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Paulo Gustavo precisou ser intubado no dia 21 de março por complicações da covid-19 Instagram / @paulogustavo31

Brasil em luto coletivo por Paulo Gustavo, que morreu em decorrência da covid-19

Chorar, sentir raiva ou cansaço: acolher e legitimar a dor é importante

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 16h06

Sabe aquela sensação de que o artista é praticamente da família? Por vezes, rimos e até conversamos com ele, enquanto aparece em um filme, uma série ou uma novela. Assim é a relação de um fã com seu ídolo. Se distanciar do sentimento de perda quando estamos diante da morte, inclusive em relação àqueles que nunca vimos pessoalmente, é praticamente impossível. É assim com a perda de Paulo Gustavo, que morreu em decorrência de complicações da covid-19 nesta terça-feira, 4. “Eu gostava tanto dele! Parece que se foi um membro da família. Quando vi na TV não deu pra conter as lágrimas”, declara Adriana Pelege, que é auxiliar administrativa.

A psicóloga Juliana Guimarães ressalta que o ator era uma figura de muita relevância, representava resistência, aceitação e amor. Além disso, na análise da especialista em luto, Paulo Gustavo deu uma contribuição importante em tempos de pandemia: o humor. “É uma ferramenta que tem sido fundamental nesse momento que estamos vivendo, de tantas dores, em que esse coletivo já está tão machucado pelo contexto de perdas. Também sentimos a perda em relação às suas obras. É muito comum as pessoas falarem: ‘Nossa, não o conhecia pessoalmente, mas estou sofrendo como se fosse alguém da família’. E, simbolicamente, é. São histórias que ele contou, filmes que participou, coisas que falou e que tocam nossas vidas direta e verdadeiramente”, afirma.

O psicanalista Leonardo Goldberg, doutor em Psicologia pela USP, avalia que esse luto desfaz toda a fragmentação social do País e torna a dor coletiva. “O Brasil inteiro conhece os muitos Paulos que se foram: a mãezona Dona Hermínia, o malandro Valdomiro, o descontraído Aníbal. Perdemos, além de um sujeito com o qual era fácil se admirar e se identificar, que era pai, mãe, amante, amado, que abrigava sua família visivelmente pela via do amor, um pedaço de nossas pequenas histórias, do riso que produz intimidade entre o ator e o público e dos compartilhamentos gerados por isso”, ressalta.

A jornalista Camila Mattos se sentiu tão mal diante da morte de Paulo Gustavo e as notícias relacionadas ao aumento de casos de infecções por coronavírus que decidiu chamar as amigas para um encontro virtual. “Que tempos difíceis estamos vivendo, né? A morte do Paulo Gustavo, pandemia e a chacina na escola em Santa Catarina me deixaram muito deprimida. Estamos há tanto tempo em casa. Sei que a rotina toma muito do nosso tempo, mas acho bacana esse tempinho pra gente”, afirma.

O fato de muita gente buscar justificativas para a morte diante da covid-19, como comorbidades ou idade avançada, parece não fazer sentido. Antes de contrair o vírus, Paulo Gustavo estava sadio, aos 42 anos. “Quando a morte se apresenta através de um desastre e, portanto, a admitimos como um “acidente” de percurso, a primeira coisa que a população faz é uma equação que calcula diferenças entre o falecido e nós mesmos: comorbidades, probabilidades, descuidos. Quando um sujeito novo, saudável, produtivo e alegre se vai, isso desmonta toda nossa equação e emite um alerta: há um incontrolável da pandemia que coloca todos em risco e nossa única opção é acolher os alertas da ciência diante disso”, considera Leonardo Goldberg.

A comoção entre os brasileiros começou no instante em que Paulo Gustavo deu entrada na UTI por causa da covid-19, em março. Ele intubado, recebeu um ‘pulmão artificial’ e, a cada boletim médico otimista que era divulgado, a esperança surgia. Não foram poucas as ações nas redes sociais que pediam orações. O mesmo ocorre agora após a morte do artista. “Devido ao distanciamento social, os ritos fúnebres presenciais são evitados, as homenagens e toda escrita para e sobre os mortos pode confortar os vivos através do compartilhamento de lembranças e afetos”, concluiu Leonardo Goldberg, autor do livro Das Tumbas às Redes Sociais.

