Cinegroup/Reprodução
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'Brasília está cheia de marcas dos operários', diz historiadora

Pesquisadora Heloísa Starling, da UFMG, integrou a equipe responsável por dar rigor histórico à série 'Mil Dias'

Entrevista com

Heloísa Starling, professora da UFMG

Alessandra Monnerat e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2018 | 17h00

Convidada a coordenar a pesquisa para a minissérie do History 'Mil Dias - A Saga da Construção de Brasília', a historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Heloísa Starling se debruçou por pouco mais de um ano sobre depoimentos e documentos da pouco registrada aventura dos candangos que construíram a capital federal.

A professora, que escreveu 'Brasil - Uma Biografia' com Lilia M. Schwarcz, tem a hipótese de que as controvertidas obras encomendadas pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek mudaram o patamar das relações entre governo e setor da construção civil. Essa alteração teria consequências a curto, médio e longo prazo, diz a historiadora. "Essa relação promíscua entre as empresas de construção civil e o poder público é consolidada e aprovada na Ditadura Militar (1964-1985) e se desenrola na nova República com o presidencialismo de coalizão".

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A pesquisa para a série, feita com o apoio de doze alunos, também levantou alguns aspectos pouco conhecidos sobre a construção de capital, como a brutalidade da guarda da época. “Tem um episódio de trabalhadores que pediam comida melhor para a empreiteira, tem uma confusão e a Guarda Especial de Brasília chega à noite e mata todos. E essa história sumiu”, critica.  

Uma curiosidade era a forma de levar mantimentos aos construtores: os produtos eram jogados de aviões e, muitas vezes, ficavam perdidos no meio da vegetação. Para solucionar o problema, passaram a lançar a comida com gatos para que os animais miassem e os alimentos fossem encontrados. Confira abaixo os principais trechos da conversa. 

Sobre os candangos de Brasília, há muitos depoimentos e poucos documentos. Como sua equipe encontrou as histórias?

Tem muita coisa nos arquivos de Brasília e no Rio de Janeiro. Às vezes, você lê a memória de um sujeito e segue uma pista. O bacana da pesquisa é chegar em histórias como a dos gatos do Bernardo Sayão (engenheiro responsável pela infraestrutura da capital).

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Na construção da rodovia Belém-Brasília, os operários estão no meio da mata, e é preciso levar mantimentos - que jogavam lá pra baixo de avião. Mas muitas vezes não achavam os mantimentos no meio da vegetação. O que fazem então? Põem dentro do saco de mantimentos gatos vivos para os bichos miarem e os trabalhadores acharem. O roteirista achou que eu estava mentindo. Tem horas que a história parece ficção. 

Quais são as marcas que os candangos deixaram em Brasília?

As inscrições descobertas no prédio do Congresso são uma delas. Um daqueles candangos não sabia escrever e ficou desesperado. Brasília está cheia de marcas dos operários, mas essas marcas não são tão visíveis quanto deveriam ser para a população da cidade. 

É quase naturalizado: as pessoas não têm dimensão das marcas e conhecem pouco a história. Elas precisam ter mais visibilidade para que essas pessoas se interessem. Talvez a série cumpra esse papel.

Brasília teve uma construção controvertida, com prazo apertado e muitas perdas humanas. Como isso influencia a cidade que temos hoje?

Tem três grandes questões. Primeiro, o projeto da cidade é completamente excludente. A população pobre só morou em Brasília quando a cidade estava sendo construída. Foi criada uma frente de trabalho para minimizar a falta de trabalho no Nordeste - no fim, ou os trabalhadores voltam ou vão favelizar o entorno de Brasília.

Segundo, tinha uma guarda muito violenta no apoio da construção (a Guarda Especial de Brasília, GEB). Tem um episódio de trabalhadores que pediam comida melhor para a empreiteira, tem uma confusão e a GEB chega à noite e mata todos. E essa história sumiu, ninguém fala nela. Essas são as histórias que Brasília não quer contar.

E o terceiro fio que você pode puxar para entender Brasília é perguntar: quanto custou a construção? Ninguém sabe. Eu tenho uma hipótese que a origem da mudança nessa relação entre empresários da construção civil e do poder público está na construção de Brasília.

O Juscelino Kubitschek, presidente entre 1956-1961, criou uma administração paralela que não estava sujeita aos controles do poder público. Ele fez aprovar na época uma regulamentação que permitia ele escapar do controle legislativo. Ali não teve controle.

O patamar das relações entre governo e setor da construção civil mudou e vai ter consequências a curto, médio e longo prazo. Essa relação promíscua entre as empresas de construção civil e o poder público é consolidada e aprovada na Ditadura Militar (1964-1985) e se desenrola na nova República com o presidencialismo de coalizão.

Uma das personagens, a arquiteta Gilda, é estuprada em um episódio. Quão comum eram casos de violência sexual?

Eram poucas mulheres, tanto que os operários iam para Goiás. Em Brasília, só tinha o acampamento e o canteiro. As poucas mulheres que chegam estão diante de uma massa masculina sem limite. Os casos de estupro eram muito frequentes.

Tem uma história terrível de uma mulher que entra num ônibus e os caras estupram dentro do ônibus. E tinha mulheres que desempenhavam papéis importantes, como arquitetas. Tem poucas, mas são muito valentes e muito ousadas.

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