SBT/Divulgação
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'Casa dos Artistas' teve problemas na Justiça, mas marcou época

Reality show do SBT foi primeiro de confinamento 'ao estilo 'Big Brother'' do Brasil e chegou a sair do ar por conta de acusações de plágio há 20 anos

André Carlos Zorzi, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 10h00

A Casa dos Artistas, primeira grande aposta de Silvio Santos nos reality shows modernos, foi ao ar pela primeira vez em 28 de outubro de 2001, 'de surpresa'. Em seus primeiros dias, o programa chegou a ter sua exibição impedida por uma liminar na Justiça, após acusações de plágio, e diversas regras sendo alteradas já com o jogo em andamento. Logo, voltou ao ar e marcou época, popularizando nomes que seguem no noticiário até hoje, como Supla, Bárbara Paz e Alexandre Frota. O último, inclusive, desistiu da disputa e acabou sendo convencido a voltar no dia seguinte, repleto de informações externas.

Se 20 anos depois realities como Big Brother Brasil e A Fazenda (que juntos somam 34 edições) têm base consolidada de fãs e canais com transmissão 24 horas por dia, em 2001 o gênero contava apenas com o sucesso de No Limite, na Globo, que chegava à sua 3ª edição quando a Casa dos Artistas fez sua estreia. Inclusive, a data da final do programa da Globo acabou sendo adiada para fugir da disputa com o reality da concorrência.

Logo na introdução, Silvio explicava o conceito ao público, usando o logotipo da atração como base: "Já ouviram falar no buraco da fechadura? Não vão me dizer que nunca olharam no buraco da fechadura! Pela primeira vez no Brasil vocês vão saber tudo sobre os artistas. Durante sete semanas, aproximadamente 45 dias, eles estarão isolados do resto do mundo, sem relógio, sem rádio, sem televisão. É como se fosse uma prisão domiciliar de luxo."

Quem estava na primeira Casa dos Artistas?

Entre os participantes da primeira edição, constavam os atores Bárbara Paz, a campeã, Alexandre Frota, Mateus Carrieri e Taiguara Nazareth, os cantores Supla, Patrícia Coelho e Leandro Lehart, e modelos como Mari Alexandre, Nana Gouvêa, Núbia Óliiver, Marco Mastronelli e Alessandra Scatena, ex-assistente de palco de Gugu

A maioria soube usar a participação no programa a seu favor. Supla, por exemplo, distribuiu camisas de divulgação de seu desconhecido e recém-lançado álbum Charada Brasileiro (que tinha a música Green Hair, também conhecida como Japa Girl) aos colegas e fez questão de cantar suas músicas ao longo do confinamento. Pouco depois do fim da Casa dos Artistas, já havia conquistado o Disco de Platina, com mais de 250 mil cópias vendidas. Patrícia também viveu o auge das vendagens de seus CDs àquela época. Frota e Bárbara foram chamados para fazer a novela Marisol, do SBT. Em dezembro de 2001, a revista masculina Playboy aproveitou o embalo da atração para republicar ensaios antigos de Mari (1992), Núbia (1993) e Nana (1996).

Disputa judicial com a Globo

A estreia da Casa dos Artistas foi feita sem grande alarde e divulgação. De acordo com a programação divulgada pelo SBT para 28 de outubro de 2001, após o Domingo Legal, estavam previstos para ir ao ar Tentação, Sorteio da Telesena, Show do Milhão e Topa Tudo por Dinheiro. A aposta no fator surpresa deu certo, e o reality show conquistou boa audiência, ficando à frente do Fantástico entre as 20h40 e as 21h43 (33 pontos a 25, considerando cada ponto como 44 mil casas na Grande São Paulo), mas perdendo para o No Limite 3 entre as 22h45 e as 23h32 (31 pontos contra 27).

Havia discordância a respeito do motivo do marketing adotado pela emissora. "O SBT negociou com a Endemol, perdeu a concorrência para a Globo [que trabalhava para o lançamento do BBB dali a alguns meses] e depois surgiu com um programa idêntico. O sigilo pode não ter sido estratégia de lançamento, mas uma forma de veicular uma cópia sem que ninguém impedisse", afirmava Luiz Erlanger, então diretor da Central Globo de Comunicação, à época.

Dias após a estreia, em 31 de outubro, uma liminar foi concedida à Globo pelo juiz Paulo Campos Filho, da 4ª vara cível de Osasco. Nela, a Casa dos Artistas era impedida de ir ao ar pelo SBT, sob pena de uma multa de R$ 200 mil. No fim da tarde de 2 de novembro, o desembargador Marcus Vinicius dos Santos Andrade, do Tribunal de Justiça de São Paulo, acolheu o recurso do SBT e cassou a liminar. 

Ou seja, durante dois dias Silvio Santos precisou mexer na programação em cima da hora para evitar maiores problemas judiciais. O seguinte comunicado foi exibido na tela durante alguns minutos:

"Infelizmente não exibiremos hoje o programa 'Casa dos Artistas'. A TV Globo, através de liminar concedida pela Justiça, impede o SBT de exibir o programa. Esperamos que a justiça prevaleça em favor de você, telespectador, para que, em breve, possamos continuar levando até você um programa de alta qualidade como o 'Casa dos Artistas'."

