9. O mote da trama, assinada por Lícia Manzo, são filhos gerados a partir de doação de sêmen e uma das mulheres que darão à luz frutos dessa inseminação é Esther, uma lésbica vivida por Regina Duarte.

Casada com uma mulher, que já estará morta quando na história, ela teve gêmeos. O filho, Luís (Thiago Rodrigues), não sabe lidar com a orientação sexual da mãe e se casa com Branca (Maria Manoella), que tampouco gosta da condição da sogra. Por isso, ela tentará afastar os herdeiros da avó, por considerá-la má influência. 

Regina Duarte diz ter ficado impressionada com o barulho em cima da personagem. “Ter sido divulgado no início das gravações que ela é homossexual provocou um interesse imenso com o qual me assusto. Fico chocada que isso possa impressionar tanto as pessoas como se ela fosse uma marciana. Ninguém chega para descrever: ‘Conhece fulano, aquele que é gay?’ Eu jamais descreveria alguém pela postura sexual.”

A atriz não sabe se Esther se envolverá com alguém ao longo dos capítulos nem se a relação pode ser com um homem. “Não gosto de ficar rotulando personagem, falar dessa fase homossexual dela. Chamaria assim porque seria estranhíssimo condenar uma pessoa a ser homossexual para sempre. Você limita de uma heterossexualidade a que ela tem direito. Falar disso é bom e saudável”, avalia.


Regina não acha proposital que grandes atrizes estejam na pele de lésbicas em novelas simultaneamente. “É um a coincidência. Esse tema foi tabu durante anos, como a mulher trabalhar fora, a pílula anticoncepcional. Há um momento em que existe a necessidade de se falar de algumas coisas que não se falava antes. O que acho que é um momento de proposta de reflexão, como a gente vai vivenciar”, defende. Questionada se personagens homossexuais em produções de destaque da TV aberta ajudam a reduzir o preconceito do público brasileiro, a artista rebate com outra pergunta. “Você acha que mostrar um beijo gay pode acabar com a homofobia?”, deixa no ar. / J.F.

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