Para tentar aliviar a dor dos brasileiros, a psicóloga Juliana Guimarães enfatiza que é preciso acolher os sentimentos e dar voz às emoções: “Use as redes de apoio possíveis nesse momento. O luto coletivo também traz uma sensação de pertencimento. Não estamos sozinhos. Pode chorar, sentir raiva, cansaço, tudo o que uma experiência de dor nos traz”.

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Morre o ator Paulo Gustavo, aos 42 anos, vítima da covid-19

Ator, humorista e diretor estava internado desde o dia 13 de março por causa de complicações do novo coronavírus

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2021 | 22h13

Ator, humorista, diretor e roteirista, Paulo Gustavo morreu nesta terça-feira, 4, aos 42 anos em decorrência de complicações da covid-19 . Paulo Gustavo estava internado desde o dia 13 de março, em um hospital no Rio de Janeiro - ele foi intubado menos de 10 dias depois da internação.

O ator, que passou a maior parte do tratamento em estado muito grave, havia apresentado alguma melhora no fim de semana. No domingo, 2, porém, ele teve uma embolia, insuficiência cardíaca e lesões cerebrais devido a uma fístula broncovenosa, uma espécie de abertura entre os pulmões e as veias. 

“Às 21:12h desta terça-feira, 04/05, lamentavelmente o paciente Paulo Gustavo Monteiro faleceu, vítima da covid-19 e suas complicações.  Em todos os momentos de sua internação, tanto o paciente quanto os seus familiares e amigos próximos tiveram condutas irretocáveis, transmitindo confiança na equipe médica e nos demais profissionais que participaram de seu tratamento.  A equipe profissional que participou de seu tratamento está profundamente consternada e solidária ao sofrimento de todos.", diz o o último boletim médico divulgado pelo hospital.

Cerca de duas horas antes, a equipe média havia emitido um outro boletim informando que "o estado de saúde de Paulo Gustavo estava se deteriorando de forma importante" e que embora os sinais vitais do ator ainda existissem, o quadro era irreversível.

 

Trajetória de Paulo Gustavo

Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 1978. Ele pertence a uma geração de comediantes que se formaram na Casa de Artes de Laranjeira, a CAL, no Rio, como Fábio Porchat e Marcus Majela, entre outros. Seu primeiro sucesso aconteceu em 2004 quando, na peça Surto, apresentou a personagem que marcaria sua carreira, Dona Hermínia. No ano seguinte, após se formar na CAL, passou a integrar o elenco de Infraturas, mas o grande reconhecimento de público veio em 2006 com o espetáculo Minha Mãe é uma Peça, que rendeu três adaptações para o cinema (2013, 2016 e 2019), que conquistaram enorme bilheteria.

Dona Hermínia surgiu como uma brincadeira, quando ele imitava a própria mãe e os colegas morriam de rir. Trata-se de uma típica dona de casa que, sempre à beira de um ataque de nervos, toma as atitudes mais engraçadas. Além de inspirar a peça, tornou-se um dos personagens fixos do programa de TV 220 Volts, no canal Multishow.

Não foi fácil transpor de uma mídia para outra e ainda preservar o sucesso. A mãe da peça era diferente em relação à que aparece na tela. “Mudamos tudo, a maquiagem, o gestual, até essa coisa de o ex-marido e os filhos aparecerem, o que não se dá nem na peça nem na TV. É outra coisa, realmente”, contou Paulo Gustavo ao Estadão, em 2013.

Paulo Gustavo dizia que devia tudo à mãe, às tias. “Meu avô dizia que, por baixo daqueles vestidos, elas eram todas homens”, comentou, com uma risada escandalosa.