Na sequência do primeiro dia de comunicado, foi ao ar o Programa do Ratinho, com duras críticas à concorrência por parte do apresentador: "Ninguém pode fazer sucesso no Brasil? É só a Globo que pode fazer, rapaz? Estamos em um País de 160 milhões [de habitantes] e o povo não manda nada".

Em entrevista ao The Noite, em 2021, Alexandre Frota destacou que, na ocasião, o próprio manda-chuva do SBT foi até a casa para dar o recado aos participantes. "Eu entrei na despensa e dei de cara com o Silvio Santos. Ele falou: 'Olha, vamos ter que interromper o programa que eu preciso conversar com todos vocês. Por causa da [liminar da] Globo". "Nós tivemos que mudar a maneira de votar. Antes a gente votava olhando para o espelho, e tivemos que votar em uma urna", contou.

Em março de 2015, o Superior Tribunal de Justiça negou provimento de recurso ao SBT na ação por plágio movida pela Globo e pela Endemol por conta da Casa dos Artistas. Segundo o colunista Flávio Ricco, o valor da ação era de cerca de R$ 18 milhões à época.

Em 2001, além da disputa na Justiça, as emissoras também costumavam se alfinetar publicamente por meio de comunicados e propagandas. Em algumas veiculadas no Estadão, por exemplo, o SBT abusava dos trocadilhos, como "Casa dos Artistas venceu o Fantástico e deixou a Globo no limite [referência ao reality da concorrente]", "A Globo começou a dançar com o Qual é a Música e só foi parar no final da Casa dos Artistas" e, por fim, "Na guerra da audiência, venceu a Paz [referência à vencedora Bárbara]". A Globo chegou a responder exaltando a derrota da Casa dos Artistas para sua novela das 8: "Clone por clone, o público preferiu o nosso". 

A Casa dos Artistas foi gravada em uma mansão no bairro do Morumbi. Porém, o imóvel ficava em uma área de zoneamento para fins estritamente residenciais, o que fez com que o SBT fosse notificado pela Administração do Regional do Campo Limpo por uso comercial clandestino da residência como locação do programa Casa dos Artistas. A multa era de 50 UFMs por mês, caso o imóvel não fosse desocupado. 

Votos e eliminações na 'Casa dos Artistas'

Os votos para decidir quem seria o eliminado da semana na Casa dos Artistas seguiam um sistema pouco convencional para os dias de hoje. Após a escolha de dois participantes pela casa, seus nomes eram levados para uma disputa em que o público decidia o perdedor - através de ligações telefônicas. Eram 20, atendidas pelo próprio Silvio Santos no palco da atração, ao vivo. Quem recebesse mais votos, deixava a casa. Eram comuns falhas durante a ligação, que atrapalhavam a fluidez do programa. Na grande final, disputada por cinco participantes,  o apresentador parecia gastar mais tempo conversando e anotando o voto dos telespectadores do que tendo contato com os participantes na casa. 

O método dividia opiniões quanto à lisura, já que muitas vezes indicava resultados discrepantes de enquetes realizadas pela internet (que, é fato, ainda engatinhava no Brasil àquela época). Conforme consta no Estadão de 9 de dezembro de 2001: 

"Amigos de alguns eliminados afirmam que tiveram suas ligações atendidas, foram questionados em quem votariam, aguardaram em linha, mas não opinaram no ar. O SBT, no entanto, assegura que não há diálogo entre os atendentes e o telespectadores antes da conversa com Silvio".

No dia 2 de dezembro, o apresentador afirmou no ar que as empresas Embratel e a Telefônica haviam solicitado que o SBT pedisse para que o público maneirasse nas ligações, já que a grande quantidade de telefonemas feitos simultaneamente havia causado uma pane no sistema no domingo anterior. Segundo ele, teriam sido cerca de 45 milhões de pessoas tentando participar.

A desistência e o retorno de Frota na 'Casa dos Artistas'

A primeira edição da Casa dos Artistas contou com duas desistências: Alexandre Frota e Leandro Lehart. 

O cantor do Art Popular afirmou que sentia falta da família: "Eu vou embora. Não aguento de saudade do meu filho. Não há nada que me convença de ficar. Nada, absolutamente nada. Preciso ir embora. O jogo acabou para mim".

Frota, por sua vez, justificou em frente às câmeras: "Eu queria deixar a casa o mais rápido possível. Já agora, se possível. Eu arrumei as minhas coisas. Eu, particularmente, vim para cá para jogar. Esse jogo não se pode jogar com o coração, tem que jogar com a cabeça. Tem que ter um líder aqui dentro, um movimento aqui dentro. Eu quero sair hoje do programa".

