'Breaking Bad' ganha versão latina

'Breaking Bad' ganha versão latina

Gravada na Colômbia, 'Metástasis' mantém trama da série dos EUA

João Fernando, O Estado de S. Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h00

 Algum fã de Breaking Bad que passar por países como México, Panamá, Peru ou Chile e se deparar com um homem produzindo metanfetamina na TV, porém falando em outra língua, pode ter a ilusão de que Walter White voltou à ativa e resolveu partir para outros mercados. Mas não. O personagem, que rendeu um Globo de Ouro e cinco troféus do Emmy de melhor ator a Bryan Cranston, ganhou uma versão colombiana batizada de Metástasis, que em setembro começou a se espalhar por países da América Latina.

“As situações são as mesmas, mas o idioma nos faz diferentes. Nossa maneira de expressar sentimentos e emoções é diferente”, compara o colombiano Diego Trujillo, intérprete de Walter Blanco, a versão traduzida ao pé da letra do protagonista. Produzida pelos pela Sony, que distribuiu Breaking Bad no mercado latino, Metástasis é uma reprodução que tenta se afastar o mínimo do programa dos EUA.

“Tudo na adaptação foi para o nosso contexto e cultura. Nós nos apegamos à versão original e mudamos elementos para que fosse crível na Colômbia”, explica Andrea Marulanda, produtora executiva da Teleset, empresa responsável pelo projeto. A estrutura da série é a mesma: Walter, um professor de química com a vida medíocre, descobre estar com câncer e decide fabricar metanfetamina para tratar a doença. Poucos detalhes e nomes foram alterados para atenuar as diferenças regionais.

 

“Por exemplo, ele usa um ônibus escolar (como laboratório de produção da droga) em vez de um motorhome, pois eles são raros aqui. Na casa de Walter, também não há piscina, e sim uma fonte, pois ele não está no deserto e Bogotá é uma cidade fria, quase não há piscinas em casa. A casa deles é silenciosa, a nossa tem ruídos”, cita Andrea, numa referência à cidade de Albuquerque, no estado norte-americano do Novo México, onde a história original se passa.

Por questões das situações dos países, Walter Blanco dá aula em uma escola particular. “Lá, há mais recursos para o laboratório (de onde ele rouba equipamento)”, justifica a executiva. O comércio de metanfetamina passou por mudanças na. “A Colômbia é um país conhecido pelo narcotráfico e sociedade permanece afetada por isso. Como o México é maior produtor dessa droga, criamos uma luta entre os cartéis dos dois países.”

Para os roteiros latinos, uma equipe ligada a Vince Gilligan, criador da série, acompanhou o trabalho dos colombianos. O elenco, entretanto, não teve contato com seus respectivos intérpretes. “No primeiro dia de gravação, eles nos mandaram um cartão postal com uma mensagem. Não sei se eles assistiram a algo de Metástasis”, lamentou Trujillo ao Estado, por telefone.

Apesar de ter pego o papel principal, o ator nunca havia visto Breaking Bad. “Fui me inteirar e acabei pego pela série. Tive de assistir até o final”, confessa. O artista revela que o remake também gerou aversão. “Houve comentários de fãs que não suportavam que houvesse uma versão. Insultaram os canais, criadores e atores”, relata. Por outro lado, Diego diz que também houve retorno positivo. “Desde que começou pela América Latina, tivemos uma resposta de quem não conhecia. Foi uma aposta. Não era para competir de igual para igual, era um recomeço para quem vê TV aberta e não gosta do que é dublado e legendado”, avalia. “Nas redes sociais, telespectadores dizem que estão revendo a trama e dando uma segunda visão. O nosso é como uma homenagem à versão norte-americana.”

Metástasis foi lançada primeiro no Unimás, dedicado à população latinos dos Estados Unidos, onde não afetou tanto a audiência. Depois, seguiu para Panamá e México. No último, entrou no canal 5 da Televisa, na TV aberta, e triplicou o índice na faixa da meia-noite. No mês passado, a atração entrou na grade do Fox Life em outros países, incluindo a Colômbia, onde não havia ido ao ar, apesar de ser a sede da produção. Por enquanto, não há previsão de chegar ao Brasil, onde Breaking Bad foi bem no canal pago AXN, porém, fracassou ao ir ao dublada na Record, este ano.

Diferentemente da original, dividida em cinco temporadas, Metástasis vai ao ar todos os dias e é anunciada como telenovela. “Para mim, é diferente. Os personagens não são bons ou maus, como uma novela. Aqui, são mais humanos, com mais complexidade”, defende Trujillo. Entretanto, ele reconhece que o jeito latino pode dar outro tom. “O idioma determina o comportamento. Em espanhol, as pessoas enfatizam mais os gestos, falam com as mãos. Somos mais românticos e expressivos.”

Com exceção do idioma, a série latina lembra a matriz em uma primeira impressão. “A música incidental é original”, indica Andrea Marulanda, que começou as gravações em junho do ano passado, antes dos episódios finais de Breaking Bad irem ao ar. Mesmo após a revelação do desfecho de Walter White ter corrido o mundo, Walter Blanco teve o mesmo destino. “Uma das exigências da Sony é que o final fosse igual”, conta Diego Trujillo.

Consagrado em seu país, o ator já fez a versão local de Desperate Housewives. Admirador de Escrava Isaura (1976) e Cidade de Deus (2002), ele tem vontade de trabalhar no Brasil. “Teria de ser em inglês ou espanhol, pois o idioma é um limitador. A esta altura da vida, não posso com o português”, queixa-se o artista de 53 anos. Em Hollywood, ele atuou em Prova de Vida (2000), estrelado por Meg Ryan.

Nos EUA, há expectativa sobre Better Call Saul, série derivada de Breaking Bad, que será exibida pelo AMC, canal de ambas as produções. Bruce Tuchman, presidente global da emissora, que chega ao Brasil este semestres, disse ao Estado que não há previsão da versão latina do spin-off, na qual Diego Trujillo acredita. “Nosso Saúl é muito simpático.” / COLABOROU GABRIEL PERLINE 

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