A transformação do teatro para o cinema, aliás, foi uma decisão pessoal. “No filme Divã, eu era ator contratado. Fiquei de bico calado. Fazia o cabeleireiro da personagem de Lília Cabral. Aqui, a personagem é minha, o filme é meu. Palpitei em tudo. O roteiro é do Fil Braz e meu. Mas o André (Pellenz, diretor) sabe tudo de cinema. Essa coisa do ritmo, da edição, tudo o que se refere ao visual, ao cenário, André é fera.”

Voltando à sua trajetória, Paulo Gustavo protagonizou outra peça em 2010, Hiperativo, dirigido por Fernando Caruso - o título descrevia bem sua personalidade. No ano seguinte, assumiu a apresentação do programa 220 Volts e, em junho de 2013, ainda no Multishow, estreou o sitcom Vai que Cola, que também ganhou uma adaptação para o cinema, em 2015.

Mas o estrondoso sucesso de Minha Mãe é uma Peça nas telonas o convenceu a voltar para uma terceira parte - e o público comprovou que não estava cansado da personagem. Na época do lançamento, Paulo Gustavo disse ao Estadão que gostaria de atingir um público maior com Minha Mãe 3. “Não me importo de fazer mais, nem temo a concorrência. Já enfrentamos Star Wars no passado e Frozen. Qual era o Star Wars? Ah, sei lá. Nossos números são grandes, mas deveria haver reserva de mercado para a produção nacional. Os filmes grandes atraem público e as pessoas sabem que vão se divertir com D. Hermínia. Mas há filmes menores que também têm de ter espaço. O público precisa se conscientizar disso, o mercado também.”

Assista ao vídeo:

 

 

Naquela terceira parte, agora dirigida por Susana Garcia, D. Hermínia vai morar sozinha, já que a filha está grávida e o filho vai se casar. Ela também encara a volta do ex-marido (Herson Capri). “Dá para imaginar muitas tramas para manter a D. Hermínia ocupada no ar”, afirmou Gustavo.

Assista ao vídeo:

 

Criado em uma família de classe média no Rio, Paulo Gustavo nunca teve problema com sua sexualidade, desde jovem. Em dezembro de 2015, casou-se com o dermatologista Thales Bretas e, quatro anos depois, nasceram os filhos Romeu e Gael, nascidos de diferentes barrigas de aluguel.

 

 

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Conheça os filmes interpretados por Paulo Gustavo

Paulo Gustavo, que morreu nesta terça-feira, 4, vítima do coronavírus, participou de grandes sucessos, como 'Minha Mãe É uma Peça'

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 de maio de 2021 | 22h27

Paulo Gustavo, que morreu aos 42 anos nesta terça-feira, 4, participou de vários filmes antes de iniciar a sequência de estouros de bilheterias com Minha Mãe é uma Peça, que teve três partes e logo se incluíram entre as maiores arrecadações do cinema brasileiro.

Aos 42 anos de idade, ele foi contaminado pelo novo coronavírus e, no dia 13 de março de 2021, teve de ser internado em um hospital no Rio de Janeiro. A situação se complicou, e o ator teve de ser intubado menos de dez dias depois. Uma série de procedimentos médicos foi realizada para dar mais oxigênio para ele, inclusive a Oxigenação por Membrana Extracorpórea, utilizado para pacientes que têm comprometimentos sérios em relação ao pulmão e o coração.

O Telecine Play disponibilizou, gratuitamente para o público por 30 dias, todos os filmes do ator que estão na plataforma de streaming. 

Conheça os filmes feitos por Paulo Gustavo

 

  • A Guerra dos Rocha (2008)

No longa dirigido por Jorge Fernando, Paulo Gustavo teve uma pequena participação, interpretando o personagem identificado como Funcionário. A comédia foi estrelada por Ary Fontoura, que vive a velhinha Dina Rocha, Diogo Vilela e Giulia Gam, entre outros.