Em entrevista ao podcast Mais Que 8 Minutos, em 2021, o ator explicou que pediu para sair após ser colocado em uma saia justa pela produção do reality show, que teria exposto sua armação de votos com colegas. "O Silvio ainda não entendia como que era o jogo de verdade, estava se familiarizando. Ele vira e fala, do nada, na frente de todo mundo: 'Ô Frota, quer dizer que você quer tirar a Alessandra Scatena?' Aí eu fiquei com uma cara e falei: 'Não, Silvio, claro que não!'. Ele falou: 'Não? Roda o VT!'. Com todos nós assistindo! O certo era ele ter rodado o VT para quem tá em casa, não para a gente lá dentro. Aí roda e aparece eu em vários pontos da casa: 'É o seguinte, vamos tirar... A Alessandra precisa sair...'".

Alexandre Frota deixou a Casa dos Artistas em 5 de novembro, uma segunda-feira. Como se tratava do participante que mais movimentava o programa, o próprio Silvio Santos pediu para que retornasse - mostrando, mais uma vez, como as regras eram voláteis. Por volta das 21h de terça-feira, 6, ele já estava de volta ao reality show.

Em tese, o contato com informações do mundo exterior, além das que eram mostradas por Silvio Santos no contato com a casa, eram proibidas. Nos primeiros instantes de seu retorno, Frota já gritava à casa: "Eu sei tudo que tá acontecendo lá fora!" Alguns colegas até estranharam sua presença, achando que se tratava apenas de uma participação especial. "Eu fui lá fora, paguei para ver. Não tentem fazer isso. Me arrependi profundamente de ter saído daqui", contava. Posteriormente, outros participantes revelaram que foi no momento da volta de Frota que tiveram a real noção de quanto sucesso a Casa dos Artistas estava fazendo com o público. 

'Casa dos Artistas' tinha Pay-per-view

Se hoje o conceito de pay-per-view já está amplamente difundido, em 2001 ainda se tratava de uma novidade, especialmente no que diz respeito a reality shows. Com a atração em andamento, Silvio Santos negociou com a operadora de TV por assinatura DirecTV pela exibição sem cortes da Casa dos Artistas. A partir das 7h do dia 22 de novembro, era possível assistir ao reality 24 horas por dia no canal 607. 

As negociações haviam tido início duas semanas após a estreia, e para testar a reação do público ao estilo de programação, o SBT passou a exibir, em 20 de novembro, 15 minutos diários da Casa dos Artistas ao vivo, às 18h. "É claro que a experiência da exibição ao vivo funcionou como um teste para nós. Agora temos certeza de que será um sucesso no pay-per-view", explicava Rogério Brandão, Rogério Brandão, diretor de programação da DirecTV à época. 

A decisão, porém, gerou polêmica, uma vez que a Casa dos Artistas era categorizada com temática adulta e tinha classificação indicativa para maiores de 14 anos, ou seja, só deveria ser exibida após às 21h. Ao vivo, era comum também que diversos palavrões acabassem indo ao ar em plena tarde na TV aberta.

Críticas à parte, na TV fechada foram oferecidos três formatos para acompanhar o programa. Por R$ 7,90, era possível assistir ao canal durante 24 horas, a grande aposta da operadora. Por R$ 45, o pacote completo, ou seja, até a final do programa, marcada para dali a menos de um mês. Havia também o pacote Weekend, que permitia o acesso entre as 7h de sexta-feira e as 7h da segunda-feira seguinte.

Outras edições da 'Casa dos Artistas'

O SBT tentou aproveitar sucesso da edição de estreia do reality show lançando sua sequência dois meses depois, em fevereiro de 2002. À época, a primeira edição do BBB, vencida por Kleber Bambam, já estava no ar. Chegaram à final Suzana Alves, a Tiazinha, Joana Prado, a Feiticeira, André Gonçalves, Ellen Roche e Rafael Vanucci, vencedor da temporada. O filho de Vanusa só entrou na casa com o programa já em andamento, graças à desistência do rapper Xis, que não aprovou a entrada de Vitor Belfort e Carola Scarpa na casa após o início do programa.

"Me lembro como se fosse hoje. Estava gravando uma matéria para um programa do Sérgio Mallandro, e, no meio, minha assessora tocou meu telefone. Era o Magrão, diretor do SBT, falando que eu tava sendo chamado para entrar na Casa em seis horas. Foi até uma coisa engraçada, porque não deu nem tempo de eu arrumar a mala, fui direto. Minha assessora foi num shopping, comprou umas roupas e levou", relembrou Vanucci ao Estadão em 2017.

A Casa dos Artistas ainda teve mais duas edições, sem o mesmo impacto que as anteriores. Na terceira, misturou anônimos e famosos, o que o BBB faria apenas em 2020, em uma dinâmica envolvendo idolatria. Para cada um dos seis artistas, entrava junto uma pessoa que fosse sua fã. Os escolhidos foram Agnaldo Timóteo, Solange Frazão, Luiza Ambiel, Flávio Mendonça, Jorge Pontual (ator, não confundir com o jornalista) e Carola Scarpa. 

Na quarta e última edição, o programa acabou descaracterizado por completo, contando com 14 atores em início de carreira, que recebiam aulas de atuação disputando por vagas no elenco de novelas do SBT.

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