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Black blocs ganham sobrevida na TV

‘Plano Alto’, nova série da Record, dramatiza protestos que tomaram as ruas desde junho do ano passado

Entrevista com

Marcílio Moraes

Gabriel Perline, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2014 | 16h00

O tema esfriou, mas ainda é pauta em conversas, sobretudo neste momento de campanha eleitoral. Motivado pelos protestos que tomaram as ruas em junho do ano passado, o autor Marcílio Moraes criou Plano Alto, série política da Record, dividida em 12 episódios, que estreia na terça-feira (30), às 23h30, e entra no universo dos black blocs, traçando um paralelo com outros movimentos políticos que habitam nossa história: as lutas armadas e os caras-pintadas.

“Fiz a série trabalhando com as engrenagens do poder, com os bastidores e interesses que movimentam essa máquina. Fui pelo lado da contestação”, explica o autor.

Como nasceu Plano Alto?

A Record me propôs fazer uma série policial, mas eu já tinha trabalhado este estilo. Daí fui para a linha política, pois desde os protestos, de junho do ano passado, a política voltou para o debate nacional.

Para você, o assunto não enfraquece após a Copa do Mundo?

Eu acho que aquelas manifestações ainda repercutem. Por mais que não tenham mais acontecido, elas entraram para nossa história, mudaram o País. E o clima mudou. Os nossos governantes estão mais atentos e mais assustados com o poder do povo.

E como você desenvolve isso?

Tentei fazer a série trabalhando com as engrenagens do poder, com os bastidores e interesses que movimentam essa máquina. Fui pelo lado da contestação e uni as três gerações de contestadores: as lutas armadas, os caras-pintadas e os black blocs.

Como aparecem juntas?

Os protagonistas são uma família de alma contestadora. Guido Flores (Gracindo Junior), governador do Rio de Janeiro, participou das lutas armadas; seu filho, o deputado federal João Titino (Milhem Cortaz), foi um cara-pintada; e o neto, Frederico (Bernardo Falcone), se une aos black blocs.

Há alguma relação com personagens da cena política atual?

Não, todos são fictícios. E a trama se movimenta em torno de uma CPI que investiga as denúncias de corrupção e desvio de verba pública promovidas por Guido. São fatos reais, com pessoas que não fazem relação com ninguém que está ou esteve no poder.

Você tece alguma crítica ao sistema atual? 

Olha, eu tentei construir esta história de uma forma que contivesse este momento político e todas as referências que tenho, mas fiz de um jeito para que ninguém pudesse identificar um personagem ali, entende? Não há uma referência. Tem um governador que vem da luta armada, mas que ninguém poderá dizer que é o José Dirceu, o Aloísio Nunes, etc. É alguém dessa geração, tal como eu, que você não pode identificar. 

A série pode influenciar o eleitorado que esteja indeciso ou esqueceu desta pauta?

Também não faço referência aos partidos. Os black blocs não são chapa branca, não estão fazendo o jogo de algum político. É um grupo de anarquistas contra o Estado. Inclusive, seu ato mais rebelde na série é a invasão do prédio da Receita Federal. Em termos de esquerda isso é um pecado, uma blasfêmia. 

Estão previstas cenas de orgias na série, algo surpreendente para os padrões da Record. Como você conseguiu emplacar?

(Risos) Ninguém reclamou. A Record não é tão censora. Na TV aberta você precisa tomar mais cuidado com o que exibe. E eu também não gosto de escrever muita sacanagem, então esse tipo de conflito eu nunca tive com a emissora.

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