 

  • Xuxa em O Mistério de Feiurinha (2009)

A eterna rainha dos baixinhos é a Cinderela que, ao lado Rapunzel (Angélica), Branca de Neve (Daniele Valente), Chapeuzinho Vermelho (Samantha Schmütz) e Bela (Lavínia Vlasak), está prestes a completar bodas de prata com seus respectivos maridos. No filme dirigido por Tizuka Yamazaki, Paulo Gustavo faz uma participação como Caio Lacaio, assim como Hebe Camargo, que vive a Rainha Mãe. Você pode assistir esse filme na Apple TV.

 

  • ​Divã (2009)

Mercedes (Lília Cabral) é uma mulher casada que, por curiosidade, procura um analista. Aos poucos, descobre facetas que desconhecia. Na comédia dirigida por José Alvarenga Jr., inspirada na obra de Martha Medeiros, Paulo Gustavo interpreta Renée Gama. O filme alcançou uma bilheteria com mais de 1,7 milhão de espectadores. Você pode assistir esse filme na Globoplay.

 

  • Os Mercenários (2010)

Filme internacional, dirigido, escrito e interpretado por Sylvester Stallone, o longa tem elenco estelar (Mickey Rourke, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger) e Paulo Gustavo, no papel identificado como Soldado.

 

  • De Volta ao Divã – O Filme (2011)

Com o sucesso do primeiro longa, era inevitável que logo viesse uma continuação – e Paulo Gustavo continua vivendo o personagem Renée.

  • Minha Mãe É uma Peça – O Filme (2012)

O primeiro grande sucesso de Paulo Gustavo, que o transformou em um dos grandes sucessos de bilheteria no cinema nacional. Trata-se da transposição para a tela da peça em que Gustavo vive Dona Hermínia, mulher de meia idade, divorciada e que, hiperativa, não larga do pé dos filhos Marcelina (Mariana Xavier) e Juliano (Rodrigo Pandolfo). Foi o filme mais assistido nas salas nacionais em 2013, com mais de 4,6 milhões de espectadores. Você pode assistir aqui

 

  • Os Homens São de Marte... E É Pra Lá que Eu Vou (2014)

Comédia escrita e interpretada por Mônica Martelli, que vive Fernanda, que trabalha organizando a cerimônia mais importante do imaginário feminino, o casamento, mas é solteira. Paulo Gustavo é o coprotagonista da história, no papel de Aníbal. Você pode assistir o filme aqui.

 

  • Vai que Cola – O Filme (2015)

Inspirado na série de sucesso da TV, o longa traz Paulo Gustavo como Valdomiro que, depois de ser vítima de um golpe que levou todo seu dinheiro, é obrigado a se mudar para a pensão da Dona Jô (Catarina Abdalla), no Méier, barro de subúrbio do Rio. As situações exageradas do filme foram alvo tanto de críticas como de elogios. O público gostou, pois teve mais de 3 milhões de espectadores no cinema. Você pode assistir aqui.

 

  • Minha Mãe É uma Peça 2 (2015)

Também era inevitável que as histórias de Dona Hermínia ganhassem uma continuação no cinema. Agora rica e famosa, a mãe super protetora é obrigada a encarar a casa vazia, com a saída dos filhos. O público continuou fiel e, apenas no primeiro fim de semana em cartaz, o longa alcançou 1 milhão de espectadores. Atualmente, já computa mais de 9 milhões de pessoas que foram ao cinema. Você pode assistir aqui.

 

  • Minha Vida em Marte (2017)

Outra aposta numa história com personagens conhecidos, que fez sucesso. Fernanda (Monica Martelli) está casada com Tom (Marcos Palmeira), com quem tem uma filha de cinco anos, Joana (Marianna Santos). A relação está desgastada depois de um casamento de vários anos, o que gera atritos constantes. A superação da crise é ajudada por seu sócio Aníbal (Paulo Gustavo). Você pode assistir aqui.

 

  • Minha Mãe É uma Peça 3 (2019)

Ainda fonte inesgotável, a história mostra Dona Hermínia se reorganizando, uma vez que seus filhos estão formando novas famílias. Além de se tornar avó mais uma vez, com o nascimento do filho de Marcelina, ela acompanha o casamento de Juliano. Graças ao público fiel, o longa superou, em seu primeiro fim de semana, dois grandes rivais na bilheteria: Star Wars: A Ascensão Skywalker e Frozen 2. O fechamento dos cinemas em março de 2020, por causa da pandemia do novo coronavírus, interrompeu a arrecadação. Você pode assistir aqui.

 

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Luto coletivo: Como lidar com a morte de uma figura pública?

Lembranças pessoais dos indivíduos podem consolidar relação de intimidade

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 13h11

Quando uma figura pública como o apresentador Gugu Liberato morre, o sentimento é de luto coletivo. É difícil de acreditar que a pessoa não está mais entre nós.

Neste caso, mesmo sem conhecer Gugu pessoalmente, os telespectadores tiveram contato com o apresentador ao longo de décadas por meio da TV, como ressalta o psicólogo Leonardo Goldberg, doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (SP).

“Pessoas como o Gugu, com tanto tempo de televisão, mobilizam nos espectadores uma sensação de intimidade, sobretudo porque quando pensam em momentos da própria vida, em histórias passadas, evocam lembranças atreladas aos programas televisivos: ‘Quando eu era criança, assistia o Gugu com meus avós’. Essa lembrança afetiva consolida uma relação de intimidade entre espectador e apresentador que faz com que a perda seja tão intensa quanto a de amigos próximos”, explica.

Augusto Liberato sofreu um acidente doméstico na residência dele em Orlando, nos Estados Unidos, no dia 20 de novembro. Ele caiu de uma altura de quatro metros e foi levado imediatamente ao hospital. A possibilidade de morte do apresentador gerou angústia e ansiedade. A notícia oficial só foi confirmada dois dias depois.

O corpo do apresentador chegou ao Brasil nesta quinta-feira, 28, e seguiu para a Assembleia Legislativa de São Paulo. 

No velório, além de familiares e amigos de Gugu, uma multidão de fãs, de várias partes do País, se aglomerou do lado de fora da Alesp na esperança de dar um último adeus para o apresentador. Pessoas com fotos, cartazes, faixas e elementos que representam a atuação de Gugu no palco, como o ‘pintinho amarelinho’.

O que falar (ou não) para uma pessoa que enfrenta o luto?

Como lidar melhor com a questão do luto que, neste caso, é coletivo? O psicólogo Leonardo Goldberg faz uma avaliação: “A única possibilidade é através do rito fúnebre, sobretudo aberto ao público. A importância do rito demarca bem um momento de despedida, um antes e um depois”, explica. 

O luto nas redes sociais

O luto coletivo pode ser observado também na internet. Nas redes sociais, os perfis de Gugu Liberato estão ativos. E os fãs seguem escrevendo homenagens ao apresentador. “Descanse em paz, ícone!”, escreveu um seguidor no Twitter.

Na avaliação de Leonardo Goldberg, autor do livro Das Tumbas às Redes Sociais - Um Estudo sobre a Morte e o Luto na Contemporaneidade, vai demorar um tempo para que a população tenha um sentimento de ‘cair a ficha’ em relação à morte de Gugu Liberato

“Conceber a morte de alguém se trata mais de uma questão lógica que cronológica. Apesar de seu anúncio fúnebre, ainda demorará um tempo para que os espectadores percebam que aquele que respondia, interagia, já não responde mais. Por isso a importância do rito fúnebre, e a partir disso cada um lidará com a realização do luto de uma forma particular”, conclui o psicólogo. 

 

 

 

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'Seria preciso um luto coletivo para gravar o nome de cada pessoa'

Antropólogo John Cowart Dawsey, professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, avalia efeitos da pandemia na sociedade e relações com a morte de George Floyd, nos Estados Unidos

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 11h00

Está muito distante da realidade brasileira a criação de monumentos para que as pessoas possam viver coletivamente a experiência do luto pelas mais de 40 mil vítimas da covid-19? Para o professor John Cowart Dawsey, do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, essa ideia mereceria ser levada em consideração. A pandemia do novo coronavírus vem mudando de forma profunda a relação das pessoas com a morte que seria preciso uma espécie de luto coletivo.

“Seria preciso um luto coletivo para gravar o nome de cada pessoa. Tem gente que grava o nome de outras pessoas no corpo. Nós teríamos de gravar esses nomes no corpo coletivo, na alma brasileira, para lembrar as pessoas”, diz o estudioso.

O especialista, que nasceu no Brasil e possui cidadania norte-americana por causa da mãe e avós, dedica-se aos estudos da antropologia da experiência e já acompanhou algumas pesquisas sobre a morte. Uma delas analisa a relação entre a busca pelo esclarecimento das mortes durante a ditadura militar e o luto dos familiares. Com a pandemia, ele acredita que a proibição dos ritos de despedida das vítimas por questões sanitárias dificulta a aceitação da morte. 

Dawsey também vê relações entre a pandemia e a morte do ex-segurança negro George Floyd, nos Estados Unidos, que causou protestos mundiais contra o racismo. “Todos nós, a sociedade e o planeta, precisamos respirar. As sociedades não vão conseguir respirar com o joelho no pescoço”, disse ao Estadão.

Quais mudanças a pandemia vem trazendo para a relação das pessoas com a morte?

A morte cria um vazio pela ausência da pessoa e pela ausência de sentido. São momentos cruciais e importantes. É um momento liminar. Por isso, nós criamos os ritos de despedida. As pessoas se reúnem e rememoram a história de vida da pessoa que se foi e a própria história individual. É importante vivermos juntos essa experiência da morte. Não poder estar junto é muito duro e muito difícil. Estamos vivendo de forma coletiva, mas quem perde pessoas queridas sofre muito com essa falta do ritual. É possível sentir como se a pessoa ainda estivesse ali. É quase a presença de uma ausência, uma dor muito grande. A experiência não termina.

O que significam 40 mil mortes? É possível pensar em um luto coletivo?

Essa é uma pergunta especial. Nós precisaríamos de um luto coletivo, como um corpo social, não individual. Elas morrem junto e depois renascem de alguma forma. A coletividade precisa olhar o que está acontecendo e sofrer junto, ter empatia com quem está sofrendo. Em Washington, temos um monumento com os nomes dos soldados que morreram no Vietnã. Em Nova York, temos as vítimas dos ataques às “Torres Gêmeas”. Aqui, precisamos também pensar nas pessoas. Seria preciso um luto coletivo para gravar o nome de cada pessoa. Tem gente que grava o nome de outras pessoas no corpo. Nós teríamos de gravar esses nomes no corpo coletivo, na alma brasileira, para lembrar as pessoas. Saber seus nomes e suas histórias. A TV, os jornais e os outros veículos de comunicação fazem isso, mas precisaríamos viver isso juntos.

Como será o "novo normal" na relação com a morte?

Antes da pandemia, o normal já era assustador. A gente vem ignorando a morte, mas a morte não nos ignora. A gente vem ignorando muitas mortes sem sentido, nas periferias, nos campos, nas florestas. Existe muito ódio sendo produzido. Raiva que vira dispositivo do poder e culturas do terror. Diante do vírus, a gente precisa das forças da vida. Esse movimento que ocorre nos Estados Unidos, pela morte do homem negro, no qual muitas pessoas repetem as últimas palavras dele ("I can't breathe"/"Eu não posso respirar"), tem relação com o vírus, uma doença respiratória. É a própria vida social.

Como assim?

As sociedades não vão conseguir respirar com o joelho no pescoço. Temos de cuidar das relações da vida social, da democracia – acho que nunca chegamos a uma democracia plena -, buscar igualdade, respeito e carinho. As pessoas são essenciais, especialmente as profissionais de saúde que cuidam de todos que estão entre a vida e a morte. A gente precisa de formas de cura e de criar empatia. O planeta também precisa respirar. Algumas reportagens mostram como o planeta está respirando melhor com a parada da indústria e nos movimentos dos carros. A gente precisa repensar nossa vida para que o planeta precisa respirar. A própria vida do planeta pode renascer. Todos nós precisam respirar.  

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